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Capa do romance Sob o domínio do Don

Sob o domínio do Don

Tomazzio Messina, o temido Don siciliano, sobrevive a uma emboscada em Roma após ser baleado e cair em um rio. Resgatado pela médica Elena, uma brasileira que foge de seu próprio passado, ele encontra nela uma aliada improvável. Quando os inimigos de Tomazzio os localizam, a dupla inicia uma fuga perigosa rumo à Sicília. Em meio ao caos, surge um acordo de proteção mútua que mistura desejo e poder, forçando Elena a decidir até onde irá para sobreviver ao submundo.
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Capítulo 1

Roma nunca foi minha cidade. Suas ruas, suas sombras, seus becos apertados – nada disso me pertencia. Eu sou siciliano. E um siciliano nunca se sente confortável em território inimigo, mesmo quando há uma trégua.

A noite estava fria e úmida, um prenúncio do que estava por vir. Eu estava no centro de uma ponte esquecida por Deus na periferia de Roma, cercado por homens que deveriam ser aliados. Mas no fundo, eu sabia que confiança era um luxo que um Don não podia se dar ao luxo de ter.

"Vamos direto ao ponto"

disse Carlo Marchesi, o Don local, enquanto acendia um charuto barato.

"Você quer armas. Eu quero dinheiro. Então, por que essa merda está demorando tanto?"

Marchesi era um bastardo arrogante, sempre foi. Nossa rivalidade durava anos, mas a guerra custava caro e, por isso, aceitamos negociar. Um carregamento de armas russas deveria selar nossa aliança frágil. Mas havia algo errado. Meu instinto gritava.

Meus olhos percorreram os rostos dos soldados de Marchesi. Havia tensão demais. Silêncio demais.

"Mostre as armas," exigi, ignorando sua impaciência.

Ele estalou os dedos. Dois homens abriram um dos caixotes. AK-47s reluziam sob a luz amarelada dos postes. Mas algo ainda estava errado. Não era só paranoia.

Foi quando vi.

A sombra de um rifle posicionado no topo de um prédio próximo.

"ARMADILHA!"

Gritei, puxando minha pistola no mesmo instante em que o primeiro tiro ecoou pela noite.

O caos se instaurou.

Marchesi recuou como o rato que era, enquanto seus homens abriam fogo. Os meus tentaram reagir, mas foram pegos desprevenidos. Sangue espirrava no asfalto. Um dos meus capangas caiu ao meu lado, um buraco vermelho na testa.

Eu me movi rápido, descarregando minha arma contra os traidores. Acertei um, dois... mas eles eram muitos.

"Tomazio!"

Alguém gritou atrás de mim, antes de ser silenciado por uma rajada de tiros.

Minha munição acabou. O clique seco da pistola foi como um golpe de sentença. Antes que eu pudesse reagir, um impacto queimou meu lado esquerdo.

Dor. Feroz. Rasgando minha carne.

Meus joelhos cederam. O mundo girou. Outro tiro. Meu ombro explodiu em agonia.

Eu não podia cair ali. Não daquele jeito.

A única saída era o rio.

Com o pouco de força que me restava, cambaleei para a beira da ponte. Outro tiro atingiu minha perna. Mas eu já estava no ar, caindo.

A água gelada me engoliu, arrancando um grito mudo dos meus pulmões.

Eu não podia morrer ali. Não ainda.

A água era um choque brutal contra meu corpo ferido. O impacto arrancou o ar dos meus pulmões, me puxando para as profundezas escuras do rio. O sangue escorria dos meus ferimentos, manchando a correnteza ao meu redor. Cada batida do meu coração era uma martelada de dor.

A superfície estava acima de mim, tão perto e ao mesmo tempo inalcançável. Meus músculos gritavam, mas eu me forcei a nadar, ignorando o peso da roupa ensopada e o sangue que atraía a morte.

Meus pulmões queimavam. O instinto de sobrevivência gritou mais alto. Com um último esforço, rompi a superfície, arfando por ar. A ponte já estava distante, mas as balas ainda cortavam a água ao meu redor.

Filhos da puta. Eles não estavam satisfeitos em me emboscar. Queriam me ver morto, afundado naquele rio sujo como um qualquer.

Minha visão ficou turva por um instante. A dor era insuportável. Eu sabia que, se não encontrasse terra firme logo, minha vida terminaria ali, não pelas balas, mas pela correnteza.

Lutei contra a escuridão que ameaçava tomar minha mente. Deixei a água me levar, controlando a respiração, tentando manter a consciência. A cidade se dissolvia em sombras distantes. O frio cravava suas garras em mim.

Então, eu vi.

Luzes fracas, pequenas casas amontoadas às margens do rio. Não era um lugar bom. Um bairro perigoso, onde a polícia só entrava quando queria que alguém desaparecesse. Mas para mim, era a única chance.

A correnteza me empurrou em direção a um pequeno barranco. Meu corpo bateu contra algo sólido, e eu agarrei a borda lamacenta com todas as forças que me restavam.

Me arrastei para fora da água, cada movimento uma tortura. Meu sangue pingava na terra escura.

Mantenha-se acordado.

Minhas pálpebras pesavam. A dor pulsava, cravando-se fundo.

Foi quando ouvi passos.

Alguém estava ali.

E então, uma voz feminina. Baixa, cautelosa.

- Meu Deus...

Pisquei, tentando focar a visão. A silhueta de uma mulher se destacou contra as luzes fracas de um casebre próximo.

Ela hesitou. Eu tentei falar, mas minha garganta estava seca.

E então, tudo escureceu.

---

Algum tempo depois...

A consciência voltou aos poucos, como um raio de luz filtrado por cortinas pesadas. Meu corpo parecia feito de chumbo. O cheiro de álcool e algo metálico – sangue – pairava no ar.

Eu estava deitado. Um colchão duro sob mim.

A voz feminina soou novamente, mais próxima desta vez.

- Se acordar de repente, não tente me atacar. Sua sorte é que sou médica, ou estaria morto.

Minha mente processou as palavras lentamente. Abri os olhos. O teto era baixo, de madeira envelhecida. A iluminação fraca vinha de uma lâmpada solitária pendurada por um fio.

A dor me atingiu como um golpe. Meu ombro, minha perna, minhas costelas – tudo queimava.

Lutei para sentar, mas mãos firmes me seguraram.

- Fique parado. Você perdeu muito sangue.

Minha visão clareou o suficiente para finalmente vê-la.

A mulher ajoelhada ao meu lado era jovem, mas havia algo em seus olhos castanhos que parecia velho, cansado. Ela segurava uma bandagem, e suas mãos estavam manchadas de sangue – meu sangue.

- Quem... é você? – minha voz saiu rouca, arranhada.

Ela hesitou, como se considerasse se deveria responder.

- Elena.

O nome girou em minha mente nebulosa. Eu não a conhecia. Isso significava que ela não era uma ameaça. Pelo menos, não ainda.

- Você... me salvou.

- Não tive muita escolha. – Seus olhos correram para minha perna enfaixada. – Achei que ia morrer na minha porta. Isso teria dado um trabalho do caralho.

Uma mulher com língua afiada. Interessante.

- Onde estou?

- Nos arredores de Roma. Um lugar onde ninguém faz perguntas e ninguém quer saber de respostas. O que significa que você pode se esconder por enquanto. Mas quando amanhecer, você vai embora.

Aquilo me fez rir – ou tentei. Uma pontada de dor me cortou o peito.

- Não sou exatamente um homem que pode simplesmente sair andando.

Ela suspirou, passando uma mão pelos cabelos castanhos. Eu percebi, então, que havia algo diferente nela. Algo que não combinava com esse lugar. Seu olhar era afiado, calculista, como se estivesse sempre esperando uma ameaça.

- Quem atirou em você? – perguntou.

Eu a estudei.

- Você faz perguntas demais.

- E você sangrou no meu chão. Acho que estamos quites.

Havia um brilho nos olhos dela – uma força que eu não esperava.

Elena não era uma mulher comum.

E eu sabia, naquele instante, que essa mulher mudaria meu destino.

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