
Sombra Dela, Sonho Dele
Capítulo 2
No mundo jurídico brasileiro, existiam duas lendas, dois nomes que eram sinônimos de vitória, mas que nunca se cruzaram. Em São Paulo, Ricardo Mendes, conhecido como "Álvaro", era o rei incontestável das ações cíveis, um homem cuja lógica e estratégia eram tidas como infalíveis. No Rio de Janeiro, a rainha era Sofia Marques, uma advogada criminalista com uma taxa de sucesso de cem por cento, famosa por sua retórica implacável e sua capacidade de virar os casos mais impossíveis. O ditado nos corredores dos tribunais era claro: "um no sul, outra no norte, reis que nunca se encontram". Eram rivais, figuras quase míticas que se respeitavam à distância, mas cuja rivalidade alimentava a imaginação de todos.
O que ninguém sabia, o segredo guardado a sete chaves, era que essas duas lendas não apenas se conheciam, como estavam casadas há três anos.
Ricardo Mendes, o temido "Álvaro", havia desaparecido do mapa. Para o mundo, ele tinha se aposentado no auge de sua carreira, uma decisão inexplicável que gerou inúmeros boatos. A verdade era muito mais doméstica. Ele se tornou o marido de Sofia, um homem que abriu mão de tudo para assumir a identidade de um simples dono de casa. Ele era o marido atencioso que a esperava chegar tarde da noite, que cuidava de todas as tarefas domésticas, que a acompanhava em eventos sociais como um acessório silencioso e sorridente, e que sempre mantinha a luz da entrada acesa para ela. Ele cozinhava, limpava, organizava a vida dela para que ela pudesse brilhar, enquanto ele se apagava lentamente.
Agora, depois de três anos de silêncio e sacrifício, Ricardo não queria mais fingir.
Ele olhou para a tela do seu celular, o dedo pairando sobre um contato que não discava há uma eternidade. O cheiro de refogado vinha da cozinha, misturado com o produto de limpeza que ele usou no chão mais cedo. Sua casa, ou melhor, a casa de Sofia, estava impecável, como sempre. Mas um vazio imenso o consumia por dentro. Ele se sentia invisível, um fantasma na vida da mulher que amava. Um amor que ela parecia incapaz de ver, ou talvez, de valorizar.
"Não quero mais fazer isso", ele sussurrou para o silêncio do apartamento luxuoso na Barra da Tijuca. A decisão estava tomada, um peso que ele carregava há meses finalmente se tornou insuportável. Com um movimento firme, ele tocou no nome "Dr. Carlos" e levou o telefone ao ouvido.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Do outro lado da linha, em São Paulo, uma voz surpresa e um pouco desconfiada atendeu.
"Alô?"
"Carlos, sou eu", disse Ricardo, sua voz um pouco rouca pela falta de uso em discussões importantes.
Houve um silêncio do outro lado. Ricardo podia quase ouvir as engrenagens na cabeça do seu antigo sócio e amigo girando.
"Álvaro? É você? Meu Deus, é você mesmo?" a voz de Carlos explodiu em descrença e alívio. "Eu não acredito! Por onde você andou, cara? Três anos! Desapareceu do mapa!"
"É uma longa história, Carlos", respondeu Ricardo, um sorriso amargo nos lábios. "Mas estou ligando para dizer que estou voltando."
A frase de Ricardo pareceu cortar o ar. Carlos ficou em silêncio por um momento, processando a informação. "Voltando? Voltando como? Para o escritório?"
"Sim. Para o escritório, para os tribunais, para tudo", confirmou Ricardo.
"Graças a Deus, Álvaro! Você não faz ideia do quanto precisamos de você!" Carlos desabafou, o tom de voz mudando de surpresa para um desespero contido. "Desde que você saiu, as coisas têm sido difíceis. Especialmente com essa Sofia Marques dominando tudo no Rio. A mulher é um trator. Ela está nos pressionando muito, pegando clientes, a reputação dela está nas alturas. A gente mal consegue respirar aqui!"
Ricardo ouviu o nome dela e sentiu uma pontada familiar no peito. Sofia. Sua esposa. A mulher para quem ele estava preparando o jantar naquele exato momento. A mulher que, em breve, se tornaria sua maior adversária.
"Eu sei bem quem ela é", disse Ricardo, a voz fria.
Ele olhou seu reflexo no vidro escuro da janela da sala. Via um homem de quarenta anos vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta simples, com um avental que ainda tinha uma pequena mancha de molho de tomate do almoço. Esse era ele. O marido de Sofia Marques. Não era o "Álvaro", o advogado lendário que fazia impérios tremerem. Aquele homem estava enterrado sob camadas de tarefas domésticas e de um amor não correspondido.
"Eu preciso que você prepare tudo para o meu retorno, Carlos. Reative minha licença, prepare meu antigo escritório. As coisas vão mudar", disse Ricardo, sua voz ganhando a firmeza de antes.
"Claro, Álvaro! O que você precisar! Mas... e o seu... bem, o seu hiato? O que aconteceu?", perguntou Carlos, curioso.
"Eu vou me divorciar", Ricardo declarou, a palavra soando estranha e definitiva em seus próprios lábios. "E da próxima vez que eu encontrar Sofia Marques, não será em um jantar ou em um evento social. Será no tribunal."
Houve um suspiro chocado do outro lado da linha. "Divorciar? Você estava casado? Com quem?"
Ricardo não respondeu. Ele não precisava. O silêncio era a resposta.
Naquele exato momento, seu celular vibrou com uma nova mensagem. Era dela. Sofia. A mensagem era curta, direta, como todas as suas comunicações com ele.
"A caminho. Jantar pronto?"
Ele leu a mensagem, e a frieza das palavras dela foi a confirmação final de que ele estava fazendo a coisa certa. Ele não era um parceiro, era um serviço. Um provedor de conveniência.
Ele digitou uma resposta, mas apagou. Em vez disso, desligou a chamada com Carlos e voltou para a cozinha. Ele terminaria o jantar. Seria o último. A partir de amanhã, o marido atencioso estaria morto. E Álvaro, o advogado, renasceria das cinzas.
Você pode gostar





