
Sob os Olhos do Inimigo
Capítulo 3
O dia seguinte amanheceu chuvoso, como se o tempo refletisse o turbilhão que Alícia sentia por dentro. Ainda era cedo quando chegou à Archer Group. O silêncio dos corredores a confortava mais do que o habitual - era como se o prédio também segurasse a respiração.
Ela não esperava cruzar com Adrian tão cedo. Mas, ao virar o corredor do café, lá estava ele.
- Alícia - disse ele, com um aceno leve e um sorriso que parecia sincero demais para a hora da manhã.
Ela respirou fundo.
- Bom dia, Adrian.
- Dormiu bem?
Ela hesitou.
- Mais ou menos.
- Estou me acostumando com isso também - respondeu ele, apoiando-se casualmente no balcão. - Nova cidade. Nova rotina. Me faz questionar se a insônia é pelo fuso horário... ou por coisas não resolvidas daqui.
Ela sorriu, sem mostrar os dentes.
- E você tem muitas pendências por aqui?
- Não sei - disse, olhando para a xícara de café. - Às vezes acho que sim, mesmo que eu não saiba quais são.
Alícia observava cada gesto. A calma estudada. A forma como ele dizia tudo com uma tranquilidade desconcertante.
Se era mesmo quem ela pensava... era um ator muito convincente.
- E você? - ele devolveu. - Está tudo certo por aqui?
Ela se recompôs.
- Costumava estar. Mas ultimamente... algumas coisas têm mexido comigo. Nada sério. Só memórias.
Adrian assentiu, como quem compreendia mais do que dizia.
- Algumas memórias não ficam no passado, não é?
Ela apenas o encarou.
Aqueles olhos.
Algo neles a desconcertava. Pareciam honestos, e ainda assim, continham a mesma intensidade congelada que a marcara anos atrás.
- Bom, nos vemos mais tarde. Temos uma reunião no fim da manhã - ele disse, afastando-se com um último olhar. - E se precisar conversar, fora dos relatórios e apresentações... eu sou um bom ouvinte.
Ela não respondeu. Só ficou ali, observando-o se afastar.
De volta à sua mesa, Alícia tentava se concentrar, mas as palavras dançavam na tela. Não conseguia parar de pensar no que ele dissera.
"Algumas memórias não ficam no passado."
Ele a estava testando? Ou apenas dizendo uma verdade que, coincidentemente, tocava o que ela mais temia?
Naquela noite, ao chegar em casa, Alícia afundou no sofá com Milo sobre o colo. O gato ronronava alto, quase como um sussurro reconfortante. Acariciá-lo lhe trazia uma serenidade necessária após um dia tão intenso emocionalmente.
Clara ligou pouco depois, como fazia quase todas as noites.
- E aí? Como foi hoje com o misterioso Adrian Archer?
- Nada demais. Mas... eu sinto como se cada conversa com ele fosse um jogo.
- Um jogo?
- Um tabuleiro disfarçado. Como se estivéssemos andando em círculos tentando descobrir quem é quem, sem mover uma única peça.
Clara ficou em silêncio por um instante.
- E você sabe exatamente o que está procurando?
Alícia olhou para o teto, como se a resposta pudesse surgir lá.
- Ainda não. Mas vou descobrir.
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