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Capa do romance Tarde Demais Para o Seu Pedido Desesperado

Tarde Demais Para o Seu Pedido Desesperado

Clara amou Heitor por dezessete anos, mas ele a rejeitou como apenas uma irmã ao se encantar pela cruel Fabiana. Após sofrer um ataque planejado pela rival, Clara perde a visão e Heitor escolhe acreditar na vilã. Com o apoio do médico Jairo, ela decide seguir em frente com um casamento de fachada. Contudo, no altar, Heitor surge desesperado, implorando por perdão e propondo matrimônio à mulher que ele tanto negligenciou no passado.
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Capítulo 3

Ponto de Vista: Clara Valente

O mundo girou em seu eixo. Observei, como se em câmera lenta, o nó apertado de ansiedade na testa de Heitor se suavizar, substituído por um olhar de alívio atordoado e inconfundível. Ele estava feliz. O pensamento foi um caco de gelo no meu coração.

"Uau", consegui sussurrar, a palavra parecendo estranha na minha língua. "Isso é... isso é uma ótima notícia. Parabéns."

O sorriso de Fabiana se alargou, seus olhos brilhando de triunfo. "Obrigada, Clara! Estamos tão animados." Ela se inclinou, baixando a voz conspiratoriamente. "Você poderia me fazer um favor enorme e guardar segredo por um tempo? Queremos contar aos nossos pais pessoalmente, fazer uma surpresa especial."

Heitor apenas ficou ali, um sorriso bobo e chocado no rosto, concordando com a cabeça. Ele ia ser pai. Com ela. Ele nem sequer olhou para mim. Era como se eu nem estivesse ali.

Uma pergunta desesperada e tola subiu pela minha garganta. "Vocês não estão... com medo? Quero dizer, vocês nem se formaram ainda."

Fabiana acenou com uma mão desdenhosa, o grande diamante em seu dedo capturando a luz. "Por favor. Eu posso simplesmente tirar um ou dois semestres. Minha família vai ficar emocionada. Eles queriam que eu me assentasse." Seu olhar se voltou para mim, um brilho de aço sob a doçura.

"Clara, por favor", Heitor finalmente disse, sua voz suave, mas firme. Ele estava olhando para mim agora, mas seus olhos imploravam em nome de Fabiana. "Só por um tempinho. Não conte a ninguém."

O peso de seu pedido me pressionou, sufocando-me. Meu corpo inteiro parecia tenso, enrolado como uma mola. Eu era a guardiã do segredo feliz deles, um segredo que estava me rasgando por dentro.

Dei um aceno brusco, incapaz de formar palavras. "Eu tenho que ir", murmurei, virando-me e me afastando o mais rápido que minhas pernas trêmulas permitiam. Não olhei para trás, mas podia sentir o olhar surpreso de Heitor em mim. Minha partida rápida era tão diferente da minha presença usualmente demorada em sua vida.

Entrei em um beco, o fedor de lixo enchendo meus pulmões, e deslizei pela parede, meu corpo finalmente cedendo. As lágrimas vieram, silenciosas e agonizantes. Era real. Era tudo real. Um bebê. Uma família. Um futuro do qual eu não fazia parte.

*Deixe ele ir*, uma voz na minha cabeça gritou. *Ele é pai agora. Você precisa deixar ele ir.*

Mas por que tinha que ser tão rápido? Como dezessete anos de história compartilhada, de piadas internas e promessas secretas, poderiam ser apagados por alguns meses de um romance turbulento?

De volta ao hospital, Fabiana me observou fugir, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. Ela se virou para Heitor, que ainda me olhava com uma carranca.

"Heitor?", ela disse suavemente, a mão em seu braço. "Está tudo bem?"

"Sim", ele disse, balançando a cabeça como se para clareá-la. "Não é nada."

"Você está... bravo comigo?", ela perguntou, o lábio inferior tremendo ligeiramente. "Por ter conseguido aquele chá especial do exterior para sua mãe? Eu sei que você disse que ela não queria incomodar ninguém com a doença dela, mas eu só queria ajudar..."

A expressão de Heitor se suavizou. Ele a puxou para um abraço, bagunçando seu cabelo. "Claro que não. Não seja boba. Foi uma boa desculpa. Obrigado." Ele olhou uma última vez na direção em que eu havia desaparecido, uma emoção estranha e indecifrável em seus olhos.

Fabiana viu aquele olhar. Ela sentiu a sutil mudança em sua atenção. E naquele momento, uma determinação fria e dura se instalou em seu coração. Ela sabia que eu era apaixonada por Heitor. Era pateticamente óbvio. E ela não daria, sob nenhuma circunstância, a menor chance para eu reconquistá-lo.

Alguns dias depois, meu celular vibrou com uma mensagem de Fabiana.

*Oi Clara! Eu e umas amigas vamos fazer compras no centro. Você devia vir! Vai ser divertido :) bjs*

Olhei para a mensagem, uma onda de náusea me percorrendo. A última coisa que eu queria era passar uma tarde com a mulher que estava vivendo meu sonho.

"Você deveria ir", disse minha mãe, espiando por cima do meu ombro. "É bom sair. E é importante se dar bem com a namorada do seu melhor amigo."

O tremor na minha voz era inegável quando respondi. "Ok, mãe." Seu rosto se suavizou com uma pontada de simpatia. Ela sabia o quanto isso estava me custando.

A tarde de compras foi uma tortura especial. Fabiana e suas duas amigas, ambas cópias dela em suas roupas de grife e expressões entediadas, flutuavam de uma boutique de luxo para outra. Eu as seguia, uma sombra silenciosa e desajeitada.

Fizemos uma pausa em um café chique. As garotas tagarelavam, a conversa delas um turbilhão vertiginoso de fofocas e nomes de marcas.

"Ah, Fabi, esse colar é divino!", uma delas, uma loira chamada Tiffany, exclamou. "É novo?"

A mão de Fabiana foi para o delicado pingente de diamante em seu pescoço. "O Heitor me deu ontem à noite", disse ela, sua voz pingando de orgulho casual. "Ele não é o mais fofo?"

Senti uma pontada familiar. Heitor nunca me dera joias. Nenhuma vez em dezessete anos.

Nesse momento, o celular de Fabiana tocou. Seu rosto se iluminou. "É ele!", ela gritou, atendendo com um meloso: "Oi, meu bem."

Tentei ignorar o lado dela da conversa, concentrando-me em mexer meu latte superfaturado, mas suas palavras eram como pequenos punhais. "Ah, que incrível! ... Sim, claro, estarei lá. ... Eu também te amo."

Ela desligou, o rosto brilhando. "A mãe do Heitor quer me conhecer", ela anunciou para a mesa. "Ela me convidou para jantar lá hoje à noite."

"Meu Deus, você vai conhecer os pais!", Tiffany gritou. "O casamento vai rolar com certeza!"

Senti o ar sair dos meus pulmões. Casamento. A palavra ecoou no silêncio repentino da minha mente. Eu provavelmente seria convidada para ser madrinha. O pensamento era tão grotescamente doloroso que quase ri alto.

Os olhos de Fabiana, afiados e calculistas, pousaram em mim. "Você devia ir comigo visitar a Sra. Reis um dia, Clara. Tenho certeza de que ela adoraria te ver." Era um jogo de poder, uma forma de me lembrar de seu novo e íntimo lugar na família Reis, um lugar que costumava ser meu.

"Estou um pouco ocupada com as provas", eu disse, minha voz tensa. "Mas, por favor, diga a ela que mandei um oi."

"Claro", disse Fabiana, seu sorriso não alcançando os olhos. "Com certeza direi. Talvez da próxima vez o próprio Heitor possa te receber." A implicação era clara: Ele é o anfitrião agora, e você é a convidada.

Senti uma onda de vergonha e inadequação me invadir. Fabiana era linda, confiante e de um mundo de riqueza e influência que eu só podia imaginar. O que eu tinha a oferecer em comparação? Um amor quieto e constante que ele nem queria.

Fabiana e suas amigas se levantaram para sair para o jantar. Eu estava prestes a juntar minhas coisas e ir para casa quando Tiffany, a loira, "acidentalmente" tropeçou.

Sua xícara cheia de café fervente voou pelo ar e atingiu em cheio meu peito e meu braço.

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