
Seu Novo Começo em Londres
Capítulo 2
Dois dias haviam se passado até que a transferência para a ala de cuidados paliativos fosse concluída. Kelsey permanecia estável - pelo menos por enquanto - mas a palavra soava para Elaine como uma mentira mal contada.
No apartamento que antes dividira com Brett, ela se sentia como uma estranha, um fantasma perdido entre paredes carregadas de sete anos de memórias, todas agora contaminadas.
Pela manhã, uma mensagem curta de Brett havia chegado no celular dela: "Tenho uma conferência em Chicago. Volto amanhã. Se comporte."
Elaine respondeu apenas com um "Tudo bem", porque discutir exigia mais força do que ela estava disposta a gastar.
Ela já tinha mandado o e-mail de demissão ao RH, que, sem surpresa, ficou sem resposta.
Era Brett quem controlava tudo.
No dia seguinte, Elaine decidiu começar a empacotar. No processo, descobriu que sua vida cabia inteira em uma mala grande e outra de mão - alguns desenhos arquitetônicos, poucos livros que gostava muito e algumas roupas. O resto não passava de tralha de uma vida que já não lhe pertencia.
De repente, ouviu a chave girando na fechadura.
Era Chloe, a assistente de Brett, sempre mais leal ao chefe do que à própria empresa.
"Elaine", disse ela num tom profissional, mas frio. "Brett está te esperando. Vamos."
O olhar de Chloe caiu sobre a mala feita pela metade no chão. "Planejando ir viajar?"
Antes que Elaine pudesse se justificar, Chloe segurou firme o braço dela e a puxou para fora.
Para Elaine, não havia sentido em resistir.
Um carro preto aguardava na calçada, que a levou direto até um arranha-céu espelhado na beira do Central Park.
Um elevador privativo as conduziu até a cobertura.
Assim que as portas se abriram, ela deu de cara com um espaço imenso e vazio, iluminado por janelas de vidro que iam do chão ao teto e ofereciam uma vista deslumbrante da cidade. Esse era o projeto que consumia Brett no último ano.
Chloe conduziu Elaine até um quarto, onde roupas de grife e uma maquiadora estavam preparadas.
"Deixem ela pronta", Chloe ordenou antes de sair.
Uma hora depois, Elaine parecia uma boneca - um vestido de seda caía impecável em seu corpo e seu rosto estava coberto por maquiagem pesada.
Por dentro, ela se sentia oca e manipulada.
Brett surgiu então, sorrindo vitorioso, e a abraçou por trás, colando o corpo dela ao seu. "Olhe bem, Lainey. É o nosso futuro."
Ela encarou o reflexo na janela, a mente entorpecida, enquanto pensava em Kelsey preso em um quarto estéril cuja janela não mostrava mais do que uma parede de tijolos.
"E o relógio?", perguntou Brett baixinho, percebendo a ausência no pulso dela. "Não me diga que perdeu."
Sem esperar resposta, ele continuou: "Hoje à noite é o ato final. A festa vai ser aqui mesmo, uma celebração de 'lançamento de projeto' para Daniella. Vou fazê-la acreditar que tudo isso foi feito para ela. E então, no auge da glória, eu a derrubo. Vou expor a fraude que ela é. Vai ser perfeito."
Ele girou Elaine para encará-la, seus olhos brilhando com uma excitação febril, e começou a falar sobre o futuro, sobre filhos que viriam para esse palácio vazio e até sobre Kelsey, garantindo que teria o melhor quarto e os melhores médicos.
Cada palavra soava como uma lâmina atravessando o coração de Elaine.
Kelsey, que mal conseguia abrir os olhos... Kelsey, que jamais veria essa vista...
Ela se recordou da última vez que o irmão visitara o antigo apartamento, antes de a doença avançar. Ele se sentara na varanda minúscula, observando a estreita faixa de céu entre os prédios, e dissera a Brett: "Você é o melhor cara do mundo."
Brett prometera a ele uma vista de verdade, como essa.
Mas o sonho tinha morrido, junto com a escolha de Brett pelo jogo em vez da vida do irmão.
"Brett, eu...", Elaine tentou dizer, engasgada pelas próprias palavras.
Porém, as portas do elevador se abriram com violência antes que ela pudesse continuar.
Daniella Chen entrou como uma tempestade, o rosto tomado pela fúria. "Então era isso o tal 'encontro de negócios'?"
Brett congelou e seu sorriso seguro desapareceu. Por um instante, ele pareceu genuinamente atordoado.
"Você achou mesmo que podia me enganar?", disparou Daniella, os olhos faiscando. "Acha que eu sou idiota?"
Ela arrancou as chaves do carro da empresa da própria bolsa e as lançou contra Brett com força.
Em seguida, ela se virou para Elaine, arrancou o crachá de Vice-Presidente do próprio blazer e o atirou direto contra o rosto da rival.
O canto afiado do plástico cortou a pele de Elaine, deixando escorrer uma gota de sangue pela bochecha.
Mas Brett não olhou para Elaine, tampouco correu para socorrê-la.
Seu olhar estava preso em Daniella.
E foi ali, nesse instante, que Elaine reconheceu a mesma ternura quebrada, a mesma compaixão doída que ele um dia reservou apenas a ela - quando sua mãe morreu, quando Kelsey recebeu o diagnóstico.
Agora, esse olhar pertencia a outra mulher, a que acabara de feri-la.
Ao perceber a reação dele, Daniella deixou escapar um soluço, e a raiva se dissolveu em uma cena melodramática de mágoa. "Não acredito que você fez isso comigo, Brett."
Ela cambaleou como se fosse desmaiar, levando a mão ao peito.
De imediato, Brett correu e a amparou. "Daniella, não é o que parece."
Com um gesto fraco, ela o empurrou. "Não encoste em mim."
Enquanto isso, Elaine tentou se justificar e explicar que não tinha vindo por vontade própria, que Chloe a arrastara para isso. "Brett, eu não..."
"Cale a boca, Elaine!" Brett a interrompeu com um olhar frio que ela jamais tinha visto antes. "Fique fora disso."
O corpo dele estava rígido e sua mente só focava na mulher que estava chorando em sua frente.
Elaine ficou paralisada, com uma única gota de sangue escorrendo pela face, enquanto o coração se congelava dentro do peito.
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