
Tarde Demais, Miguel: Meu Filho, Minha Escolha
Capítulo 2
O cheiro a assado enchia a pequena sala de jantar, mas eu não conseguia comer. A minha sogra, Sónia, empurrou o prato na minha direção.
"Come, Clara, tens de comer por dois."
A sua voz era falsamente doce, o sorriso não chegava aos olhos.
Eu estava grávida de oito meses, e a minha barriga parecia um balão prestes a rebentar, sentia-me desconfortável na cadeira dura.
O meu marido, Miguel, estava a olhar para o telemóvel, a sorrir.
Eu sabia para quem ele estava a sorrir.
"A Sofia mandou uma foto do gato dela," disse ele, mostrando o ecrã. "Ele entalou a cabeça num frasco de maionese."
Sónia riu, um som agudo. "Essa Sofia, sempre tão distraída. Ainda bem que te tem a ti, meu filho."
Senti uma pontada na parte inferior das costas, uma dor familiar que me tinha vindo a incomodar durante toda a semana. Tentei mudar de posição na cadeira.
"Miguel," comecei eu, com a voz baixa. "Não me estou a sentir muito bem."
Ele nem sequer levantou a cabeça. "É só azia, Clara. Bebe um pouco de água."
Nesse momento, o telemóvel dele tocou. O nome "Sofia" iluminou o ecrã. Ele atendeu instantaneamente.
"Sofia? O que se passa? Estás bem?"
A voz dele estava cheia de uma preocupação que ele nunca usava comigo.
Houve uma pausa enquanto ele ouvia. O seu rosto ficou tenso.
"O quê? Estás presa? Como assim, a chave partiu na fechadura?"
Ele levantou-se de um salto, a cadeira arrastou-se ruidosamente no chão.
"Não te preocupes, eu vou já para aí. Não saias de casa."
Ele desligou a chamada e começou a procurar as chaves do carro.
Olhei para ele, incrédula. "Vais sair? Agora?"
"A Sofia precisa de mim," disse ele, sem me olhar nos olhos. "A chave dela partiu-se na porta, ela não consegue sair nem entrar. Está em pânico."
"Mas eu não me sinto bem, Miguel. A dor está a piorar."
Ele finalmente olhou para mim, mas com impaciência.
"Clara, por amor de Deus, não comeces. A tua mãe está a caminho para te vir buscar, não está? A Sofia está sozinha e assustada. É uma emergência."
"Uma chave partida é uma emergência?" A minha voz tremeu. "Eu estou grávida de oito meses e com dores."
Sónia interveio, colocando uma mão no braço do filho. "Vai, querido. A Clara está só a ser dramática. As grávidas são assim. A Sofia precisa de um homem para a ajudar."
Miguel deu um beijo rápido na testa da mãe e correu para a porta.
"Eu volto logo," gritou ele por cima do ombro.
E depois, ele desapareceu.
O silêncio na sala era pesado. Sónia sentou-se novamente, olhando para mim com desaprovação.
"Devias ter mais compreensão," disse ela. "A Sofia não tem ninguém. O Miguel tem um bom coração."
Eu não respondi. Apenas coloquei as mãos sobre a minha barriga, onde o nosso filho se mexia inquieto. A dor nas minhas costas intensificou-se.
Naquele momento, eu percebi que para o meu marido e a sua família, eu e o meu filho por nascer seríamos sempre menos importantes do que os dramas de uma amiga de infância.
A ideia do divórcio, que antes era um pensamento distante e assustador, começou a tomar forma na minha mente.
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