
Sinfonia das Sombras
Capítulo 3
POV: Ethan Vance
“O instinto reconhece aquilo que a mente ainda tenta negar.”
O cheiro dela estava me destruindo. Não de uma forma humana, mas muito pior. Kaos também sentia. Meu Lycan caminhava inquieto dentro da minha mente desde o instante em que Clara Martins entrou naquele salão e inundou o ar com seu perfume único de lavanda e notas de pêssego, o cheiro dela era suave, floral e adocicado, mexia comigo de uma forma que não conseguia explicar, me atraia e me acalmava ao mesmo tempo.
"Companheira."
A voz grave dele atravessou meus pensamentos pela décima vez em menos de um minuto. Fechei os olhos rapidamente, tentando recuperar algum controle. Não, aquilo era impossível. Humanos não podiam formar laços de companheiros com Lycans; nunca aconteceu e nunca deveria acontecer. Mas Kaos não se importava com lógica. O instinto dele havia reconhecido Clara imediatamente, e agora meu próprio corpo começava a reagir como se ela fosse a coisa mais importante do mundo, o que era um desastre absoluto.
— Você precisa ir embora daqui imediatamente — ordenei de forma ríspida, aproximando meu rosto do dela em uma tentativa desesperada de tirá-la da mira dos predadores que circulavam o ambiente.
Ela cruzou os braços sobre o peito no mesmo instante, firmando os passos no mármore com uma postura inteiramente desafiadora.
"Nossa companheira tem coragem."
Kaos parecia profundamente satisfeito com a audácia da humana, mas eu ignorei o comentário mental dele com todas as minhas forças.
— Acho que consigo decidir muito bem isso sozinha — respondeu ela, mantendo o tom firme e sustentando o meu olhar dourado
Meu maxilar travou. Normalmente, aquela resposta teria arrancado um sorriso meu, mas não agora. Não com Julian observando cada movimento nosso. O vampiro permanecia alguns passos atrás dela, girando lentamente uma taça de vinho entre os dedos como se estivesse assistindo a um espetáculo particular. E talvez estivesse mesmo, porque Julian percebeu. Claro que percebeu. Vampiros tinham sentidos aguçados demais para ignorar mudanças emocionais e cheiro hormonal. Talvez ele não entendesse completamente o que estava acontecendo, mas sabia que Clara havia se tornado importante para mim. E isso já era perigoso o suficiente.
"Proteja ela."
Kaos voltou a falar. Meu Lycan raramente usava palavras completas; normalmente emoções e impulsos eram suficientes para nossa comunicação. Mas Clara… Clara estava afetando até ele.
— Clara, você precisa confiar em mim e sair deste salão — insisti, tentando suavizar a voz para acalmá-la, embora a urgência ainda estivesse cortante no meu tom.
Ela soltou uma pequena risada nervosa, dando meio passo para trás com desconfiança evidente em seus lindos olhos verdes esmeralda.
— Você continua dizendo que eu corro perigo sem se dar ao trabalho de explicar absolutamente nada para mim — rebateu ela, estreitando os olhos com os braços cruzados.
Porque eu não podia explicar. Como eu diria para uma humana que uma criatura ancestral dentro de mim havia acabado de reconhecê-la como companheira? Ela fugiria, ou pior: pensaria que eu era louco. O homem atrás dela se aproximou lentamente, e meu corpo inteiro reagiu instantaneamente. A ameaça veio antes mesmo do pensamento racional.
"Vampiro."
Kaos rosnou dentro da minha mente. Meu olhar encontrou o dele: frio, calculado e faminto. Ele ainda mantinha a postura elegante e impecável, mas eu conhecia aquele homem há séculos, tempo suficiente para reconhecer o que existia escondido sob a superfície: interesse. Perigoso interesse.
— Você está assustando a jovem jornalista com essa sua intensidade física, Ethan — comentou Julian, com a voz mansa e carregada de uma provocação sutil.
Ignorei o tom provocativo e continuei olhando apenas para ela. Os olhos verdes esmeralda da moça estavam cheios de perguntas agora, exibindo confusão, desconfiança e curiosidade. Curiosidade matava humanos rápido demais no nosso mundo.
— O que você quer de verdade aqui, Julian? — indaguei, mantendo a voz baixa e perigosa enquanto encarava o meu rival.
O oponente ergueu uma sobrancelha elegante, desfrutando da minha perda de controle.
— Neste momento? Honestamente? Estou apenas apreciando a situação dramática da Casa Vance — respondeu Julian com um sorriso de lado.
Mentiroso. Julian nunca observava nada sem motivo, especialmente não quando o cheiro de sangue humano e vínculo sobrenatural começava a preencher o ambiente.
"Companheira nervosa."
Kaos percebeu antes mesmo de mim. A respiração dela havia mudado e os batimentos cardíacos aceleraram. Meu corpo inteiro respondeu automaticamente através de uma proteção que era instinto puro. A jornalista olhou entre nós dois. Ela ainda não entendia, mas começava a perceber que existia algo profundamente errado naquela conversa.
Então aconteceu. O cheiro de sangue atravessou o salão, fraco e recente. Virei imediatamente a cabeça e vi que um dos garçons havia cortado discretamente a mão enquanto trocava taças numa bandeja. O corte era pequeno, mas suficiente. O inimigo percebeu no mesmo instante e seus olhos vermelhos escureceram discretamente. Droga, o vampiro estava com fome, e a jornalista estava perto demais. Me movi automaticamente para a frente dela. Ela percebeu imediatamente.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Clara, com a voz assustada e olhando para as minhas costas.
O predador fechou os olhos por um breve segundo antes de recuperar o controle de sua sede de sangue, mas foi por muito pouco.
— Nada que precise preocupá-la de verdade, senhorita Martins — respondeu Julian com uma suavidade gélida na voz.
Mentira. Conhecia vampiros bem demais para acreditar naquele tom calmo. Então Clara deixou a taça escapar. O vidro atingiu o chão com força, espalhando cacos próximos aos pés dela. Antes que pudesse pensar, segurei o pulso dela: quente. O toque atravessou meu corpo inteiro como fogo.
"Companheira."
Kaos praticamente rugiu dentro da minha mente. A moça ficou imóvel por um segundo, com a respiração presa. Meu corpo inteiro reagiu ao cheiro dela tão perto. Então senti: sangue. Uma gota pequena surgiu no dedo dela, e meu mundo inteiro ficou perigosamente silencioso.
"Companheira ferida."
Kaos avançou dentro da minha mente imediatamente. Meu controle vacilou; senti as garras tentando surgir sob a pele, os olhos queimando e o instinto tomando espaço demais. Não machucar. Proteger. Respirei fundo lentamente.
— Ethan…? — murmurou Clara, olhando fixamente para as minhas pupilas com os olhos arregalados.
Piscar. Respirar. Controle. Soltei o braço dela abruptamente antes que Kaos assumisse espaço demais.
— Você está ferida — comentei com a voz saindo rouca devido ao esforço interno.
Ela olhou para o próprio dedo, minimizando o estrago de forma inocente.
— É só um corte pequeno, não foi nada — respondeu ela.
Mas não era apenas isso. Sangue de companheira mudava tudo para um Lycan, principalmente para um Alfa. O aristocrata soltou uma risada baixa atrás de nós. Quando olhei para ele, os olhos vermelhos estavam presos na gota de sangue no dedo dela, e pela primeira vez naquela noite o sorriso elegante desapareceu. Meu corpo inteiro ficou rígido. A fome vampírica havia aparecido. Instantaneamente me coloquei na frente de Clara, protetor e possessivo. Meu instinto não se importava mais em esconder.
"Companheira nossa."
Kaos parecia perigosamente próximo de perder o controle e rasgar a carne humana para se libertar.
— Clara, vá até o banheiro e lave esse corte imediatamente — ordenei, mantendo o tom firme e autoritário que não aceitava recusa.
— Você está falando sério por causa disso? — questionou Clara, relutante em aceitar minhas ordens diretas.
— Sim, estou falando perfeitamente sério — respondi de pronto, e a resposta saiu rápida e cortante.
A resposta saiu rápida demais. Ela olhou entre nós dois novamente, confusa, desconfiada e assustada. Ótimo, assustada significava cautelosa, e cautela mantinha humanos vivos. Ela se afastou lentamente pelo salão. Esperei até que desaparecesse entre os convidados antes de voltar minha atenção completamente para Julian. O vampiro sorriu de lado, lento e calculado.
— Companheira, Ethan? — provocou Julian, e o tom de sua voz indicava que ele havia desvendado o enigma.
Meu sangue gelou nas veias. Droga, ele sabia a verdade, ou pelo menos suspeitava que tinha um laço de companheirismo que me unia àquela humana.
"Livre-se do vampiro agora."
Kaos rosnou violentamente dentro da minha mente, exigindo que nos livrássemos imediatamente do nosso rival. Ignorei o impulso destrutivo com dificuldade. Por enquanto, precisei manter a diplomacia do Tratado viva.
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