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Capa do romance Tarde Demais Para Arrependimento, Meu Amor

Tarde Demais Para Arrependimento, Meu Amor

Beto e eu fundamos uma empresa de design, mas tudo ruiu quando ele contratou Gilda. Enquanto eu viajava, ela me substituiu e o manipulou. Ao ver meu gato maltratado, confrontei-os, mas Beto me humilhou, ignorando que eu esperava um filho. O estresse me fez perder o bebê em segredo. Abandonei tudo, levei meu animal e reconstruí minha vida longe dele. Três anos depois, reencontrei-o arruinado em uma gala. Ele implorou perdão, mas meu triunfo era minha resposta.
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Capítulo 3

O ar da noite estava fresco e nítido enquanto eu dirigia de volta. Meu apartamento parecia pequeno e vazio sem o Apolo, e o silêncio começara a me irritar. Eu sentia falta do ritmo familiar de casa, mesmo com a discórdia recente. Ao entrar na garagem, o brilho suave das janelas da sala de estar me acenou, uma promessa silenciosa de normalidade.

Ao entrar, o aroma de um ensopado delicado, livre de quaisquer ingredientes suspeitos, encheu o ar. Gilda estava na varanda dos fundos, regando as orquídeas que Beto amava. Ela ergueu os olhos quando entrei, seus olhos encontrando os meus por um momento breve, quase imperceptível. Nenhum cumprimento, nenhum sorriso. Apenas um reconhecimento frio e neutro. Não ofereci nenhum em troca, indo direto para o escritório do Beto.

Ele estava sentado em sua grande mesa de mogno, cercado por rascunhos arquitetônicos e projeções financeiras para nossa próxima grande expansão da empresa. Ele ergueu os olhos, seu rosto se abrindo em um sorriso largo e esperançoso no momento em que me viu.

"Alina! Você veio!"

Ele se levantou, suas muletas fazendo um leve barulho.

"Claro", eu disse, um leve sorriso tocando meus lábios. "Você disse que queria falar sobre o futuro."

"E eu quero!" Ele gesticulou para as pilhas de papéis. "Vem, olha isso. Novos clientes, novas cidades. Poderíamos estar expandindo para a Europa, Alina. Imagina isso. Almeida-Moraes Design, dominando o globo."

Ele sorriu, seu entusiasmo contagiante, me puxando de volta para o nosso sonho compartilhado.

Sentei-me ao lado dele, folheando as propostas impressionantes. Enquanto lia, uma parte de mim amoleceu. Este era o Beto por quem me apaixonei – o visionário, o sonhador. Éramos uma equipe formidável.

"Sobre a Gilda", ele começou, sua voz baixando, quase conspiratória. "Sabe, ela tem uma história de vida bem difícil. Mãe solteira, escapou de uma situação complicada."

Ele me olhou com aqueles olhos sinceros e vulneráveis que sempre me desarmavam.

"Ela é só um pouco... sem modos, não está acostumada com... o nosso tipo de vida."

Meu olhar se aguçou.

"Você está tentando arranjar desculpas para ela, Beto?"

Ele imediatamente recuou, sua mão alcançando a minha.

"Não, não, meu bem, de jeito nenhum! Eu juro. Eu dei uma bronca nela. Sério. Ela chorou, Alina. Disse que não queria ofender. Eu disse a ela que você é a chefe, minha sócia e minha noiva. Ela sabe o lugar dela agora. E eu mostrei a ela a lista de alergias. Fiz ela repetir para mim. Sem nozes, nunca. Prometo."

Ele apertou minha mão, seu polegar acariciando meus nós dos dedos.

"Eu prometo, Alina. Tudo vai ser diferente agora."

Seu toque, suas palavras, a ansiedade genuína em seus olhos minaram minha resolução. Ele parecia tão vulnerável, tão arrependido. Ele estava tentando. E eu estava grávida. Eu precisava de estabilidade. Eu precisava dele.

"Tudo bem", eu disse, minha voz mais suave do que eu pretendia. "Só... certifique-se de que seja."

Uma batida suave e educada soou na porta do escritório.

"O jantar está servido", a voz de Gilda chamou, perfeitamente modulada, perfeitamente respeitosa.

Beto piscou para mim.

"Viu? Progresso."

Quando entramos na sala de jantar, a mesa estava impecavelmente posta. Meu prato estava em seu devido lugar. Gilda estava parada perto da entrada da cozinha, não à mesa, com as mãos entrelaçadas na frente. Ela esperou até que Beto e eu estivéssemos sentados antes de dizer:

"Hoje temos ensopado de cordeiro cozido lentamente com legumes, e vagem no vapor de acompanhamento. Sem nozes de qualquer tipo, Sra. Moraes. Eu verifiquei tudo duas vezes."

Seu olhar era direto, quase desafiador, mas seu tom era deferente.

Eu assenti, um reconhecimento silencioso. Beto sorriu, satisfeito.

"Viu, Alina? Eu te disse."

A refeição foi silenciosa. Não totalmente confortável, uma tensão persistente no ar, mas pacífica o suficiente. Gilda nos serviu, depois se retirou para a copa. Eu podia ouvir o leve tilintar de seus talheres de lá. Era progresso, eu supunha. Uma trégua frágil.

Depois do jantar, Beto se acomodou na sala de estar para assistir a um documentário, com a perna apoiada. Decidi me retirar para o meu escritório para verificar mais alguns e-mails. As novas propostas ainda estavam na minha mesa, esperando revisão. Senti uma sensação de calma retornando, uma esperança silenciosa de que as coisas poderiam realmente ficar bem.

Abri meu laptop, mas o calor da casa, a refeição satisfatória e o cansaço persistente de Brasília começaram a pesar sobre mim. Minhas pálpebras ficaram pesadas. Recostei-me na minha cadeira ergonômica, fechando os olhos, apenas por um momento.

Um baque suave, um som metálico, me despertou. Veio da minha mesa de cabeceira. Meus olhos se abriram de repente. Eu estava definitivamente no meu escritório, não no meu quarto. O som tinha sido distinto, fora de lugar. Meu coração martelava contra minhas costelas.

Sentei-me lentamente, meu olhar fixo no canto da sala onde meus documentos pessoais, meu laptop e uma pilha de plantas confidenciais de clientes estavam. Minha respiração ficou presa.

Uma pequena figura, não mais alta que a minha cintura, estava agachada perto da minha mesa, de costas para mim. Ele estava remexendo no meu portfólio, suas pequenas mãos folheando as delicadas e confidenciais plantas. Uma das minhas canetas-tinteiro caras estava no chão, sem tampa, uma mancha escura de tinta se espalhando por um esboço de design impecável.

"Ei!", gritei, minha voz afiada, a adrenalina inundando meu sistema. "O que você pensa que está fazendo?"

A criança se assustou, deixando cair um maço de papéis. Ele se virou, o rosto manchado de tinta, um biscoito meio comido na mão. Seus olhos, arregalados e desafiadores, eram os olhos de Gilda.

Ele não podia ter mais de nove ou dez anos. Usava uma camiseta colorida e shorts, completamente fora de lugar no meu escritório formal.

"Quem é você?", exigi, levantando-me da cadeira, minha voz aumentando de volume. "E o que você está fazendo com as minhas coisas?"

Ele não respondeu, apenas me encarou por um segundo, depois enfiou o resto do biscoito na boca.

"Gilda! Beto!", gritei, minha voz rouca com uma mistura de incredulidade e fúria. Isso era demais. Isso era completamente inaceitável.

A criança, em vez de ficar com medo, se jogou no chão e começou a chorar, um grito teatral e ensurdecedor. Ele chutava as pernas, batia os punhos no tapete, fazendo uma birra completa.

Eu o encarei, horrorizada. Eu já tinha lidado com clientes difíceis, sócios exigentes, mas nunca com uma criança de nove anos fazendo birra no meu escritório particular, cercada pelo meu trabalho arruinado.

Nesse momento, Gilda entrou correndo, o rosto uma máscara de preocupação.

"Léo! O que foi, meu filho?"

Ela o pegou nos braços, pressionando o rosto dele contra o peito, me fuzilando com o olhar por cima da cabeça dele. Seus olhos eram duros, acusadores.

"O que você fez com o meu filho?"

Meu queixo caiu.

"Seu filho?", gaguejei, apontando um dedo trêmulo para as plantas arruinadas. "Ele estava no meu escritório! Mexendo nas minhas coisas! Olha essa bagunça!"

Gilda abraçou a criança chorando com mais força.

"Ele é só um menino, Sra. Moraes. Ele não fez por mal."

Ela me olhou com um olhar feroz e protetor.

"Por que você está gritando com ele?"

"Por que ele está aqui?!", exigi, ignorando completamente a pergunta dela. "Me disseram que não haveria crianças! Este é um ambiente profissional e uma casa particular! Quem te deu permissão para trazer seu filho aqui?"

Ela suavizou a voz, seus olhos percorrendo a sala, depois voltando para mim.

"O Sr. Almeida disse que não tinha problema. Minha babá cancelou, e eu não tinha onde deixá-lo. Ele só queria ver a mamãe."

"Beto!", rugi, minha paciência esgotada. Saí do escritório, com Gilda pairando defensivamente sobre seu filho ainda soluçando. Encontrei Beto absorto em seu documentário, de fones de ouvido, felizmente inconsciente do caos.

Arranquei os fones de seus ouvidos.

"Beto Almeida, o que você fez?!"

Ele olhou para mim, perplexo.

"Alina? Que diabos?"

"Levanta!", sibilei, agarrando seu braço e puxando-o. Suas muletas caíram com um barulho enquanto ele lutava para me acompanhar. "Levanta e veja o que sua 'generosidade' causou!"

Eu o arrastei, mancando, de volta ao meu escritório. Gilda ainda estava embalando Léo, que agora apenas choramingava, nos espiando por trás do braço de sua mãe, um brilho travesso em seus olhos.

"Você deu ou não deu permissão para a Gilda trazer o filho dela para nossa casa?", exigi, minha voz tremendo de raiva mal contida.

O rosto de Beto passou de confusão para uma defensiva envergonhada.

"Bem, sim, eu dei. Ela disse que estava em apuros, Alina. E ele parecia um garoto doce. Eu não achei que ele daria... tanto trabalho."

"Garoto doce?"

Eu o empurrei em direção à minha mesa, fazendo-o olhar para a carnificina.

A tela do meu laptop estava rachada, uma teia de aranha de pixels quebrados. Plantas de clientes, delicadas e insubstituíveis, estavam rasgadas, manchadas de tinta e migalhas de biscoito, rabiscadas com giz de cera. Minhas canetas caras estavam espalhadas, algumas quebradas. Minha coleção de papelaria rara e vintage, arruinada. Meu portfólio de couro feito sob medida, marcado com arranhões profundos.

Um cheiro fraco, doce e enjoativo pairava no ar. Olhei para minha penteadeira, sua superfície impecável agora uma bagunça caótica. Meu perfume favorito, aquele que Beto me deu no nosso aniversário, jazia estilhaçado no chão, seu líquido precioso encharcando o tapete, misturando-se com sombra e base derramadas. Cacos de vidro brilhavam sob a luz suave da lâmpada.

Beto olhou, seu rosto empalidecendo, a cor sumindo dele. Seus olhos se arregalaram, sua boca se abrindo e fechando inutilmente. Ele olhou do perfume quebrado para as plantas arruinadas, depois para Gilda, que agora o encarava com olhos arregalados e inocentes, seu filho escondido atrás dela.

"O que... o que aconteceu?", Beto sussurrou, sua voz quase inaudível. Ele olhou para mim, um brilho de medo em seus olhos.

Eu não respondi. Apenas apontei para a devastação, depois para Gilda e seu filho.

"Este", eu disse, minha voz fria e dura, despojada de toda emoção, "é o seu 'garoto doce'. E você, Beto, vai explicar exatamente como vai consertar isso. Cada pedacinho."

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