
Sua Vida Secreta, Minha Confiança Quebrada
Capítulo 3
Ponto de Vista de Alina Sampaio:
O fogo dos insultos de Carla queimava em minhas veias, mas meu corpo era um peso morto. Cada músculo gritava em protesto, a dor surda em meu abdômen um lembrete constante e brutal do vazio que ela ajudou a criar. Eu a vi sair, suas palavras pairando no ar como esporos tóxicos, e uma onda de desamparo me dominou.
Eduardo ficou por mais três dias, desempenhando o papel do marido enlutado com uma perfeição nauseante. Ele me trouxe flores — lírios, que ele sabia que eu era alérgica. O cheiro enjoativo encheu o pequeno quarto, fazendo meus olhos lacrimejarem e meu estômago revirar.
"Você esqueceu", eu disse, minha voz plana enquanto afastava o vaso.
Ele ergueu os olhos do celular, um lampejo de irritação cruzando seu rosto antes de ser substituído por sua familiar máscara de preocupação. "Esqueci o quê, querida?"
"Sou alérgica a lírios. Estamos casados há três anos, Eduardo."
Era uma coisa tão pequena, mas era tudo. Era o descaso, a completa falta de pensamento genuíno. Ele não era meu parceiro; era meu guardião, e um negligente.
"Oh, Alina, sinto muito", disse ele, o pedido de desculpas soando oco e ensaiado. "Minha cabeça está... toda confusa." Ele estendeu a mão para tocar meu braço, mas eu me afastei.
"Por que você se casou comigo, Eduardo?" A pergunta escapou, fria e afiada.
Ele me encarou, sua fachada perfeita finalmente rachando. O calor desapareceu de seus olhos, substituído por uma distância arrepiante. Ele olhou para mim como se eu fosse uma estranha, um problema que ele precisava resolver.
"Você não está bem", disse ele, sua voz seca. Ele se levantou, pegando o vaso ofensivo de lírios e jogando-o no lixo. "Você está de luto. Está dizendo coisas que não quer dizer. Vou te dar um pouco de espaço."
Ele saiu sem dizer mais uma palavra.
Ele não voltou nos dois dias seguintes.
Quando finalmente recebi alta, um motorista que ele enviou me levou não para nossa casa, mas para seu apartamento corporativo temporário perto do hospital. O lugar era estéril e impessoal, sem o calor e as memórias compartilhadas da casa que construímos juntos. Parecia uma jaula.
Sozinha no silêncio, rolei por suas redes sociais. Lá estava ele, o marido devotado, postando uma foto de nossas mãos dadas de uma semana atrás com a legenda: "Meu tudo. Minha rocha." Os comentários eram uma enxurrada de simpatia e condolências por nossa "trágica perda". A hipocrisia foi um golpe físico.
Meu dedo pairou sobre as informações de contato de Gabriel. Eu havia cortado os laços com ele quando me casei com Eduardo. Eduardo tinha ciúmes de nosso vínculo próximo, da maneira como Gabriel me olhava como uma filha. Ele sutilmente envenenou minha mente, convencendo-me de que Gabriel não aprovava nosso casamento, que ele estava tentando me segurar. Em meu estado de cegueira amorosa, eu acreditei nele. Escolhi meu marido em vez do homem que me orientou, me guiou e me ajudou a construir meu império. A memória daquela escolha era agora uma fonte de vergonha profunda e ardente.
Uma dor aguda atravessou minha cabeça, e o mundo ficou turvo. Caí na cama desconhecida e mergulhei em um sono agitado e cheio de pesadelos.
Quando acordei, estava escuro lá fora. Eduardo estava de pé sobre mim, afrouxando a gravata. Ele não perguntou se eu estava com fome ou como estava me sentindo. Apenas jogou o paletó em uma cadeira e desapareceu no banheiro.
Enquanto o chuveiro corria, vi seu celular na mesa de cabeceira.
Era isso. Chega de dúvidas, chega de esperar por um erro. Eu precisava da verdade. Toda ela.
Meus dedos tremeram quando o peguei. Nossa data de aniversário. A senha que uma vez pareceu romântica agora parecia uma piada cruel. Abriu na primeira tentativa.
Suas mensagens de texto eram um mapa de sua traição. A conversa com J.H. — que agora eu percebi que devia ser Júlio Henriques, um executivo júnior e primo distante do Grupo Medeiros — estava lá, preto no branco. Mas foi a conversa com o irmão de Carla que fez meu coração parar.
Ela expunha toda a conspiração. O Grupo Medeiros estava falindo, sangrando dinheiro e à beira do colapso. O casamento foi uma transação comercial, orquestrada pela mãe fria e calculista de Eduardo, Diana. O objetivo deles: colocar as mãos no meu código-fonte de IA Prometeus, a única coisa que poderia salvar sua dinastia em ruínas.
O acidente de carro não foi um acidente. Foi um "ciberataque direcionado", como a enfermeira havia dito. Eles planejaram. Eles hackearam os sistemas do meu carro. Eles pretendiam que eu tivesse um "acidente".
A mensagem final foi o tiro de misericórdia.
Irmão da Carla: Mamãe disse para acelerar as coisas. Assim que você tiver o código, pode pedir o divórcio. Carla e Theo estão esperando.
Eduardo: Eu sei. Só mais um pouco. Alina é mais forte do que pensávamos. Mas ela vai quebrar.
Eles não pretendiam apenas que eu perdesse o bebê. Eles pretendiam se livrar de mim completamente assim que eu não fosse mais útil. E a criança que eu perdi, a criança que eu estava de luto com cada fibra do meu ser... era um obstáculo que eles removeram clínica e impiedosamente.
Ele tinha uma família inteira. Uma vida da qual eu não sabia nada. Nossa vida, nosso amor, nosso filho — tudo era uma mentira. Uma performance meticulosamente elaborada para um único propósito: minha destruição.
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