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Capa do romance Seu Projeto Para Me Apagar

Seu Projeto Para Me Apagar

Após dez anos de casada, descobri que a senha do cofre de meu marido era a data de nascimento da minha meia-irmã. Lá, encontrei o plano cruel: eu era apenas uma barriga de aluguel para Karina. Ele pretendia tomar meu bebê e me deixar sem nada. Humilhada e ameaçada, percebi que meu casamento foi uma farsa para gerar um herdeiro à sua amante estéril. Diante de provas de que eu era tratada como incubadora, entendi que fugir não bastava; eu precisava morrer.
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Capítulo 2

Aurora POV:

O novo apartamento, embora pequeno e com poucos móveis, parecia um santuário. Eu o aluguei rapidamente, pagando três meses de aluguel adiantado com o pouco dinheiro que me restava na conta pessoal, antes que Ricardo pudesse congelar tudo. Era um contraste gritante com a mansão, mas o zumbido silencioso da cidade do lado de fora de suas janelas era um som reconfortante, um lembrete constante de que eu não estava mais presa.

Minha vida antiga, no entanto, exigia uma última visita.

Dirigi de volta para a mansão, a propriedade extensa agora parecendo menos um lar e mais um mausoléu de promessas quebradas. Os portões, antes um símbolo de prestígio, agora pareciam a entrada de uma prisão. Atravessei o grande hall de entrada, passando pela coleção de arte meticulosamente curada, os ecos dos meus próprios passos sendo o único som no vasto espaço. O silêncio era ensurdecedor, um testemunho do vazio emocional que sempre residiu ali.

Na cozinha, um lugar onde eu raramente cozinhei durante nosso casamento — a equipe geralmente cuidava de tudo —, preparei uma refeição. Foi um ato estranho, quase ritualístico. O prato favorito de Ricardo: vieiras grelhadas com molho de manteiga e limão, e uma garrafa do raro vinho importado que ele tanto apreciava. Arrumei a mesa para dois, a porcelana mais fina e o cristal brilhando sob a luz suave do lustre. Uma ceia final, uma última oferenda a um fantasma. Cozinhei com uma estranha sensação de distanciamento, cada movimento preciso, metódico. Era minha maneira de dizer adeus, de tentar terminar as coisas com um pingo de paz, mesmo que apenas do meu lado.

Eu esperava que ele chegasse em casa mais cedo. Esperava que pudéssemos conversar, racionalmente, calmamente. Esperava por um encerramento que fosse respeitoso, limpo. Uma esperança tola, eu sabia.

Horas se passaram. A comida esfriou, o vinho permaneceu fechado. O relógio na lareira badalou meia-noite, cada toque um golpe de martelo na minha frágil compostura. Minhas esperanças murcharam a cada minuto que passava, substituídas pela dor familiar da negligência.

Então, o ronco do motor dele, um som familiar e indesejado. A batida pesada da porta da frente. Ouvi seus passos, firmes e sem pressa, enquanto ele atravessava a casa. Ele entrou na sala de jantar, seus olhos percorrendo a refeição intocada, depois pousando em mim.

Seu terno caro estava amarrotado, a gravata afrouxada. O leve cheiro de perfume caro, que não era o meu, pairava sobre ele, misturando-se com o uísque de sempre. Uma mancha de batom, fraca mas inconfundível, era visível em seu colarinho. Minha respiração ficou presa na garganta. A evidência era gritante, inegável. O último prego no caixão da minha ilusão.

Meu olhar caiu para sua mão esquerda. A pesada aliança de ouro, um símbolo ao qual me agarrei por tanto tempo, havia sumido. Seu dedo estava nu, um círculo pálido e acusador onde ela antes repousava. O último fio se rompeu.

Ele olhou para o jantar elaborado, depois para mim, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. "O que é isso, Aurora?" Sua voz era monótona, desprovida de curiosidade ou apreço. "Algum tipo de grande gesto? Uma tentativa desesperada?" Ele gesticulou com desdém para a mesa. "Eu te disse para sair. Essa exibição patética não vai mudar nada."

Meu choque inicial deu lugar a uma raiva fria e dura. "É um jantar de despedida, Ricardo", eu disse, minha voz mal um sussurro. "Mas parece que você já teve o seu." Apontei para o colarinho dele.

Ele olhou para baixo, seus olhos se arregalando quase imperceptivelmente ao registrar a mancha. Um músculo se contraiu em sua mandíbula. Ele começou a se virar, a ir embora, a escapar do confronto.

"Ricardo!" Minha voz cortou o silêncio, mais afiada do que eu pretendia. Ele parou, de costas para mim. "Eu disse que queria o divórcio", continuei, caminhando até a mesa e pegando o novo e impecável conjunto de papéis — aqueles que a Dra. Mendes havia enviado, agora assinados por mim. "Aqui. Está feito."

Ele se virou lentamente, seus olhos me perfurando. Uma risada áspera e zombeteira escapou dele. "Divórcio? Você acha que pode simplesmente exigir um divórcio, Aurora? Depois de tudo?" Ele zombou. "Você encontrou algum rascunho bobo de acordo e agora está fazendo birra? Não seja ridícula. Esta é a minha casa. Você é minha esposa. Volte para o seu quarto."

"Não era um 'rascunho bobo', Ricardo", eu disse, minha voz ganhando força. "Era o seu plano. Seu plano para me despojar de tudo, para me deixar impotente enquanto você despejava bilhões em Karina. E não era apenas um rascunho, era? Era um espelho do pacto antenupcial que você me forçou a assinar, um testamento de suas verdadeiras intenções o tempo todo." As palavras saíram, cruas e sem filtro.

Sua expressão endureceu. "Você não entende as complexidades dos meus negócios, Aurora. Era uma contingência, uma proposta para reestruturar ativos. Nada mais." Sua displicência me enfureceu. Ele ainda me via como irracional, emocional, incapaz de entender suas "complexidades".

Mas eu entendia. Eu finalmente, verdadeiramente, entendia. Ele nunca me amou. Nem por um único momento em nossos quinze anos juntos ele me viu como algo mais do que um meio para um fim, um acessório conveniente para sua imagem pública, um recipiente fértil para uma criança que ele pretendia moldar à imagem de Karina. A percepção me atingiu com a força de um maremoto, afogando os últimos vestígios de esperança.

Lembrei-me dos primeiros dias de sua carreira, quando seu primeiro grande negócio imobiliário quase desmoronou. Ele estava à beira da ruína, sua reputação em frangalhos. Eu, então uma jovem e ambiciosa arquiteta, tinha visto seu potencial, seu talento bruto sob o exterior arrogante. Eu investi minhas próprias economias, a pequena herança da minha família, para sustentar seu projeto em colapso. Trabalhei incansavelmente, usando minhas habilidades de design para salvar o projeto, transformando-o em um sucesso lucrativo. Saí sem nada além da promessa de sua lealdade, sua gratidão e um amor que eu erroneamente acreditava ser real.

"Eu nunca vou esquecer isso, Aurora", ele sussurrou, seus olhos cheios do que eu pensei ser admiração e devoção, depois que o negócio foi salvo. "Você me salvou. Eu te devo tudo. Minha vida, meu futuro... é seu." Essas palavras, antes minha memória mais querida, agora pareciam a piada mais cruel.

Ele nunca cumpriu. Ele apenas me absorveu em seu mundo, borrando as linhas entre minhas contribuições e seu império, garantindo que eu nunca tivesse uma base independente. Meu amor, minha lealdade, meu próprio ser, foram consumidos por ele, deixando-me com nada além da ilusão de uma vida compartilhada.

"Você me deve uma vida, Ricardo", eu disse, minha voz falhando, as palavras com gosto de cinzas. "Eu salvei sua carreira, investi meu próprio capital em seu empreendimento falido, eu te salvei da ruína! Você me prometeu tudo. E o que eu ganhei? Uma década sendo sua sombra, sua esposa conveniente, enquanto você corria atrás de outra mulher!"

Ele se encolheu, sua compostura finalmente se quebrando. "Quanto você quer, Aurora?", ele disse, a voz tensa. "Diga seu preço. Eu te dou qualquer coisa. Só não faça uma cena. Não dificulte as coisas."

"Você acha que isso é sobre dinheiro?" Eu ri, um som áspero e sem humor que ecoou estranhamente na vasta sala. "Você acha que pode comprar de volta meus anos desperdiçados, minha confiança estilhaçada, com um cheque?" Peguei os papéis do divórcio assinados novamente. "Eu não quero nada de você, Ricardo. Nada além da minha liberdade. E da sua."

"Isso é ridículo", ele murmurou, passando a mão pelo cabelo. "Eu não vou assinar isso. Nem agora, nem nunca."

"Você vai", afirmei, minha voz fria, calma e totalmente final. "Você tem até o final da semana. Assine, ou enfrente um processo de divórcio público. E acredite em mim, Ricardo, você não vai querer que eu comece a falar sobre seus 'planos de contingência' e suas 'complexidades de negócios' no tribunal. Ou sobre o batom no seu colarinho."

Seu rosto perdeu a cor. Ele abriu a boca, depois a fechou. Ele olhou para mim, realmente olhou para mim, pela primeira vez em anos, e não viu a esposa complacente, mas uma estranha. Uma estranha perigosa.

Coloquei os papéis gentilmente sobre a mesa ao lado do vinho intocado. "Os advogados entrarão em contato." Então, sem outra palavra, me virei e saí da sala de jantar, saí da mansão e saí da vida dele. Meus passos eram firmes, resolutos. Eu não olhei para trás.

Atrás de mim, ouvi um estrondo. O som de vidro quebrado, de cristal explodindo contra o mármore. Ricardo estava descontando sua fúria no jantar que eu havia preparado, na mesa que eu havia arrumado. Um final apropriado para nossa farsa de uma década.

O único arrependimento, o mais profundo e agonizante arrependimento, era a criança que eu carregava. Esta vida inocente, concebida em uma mentira, nascida em um mundo de traição. Uma vida que eu quase, em meu desespero, escolhi terminar. Mas o pequeno chute, o tremor de esperança, havia mudado tudo. Agora, meu propósito estava claro. Meu bebê. Meu futuro. E Ricardo Montenegro não teria parte nisso.

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