
Sua Mentira Estéril, Seu Útero Despedaçado
Capítulo 2
Alice Barros POV:
"É seu?" Minha voz era quase um sussurro, mas cortou o silêncio da sala. "Essa criança, dentro dela, é sua?"
Davi se encolheu, um tremor visível percorrendo seu corpo. Ele deu outro passo hesitante, buscando minha mão. "Alice, por favor, não vamos tomar decisões precipitadas. Podemos conversar sobre isso. Podemos consertar isso."
Puxei minha mão, uma onda visceral de repulsa me invadindo. "Consertar isso?" Minha voz falhou, as lágrimas finalmente brotando em meus olhos. "Não há nada para consertar, Davi. Está quebrado. Irreparavelmente. Eu quero o divórcio."
Meu corpo inteiro tremia, um calafrio violento que não tinha nada a ver com o frio. Era o choque, a traição, a magnitude pura de seu engano. Seis anos. Seis anos da minha vida, minhas esperanças, minha dignidade, tudo transformado em uma piada cruel. Bruna. Claro. Não foi um caso qualquer. Davi e Bruna tiveram algo na faculdade, um romance apaixonado e volátil que todos pensavam ter acabado em chamas. Mas incêndios, eu percebi agora, podiam reacender.
"Você voltou para ela", engasguei, as palavras presas na garganta. "Você voltou para sua namoradinha da faculdade e fez um bebê com ela enquanto eu estava derramando meu coração e alma tentando conceber nosso filho. Enquanto eu estava tomando aquelas pílulas, suportando aquelas injeções, deixando os médicos me cutucarem e me examinarem, acreditando em nós."
"Não, Alice, não foi assim!" A voz de Davi estava rouca. Ele caiu de joelhos, um baque nauseante contra o chão de mármore polido. Sua mão voou para cima, atingindo sua própria bochecha, um som agudo e seco. "Por favor, Alice, me perdoe! Foi um erro! Um erro terrível e imperdoável, eu sei, mas eu juro... eu te amo! Você é minha esposa! Aquele bebê... não significa nada! Eu posso fazer ela se livrar dele, Alice, eu juro! Apenas, por favor, não me deixe!" Ele se bateu de novo, mais forte desta vez, seus olhos suplicantes.
Meu estômago se revirou. A visão dele, se humilhando, se autoflagelando, era grotesca. "Se livrar dele?", zombei, um som amargo e oco. "Então, você sacrificaria seu próprio filho apenas para manter essa farsa? Apenas para evitar enfrentar as consequências de suas ações?" A ironia era profunda. Ele podia descartar uma vida tão facilmente, uma vida que ele criou, quando se tornou inconveniente. No entanto, por seis anos, ele me viu sofrer, ansiando por um filho que ele secretamente sabia que já estava criando com outra pessoa.
Ele olhou para mim, seus olhos avermelhados e injetados. "Foi... foi porque você não podia me dar um filho, Alice. Minha mãe, a família... a pressão era imensa. Eu precisava de um herdeiro. E a Bruna... ela estava lá. Foi um momento de fraqueza, eu juro."
A amargura se transformou em um ácido escaldante na minha garganta. Ele me culpou? Minha infertilidade, minha luta, era a justificativa para sua traição? A ideia de que ele poderia usar minha dor mais profunda como desculpa para suas ações abomináveis era uma ferida nova e mais profunda. Minha mente correu, juntando momentos, percebendo a linha do tempo. Bruna começou como minha coach há pouco mais de três meses. Quando o "momento de fraqueza" aconteceu? Enquanto ela me treinava? Enquanto eu estava vulnerável, esperançosa, confiante?
"Eu não posso acreditar nisso", sussurrei, as palavras quase inaudíveis. "Você quer um herdeiro, Davi? Então você tem um. Com a Bruna. Considere seu desejo realizado. Estou indo embora. Você pode ter seu herdeiro e sua 'coach de bem-estar'. Estou fora." Minha voz era plana, oca, desprovida de qualquer sentimento além de um profundo cansaço.
Os olhos de Davi se arregalaram novamente, cheios de uma nova onda de terror. "Não! Alice, não, você não pode!" Ele se levantou de um salto, correndo em direção a um abridor de cartas decorativo em sua mesa. Antes que eu pudesse reagir, ele cravou a lâmina afiada e ornamentada em seu antebraço, arrancando um suspiro de mim enquanto o sangue imediatamente florescia em sua camisa branca impecável. "Olha! Olha o que você está me fazendo fazer, Alice! Eu não posso viver sem você! Eu vou morrer se você me deixar!"
Um grito estridente cortou o ar. "Davi! O que você está fazendo?!"
Bruna.
Ela invadiu a sala, o rosto pálido, a mão voando para a boca. Seus olhos, arregalados de horror, saltaram do braço sangrando de Davi para o meu rosto atordoado. "Sua monstra! O que você fez com ele?!", ela gritou, sua voz inesperadamente forte apesar de sua aparente angústia.
Antes que eu pudesse processar suas palavras, ela estava em cima de mim. Suas mãos, surpreendentemente poderosas, me empurraram com força no peito. Cambaleei para trás, minha cabeça batendo na quina afiada de um pesado aparador antigo. Uma dor lancinante explodiu atrás dos meus olhos, e senti um líquido quente e pegajoso escorrendo pelo meu pescoço. Minhas pernas cederam, e eu desabei no chão, vagamente ciente do barulho do abridor de cartas caindo da mão de Davi.
Minha visão embaçou, a sala girando. Eu podia ouvir a voz frenética de Davi, mas não era dirigida a mim. "Bruna! Você está bem? Você se machucou?" O chão parecia frio sob mim, e o mundo começou a desaparecer.
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