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Capa do romance Sintonize para a Minha 'Desculpa'

Sintonize para a Minha 'Desculpa'

Gabriel, meu ex, quer me destruir. Para salvar meu irmão, ele exige um pedido de desculpas público e milhões. No passado, fui vítima de Amanda, que me acusou falsamente de bullying. Gabriel acreditou nela, causando a morte dos meus pais e a ruína da minha família. Agora, ele busca me humilhar novamente por algo que não fiz. Contudo, surge um bilionário misterioso com provas da minha inocência. O espetáculo que Amanda tanto deseja será a minha vingança.
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Capítulo 2

As palavras do e-mail, "pedidos não convencionais", ecoavam em minha mente, uma batida constante e perturbadora. Eu odiava aquilo. Odiava a situação desesperadora em que me encontrava, a forma como fui forçada a considerar algo que, no fundo, eu sabia que era errado. Mas o que mais eu poderia fazer? O futuro de Júlio, nossa sobrevivência, dependia disso.

A ruína da nossa família não foi apenas um golpe financeiro. Foi uma demolição completa de nossas vidas. Meus pais construíram a Oliveira & Cia. do zero, uma empresa de sucesso em logística e avaliação de arte. Após a morte deles, os sócios, supostamente amigos de confiança, atacaram. Eles usaram minha desgraça, o escândalo de "cyberbully", como alavanca, alegando que minha reputação havia prejudicado a imagem da empresa. Compraram minhas ações por uma ninharia, deixando Júlio e eu com uma dívida impossível. Foi uma aquisição hostil, pura e simples, mas sem os meios legais para lutar contra ela. Tudo por causa das mentiras de Amanda e da crença inabalável de Gabriel nelas.

Este novo trabalho, este "evento especial", era uma tábua de salvação, embora uma amarrada a um tubarão. Eu não podia me dar ao luxo de ter escrúpulos. Não mais. Eu tinha que ser forte, astuta e implacável. Assim como as pessoas que destruíram minha vida.

Voltei para o "Veludo Vermelho", o lounge exclusivo no Itaim Bibi onde eu trabalhava como hostess VIP. A iluminação fraca, o baixo pulsante da música, o tilintar dos copos – era um ambiente familiar, uma ilusão cuidadosamente construída de luxo e decadência. Esta noite, no entanto, parecia diferente. Mais pesado. Mais sinistro.

Minha gerente, Brenda, uma mulher cujo rosto era uma máscara permanente de cinismo cansado, me encontrou na entrada dos funcionários. Ela segurava uma capa de roupa. "Você recebeu o e-mail, eu suponho?", ela disse, sua voz monótona.

"Recebi", respondi, minha voz tensa.

"Ótimo. O cliente está esperando. Último andar, suíte privativa. Está tudo pronto." Ela empurrou a capa de roupa em minhas mãos. "Vista isso. E lembre-se, Helena, qualquer coisa que ele pedir, dentro do razoável, você atende. Este não é seu turno normal. Ele paga excepcionalmente bem."

Abri o zíper da capa. Dentro havia um vestido. Não um vestido qualquer, mas um vestido cintilante e justo em um verde esmeralda profundo, com um decote vertiginoso e uma fenda perigosamente alta. Era o tipo de vestido que gritava "garota de programa de luxo", não "hostess VIP". Meu estômago se contraiu.

"Brenda", comecei, minha voz mal um sussurro. "Isso... isso é um pouco demais, não é?"

Brenda suspirou, passando a mão pelo cabelo loiro perfeitamente arrumado. "Olha, Helena, eu sei. Mas ele é um cliente grande. Dominic Medeiros. Magnata da tecnologia. Bilionário. Excêntrico. Ele gosta de uma certa... estética. E ele pediu especificamente por você. Disse que te viu no salão na semana passada e ficou 'cativado pela sua resiliência'." Ela me deu um olhar significativo. "Ele está pagando dez vezes a sua taxa normal por esta noite. Aquele problema de seis dígitos em que o Júlio te meteu? Esta única noite pode dar uma bela dentada nisso."

A menção da indenização de seis dígitos foi um banho de água fria. Júlio. Minha determinação se fortaleceu. "Tudo bem", eu disse, minha voz monótona. "Onde eu me troco?"

Brenda me levou a um pequeno e apertado vestiário. "Lembre-se das regras, Helena. Sem celulares, sem conversas pessoais sobre sua vida lá fora. Você está aqui unicamente para o entretenimento e conforto do cliente. Ele é inofensivo, na maior parte. Apenas... particular. E rico o suficiente para satisfazer todos os seus caprichos." Ela me deu um sorriso apertado e tranquilizador que não alcançou seus olhos. "Você estará segura. Apenas seja charmosa, atenciosa e garanta que ele se divirta."

Certo. Segura. Charmosa. Atenciosa. Olhei para meu reflexo no espelho escuro do vestiário. O vestido esmeralda se agarrava a cada curva, me fazendo sentir exposta, vulnerável. Não era eu. Não a Helena que estudava arte, que debatia filosofia, que sonhava em abrir sua própria galeria. Isso era uma fantasia, um sacrifício.

Respirei fundo, me preparando. Uma noite. Apenas uma noite, e então eu poderia respirar um pouco mais aliviada, saber que estava um passo mais perto de tirar Júlio dessa confusão. E então eu me concentraria em sair dessa confusão eu mesma.

Terminei de me trocar, ajustando as alças, tentando ignorar a forma como o tecido parecia uma segunda pele. Brenda estava esperando do lado de fora. Ela me deu uma olhada, um olhar crítico que se suavizou ligeiramente. "Você está deslumbrante, Helena. Agora, vamos ganhar algum dinheiro."

Ela me levou a um elevador discreto, passou um cartão-chave e apertou o botão para o último andar. A subida foi silenciosa, a antecipação crescendo em meu peito. Que tipo de "pedidos não convencionais" me aguardavam? Seria humilhante? Degradante? Afastei os pensamentos. Eu tinha que me concentrar. Júlio. Dívida. Sobrevivência.

As portas do elevador se abriram diretamente em uma suíte privativa luxuosa. O ar estava denso com o cheiro de uísque e colônia cara. Jazz suave tocava de alto-falantes invisíveis. O quarto estava mal iluminado, banhado pelo brilho quente de lâmpadas estrategicamente posicionadas. Havia sofás de veludo macios, um bar totalmente abastecido e uma vista panorâmica do horizonte cintilante de São Paulo.

E então eu os vi.

Não eram apenas "algumas pessoas". Eram rostos familiares, rostos que eu não via desde meus dias na FAAP. Rostos que eu nunca mais queria ver. Meu corpo congelou, um pavor frio me dominando. Sentados casualmente em um dos sofás, rindo e bebendo champanhe, estavam dois dos amigos mais próximos de Amanda Vasconcellos da faculdade – os mesmos que testemunharam contra mim, corroborando as mentiras de Amanda sobre o cyberbullying. Sara Junqueira e Marcos Tavares. Seus rostos, antes familiares, agora pareciam usar um sorriso permanente de superioridade. Eles olharam para cima, seus olhos se arregalando em reconhecimento, suas risadas morrendo em suas gargantas.

Meu sangue gelou. Isso não era apenas um trabalho. Isso era uma armadilha.

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