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Capa do romance Seu mundo ideal.

Seu mundo ideal.

Ao chegar em Las Vegas para o The Ultimate Fighter, mal acredito que serei treinado pelo ídolo Jon Jones. É minha estreia internacional na Cidade do Pecado, um cenário ideal para quem luta desde a infância. Entre o judô e brigas para defender minha irmã, profissionalizei-me ao cursar jornalismo. Foi nessa fase que conheci Edu, meu grande parceiro de vida, em uma festa universitária onde o acaso nos uniu enquanto ele tentava conquistar uma garota.
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Capítulo 2

MAYA

― Me diz de novo: por que a gente está assistindo esse negócio mesmo?

― perguntei aos meus dois colegas de casa enquanto me sentava no sofá

segurando uma vasilha de pipoca e uma garrafa de Smirnoff Ice.

― Porque eu sou constantemente obrigado a assistir aos filmes que vocês

escolhem. Então nada mais justo do que vocês assistirem a final do TUF

comigo. ― Ramiro respondeu com os olhos vidrados na televisão. ― Porra,

isso aí! ― ele comemorou enquanto um cara caía de cara no chão na tela da

tv. ― Ano que vem, se tudo der certo, eu vou estar assistindo a final ao vivo

em Vegas, já que ver a disputa oficial do cinturão do UFC é mais concorrido

do que o tal show da Sandy & Júnior que vocês tanto falavam! Vocês podem

ir comigo se quiserem.

― Eu assisto porque tem vários homens gostosos sem camisa. ― Iane

respondeu.

― Agora sim eu vi vantagem. ― respondi, fazendo Ramiro revirar os

olhos.

― A luta é um tipo de arte. E você mais do que ninguém deveria saber

disso, já que é a artista dessa casa. ― meu amigo me repreendeu.

Nós três compartilhamos um apartamento de três quartos no Flamengo.

Iane foi a primeira moradora do apê 403. Ela se mudou para cá assim que

passou no vestibular para cursar Publicidade e Propaganda. Assim, ficaria

mais próxima da faculdade. Ela e Ramiro se conheceram nas primeiras

semanas de aula e se aproximaram devido a um trabalho que precisaram fazer

juntos. Quando ele comentou que precisava de um lugar para morar, ela disse

que tinha um quarto sobrando no apartamento em que morava.

Iane e eu nos conhecemos desde... Bom, desde sempre já que somos

primas. Apesar de Iane ser mais velha dois anos, sempre fomos melhores

amigas e vivíamos grudadas uma na outra. Depois de um tempo, quando eu

passei no vestibular e decidi que queria sair da casa dos meus pais, ela me

convidou para ocupar o quarto que ainda tinha sobrado por aqui. Foi assim

que uma aspirante a atriz, uma louca do cabelo colorido e um apaixonado por

lutas marciais viraram melhores amigos.

Atualmente, eu trabalhava como professora de teatro para crianças em

uma escola perto de casa. Eu gostava do meu trabalho e ele pagava as minhas

contas. Mas, desde que eu comecei a cursar Artes Cênicas, meu objetivo

sempre foi estrelar uma grande peça no teatro. Meu maior sonho, óbvio, um

dia é me apresentar na Broadway. Sonhar não custa nada, né? Embora, por

enquanto, tudo que eu tinha conseguido foram pequenos papéis em algumas

peças teatrais e figuração em algumas novelas. Mas eu não desisto dos meus

sonhos. Todo teste de elenco euzinha sou presença confirmada. Uma hora

meu momento vai chegar. Não é isso que dizem? Se você pensar positivo, a

positividade vai até você. Ou algo assim.

― Quem é esse Deus grego? Olha só esse tanquinho. ― Iane comentou.

Retornei minha atenção para o programa que estava na televisão.

― Quando dizem que lugar de mulher é no tanque, eu imagino um tanque

assim. ― eu respondi olhando para o cara gostoso que estava lutando. ―

Qual o nome desse lutador, Ramiro? Eu vou seguir no Instagram agora

mesmo.

― O nome dele é Arthur Birkman. Ele é uma lenda. No último ano foi

campeão nacional invicto e foi convidado pro TUF esse ano.

Joguei o nome do lutador na busca da rede social e logo achei o seu perfil,

repleto de fotos sem camisa para a minha sorte.

Ai. Meu. Deus. Ele tinha uma foto (sem camisa, claro) com uma criança

e um cachorro? Isso era demais para o meu coração.

― Iane, você está vendo o perfil desse cara? ― perguntei à minha prima,

sentada esparramada do outro lado do sofá.

― A gente precisa mandar A mensagem.

― Eu voto sim! ― respondi.

A mensagem era uma brincadeira inventada, com muito orgulho, por mim.

Em uma noite de sábado, depois de mais taças de vinho do que eu estava

acostumada, abri meu Instagram com uma missão: mandar uma mensagem

escrito “vc é gostoso d+” para um modelo gringo famoso na rede social que

eu seguia há um tempo. Por que eu fiz isso? Não sei. Mas a Maya bêbada

achou que seria interessante dizer para um cara que ela nunca viu na vida que

ele era gostoso, mesmo que ele nem sequer entendesse português.

Como a Maya bêbada sempre tem razão, nós tornamos isso a nossa

própria espécie de ritual de melhores amigas. A partir desse dia, sempre que

o perfil de alguém gostoso, brasileiro ou gringo, aparece na nossa tela

mandamos A mensagem.

― Vocês nunca desistem disso? ― Ramiro perguntou. ― Ele tem mais de

500 mil seguidores. Vocês nunca serão notadas.

― Nunca diga nunca, Ramirinho. ― eu brinquei enquanto mandava A

mensagem para Arthur. ― E a graça é exatamente essa. Mandar várias

mensagens até um dia ser notada. Pode deixar que eu apresento ele para você

quando virarmos melhores amigos de Instagram. Você vai poder tietar ele à

vontade, tirar foto e tudo.

― Eu já tenho foto com ele, querida. ― Ramiro se gabou. Puxando o

celular do bolso, ele abriu seu próprio perfil e me mostrou um story antigo

dos dois juntos depois de alguma luta que ele havia assistido ao vivo.

― Quando e como você conheceu esse deus grego? ― questionei.

― Ser publicitário de marcas voltadas para o esporte tem seus benefícios,

Maya. Talvez assim vocês se animem a ir comigo em alguma luta quando eu

chamar da próxima vez.

Ramiro quase sempre conseguia ingressos de graça para assistir às lutas.

Muitas vezes ele convidava Iane e eu para irmos com ele, mas a gente sempre

inventava uma desculpa. Eu estava tão arrependida. Nunca mais iria sugerir

que ele levasse outros amigos no meu lugar. De repente MMA me pareceu

um esporte muito, muito interessante.

◆◆◆

No dia seguinte, a brisa fresca que tinha surgido no Rio de Janeiro tinha

tornado possível que eu ficasse sentada na sacada do nosso apartamento,

bebendo um suco e escrevendo o roteiro para a peça de final de semestre dos

meus alunos. Esse ano o tema escolhido foi Peter Pan na Terra do Nunca. As

crianças estavam super empolgadas e confesso que eu também. Depois da

história da Chapeuzinho Vermelho, Peter Pan era a que eu mais gostava. Eu

estava no meio de uma das minhas cenas preferidas quando uma notificação

de nova mensagem no WhatsApp apareceu no canto inferior direito da tela do

meu computador.

Lívia: Oie, amigos! Nosso reencontro de alunos está marcado para o

próximo sábado, às 20h, no pátio do nosso querido Colégio Nossa Senhora

da Paz. Estamos preparando tudo com muito carinho para receber a tds vcs!

Qm não confirmou presença, por favor, confirme através do link a seguir:

www.reencontrocnspaz.org/confirmacao . Um bjão a tds! :)

Alguns instantes depois, outra mensagem chegou.

Lívia: Oi, Maya. Ainda não vi seu nome na listinha dos confirmados. O

site tá abrindo direitinho pra você? Sua presença é mto importante. Se

precisar de ajuda me fala, querida. Bjinhos :*

― Nem em sonho que eu vou nisso.

― Tá falando com quem, priminha? ― Iane perguntou, me fazendo notar

que eu tinha falado aquilo em voz alta.

― Aquela vaca da Lívia Motta, lembra dela?

― Vagamente. Você deve ter reclamado comigo dela apenas umas 13.495

vezes.

Lívia Motta. O terror da minha infância e adolescência. Ela era a menina

mais popular da escola: linda, cheia de amigos e só tirava notas altas. Eu era

uma criança tímida, tinha apenas duas amigas e notas dentro da média. Minha

mãe achou que seria uma boa ideia me colocar no clube do teatro para ganhar

mais confiança e perder a timidez. E, assim como eu, Lívia também era do

mesmo clube. Mas, ao contrário de mim, ela queria mais era ser o foco de

toda atenção.

A gente estava no 4º ano quando tudo aconteceu. A nossa professora

estava fazendo a seleção dos alunos para o papel de Chapeuzinho Vermelho.

Eu precisava daquele papel. Eu amava a Chapeuzinho Vermelho. Todos os

dias eu estudava meu texto, decorando cada ponto e cada vírgula daquele

roteiro. No dia do teste, pedi para minha mãe me arrumar como se eu fosse a

própria personagem. Minha mãe, que amava a ideia de ter uma filha atriz,

arrumou uma fantasia com cesta e capa vermelha para que eu usasse. Era o

dia mais feliz da minha vida. A sorte estava ao meu favor. Quando subi no

palco para fazer o teste, surgiu em mim uma confiança que eu nem sabia que

existia. E, para minha total alegria, o papel de Chapeuzinho se tornou meu.

Lívia, que também queria esse papel, ficou morrendo de raiva de

mim. A partir desse dia ela saiu do clube de teatro e decidiu que isso era coisa

de fracassados e perdedores. Ela também decidiu que eu era a líder dos

fracassados e perdedores. E quando Lívia Motta decidia uma coisa, toda a

escola a seguia.

― Ela decidiu fazer um reencontro estúpido naquela escola estúpida. E

agora está me mandando mensagem dizendo que não viu meu nome na lista

de confirmados. Mas é óbvio que ela não viu. Não tem a menor possibilidade

de eu aparecer por lá.

― Por que não?

― Livia e os amigos populares idiotas me fizeram passar pelo verdadeiro

inferno naquela escola. Não quero ver a cara deles nem pintados a ouro.

― Ah, mas você vai sim. Você vai chegar lá toda linda e maravilhosa e

mostrar pra eles o mulherão incrível que você se tornou. ― Iane tomou o

celular da minha mão.

― O que você está fazendo, sua doida?

― Confirmando sua presença, claro. Prontinho. ― ela anunciou depois de

alguns segundos e me devolveu o celular. ― Presença confirmada. Já posso

começar a pensar no cabelo, make e roupas para você usar?

― Eu tenho outra escolha? ― perguntei ainda que eu soubesse a resposta.

2.

MAYA

― Você está uma verdadeira musa do verão. ― Iane comentou

enquanto olhávamos meu reflexo no espelho do quarto. A festa organizada

por Lívia tinha como tema Verão Tropical. Eu usava um top cropped branco

com uma saia de cintura alta azul pastel de um tecido leve que ia até a altura

dos tornozelos. Nos pés, uma sandália de tiras, também na cor branca,

completava meu look.

― Estou me sentindo uma sereia tropical com esse look. ― eu comentei,

admirando o quão bonito ficava o contraste da minha pele bronzeada com as

cores claras da minha roupa. Apesar de estar me vendo linda, eu ainda me

sentia nervosa e insegura de aparecer naquela festa com todas aquelas

pessoas que por tantos anos zoaram da minha cara.

― Que cara é essa? Você não está pensando em desistir, né?

― É só que… Iane, eu não sei se consigo. Voltar lá, no meio daquela

gente. ― o som das risadas de deboche e dos apelidos que ganhei na escola

ainda me assombravam.

― Maya, você não é mais uma garotinha. Você é um mulherão. Uma

grande atriz que em breve terá seu nome estampando todas as revistas de

fofoca do mundo. Mas fica tranquila que serão só fofocas falando bem de

você, tá? ― ela me abraçou. ― Mas, só por precaução, o Ramiro fez umas

caipirinhas pra gente beber antes de você ir. Isso vai te ajudar a ficar mais

relaxada.

Chegando na cozinha, Ramiro já estava com os drinks preparados em cima

da bancada. Ele me entregou um copo e deu outro para Iane. Erguendo seu

próprio copo, ele fez um brinde:

― Às voltas que o mundo dá. ― virei minha bebida de uma vez.

― Eu quero mais, Ramiro! Foi muito pouco.

― Seu pedido é uma ordem! ― ele imediatamente me preparou mais um

copo.

Quando terminei meu segundo copo de caipirinha já me sentia mais

alegre, solta e confiante. Peguei meu celular de dentro da bolsa para chamar

um Uber que me levaria até minha antiga escola. Ele ainda demoraria 10

minutos para chegar no meu prédio segundo o aplicativo mostrava na tela.

Aproveitei para dar uma olhada no instagram se alguma das minhas colegas

já tinham postado algum story do reencontro. Pulando de uma postagem para

outra me deparei com um vídeo do Arthur Birkman treinando, postado pelo

próprio. Não resisti. Cliquei na caixa de resposta e digitei uma mensagem:

@mayamoura respondeu ao story: nossa, hein... nem um guindaste

Aquele homem era gostoso demais para seu próprio bem. Um aviso

de que meu carro se aproximava apareceu na tela do celular, tirando minha

atenção do corpo malhado de Arthur na academia. Guardei meu celular na

bolsa, peguei minhas chaves e fui em direção ao elevador. Estava na hora de

mostrar para Lívia Motta que eu não era mais a perdedora que ela acreditava.

Na porta de entrada da festa, uma menina vestida como uma havaiana

entregava colares de flores para todos os convidados. Mais a frente, uma

mesa de madeira estava repleta de copos em formato de abacaxi.

Aparentemente, cada convidado deveria ter um copo desse e usá-lo durante

toda a noite. Pegando meu copo, fui direto para a mesa de bebidas enchê-lo.

O ginásio estava todo decorado com cangas e almofadas coloridas pelo chão.

Balões de várias cores flutuavam pelos cantos do lugar criando um ambiente

agradável e feliz. Totalmente diferente das lembranças que eu tinha da minha

adolescência naquele lugar.

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