
Sete Anos, Um Adeus Cruel
Capítulo 3
"Miguel, o que é isso? Não fala assim com o Tiago!", Patrícia reagiu imediatamente, colocando-se ligeiramente à frente de Tiago, como se o estivesse protegendo. "Ele não fez nada de mal. Você está exagerando."
A defesa dela foi a última pá de cal. Miguel olhou para ela, depois para Tiago, que mantinha o mesmo sorriso presunçoso, e sentiu algo se quebrar dentro de si de forma definitiva. Não era só a ausência na festa. Era a escolha clara que ela fazia, ali, na frente dele.
"Eu não estou exagerando, Patrícia. Eu estou terminando," ele disse, cada palavra pesando uma tonelada.
Tiago riu, um som baixo e debochado.
"Calma, campeão. Não precisa de tanto drama por causa de uma festinha."
Miguel nem se deu ao trabalho de olhar para ele. Seus olhos estavam fixos em Patrícia. Ela o encarava, chocada, como se ele tivesse falado em outra língua.
"Terminando? Você está terminando comigo por causa disso? Depois de sete anos? Você é um egoísta, Miguel!"
Foi a vez de Miguel rir, mas sua risada não tinha humor. Era um som seco, amargo.
"Egoísta? Eu sou o egoísta? Certo." Ele fez um gesto em direção à porta. "Vão embora. Os dois."
Patrícia o fuzilou com o olhar, pegou na mão de Tiago e o puxou para fora.
"Vamos, Tiago. Ele não está bem da cabeça. Amanhã, quando ele se acalmar, a gente conversa."
Miguel observou os dois descerem o corredor juntos, a figura dela se afastando ao lado da dele. A porta do elevador se fechou, e o silêncio que ficou para trás foi absoluto e ensurdecedor. Ele fechou a porta do apartamento, trancou-a e se encostou nela, finalmente deixando o corpo ceder.
Naquela mesma noite, ele não dormiu. Abriu o notebook e olhou para o e-mail que estava em sua caixa de entrada há semanas. Uma oferta de emprego. Não era qualquer oferta. Era da "Nexus Games", uma das maiores desenvolvedoras de jogos do mundo, com sede na Europa. Um sonho que ele tinha engavetado por causa de Patrícia, porque ela não queria sair do país, longe da família e dos amigos.
Ele clicou em "Responder" e digitou com os dedos trêmulos: "Eu aceito a oferta. Quando posso começar?".
No dia seguinte, o celular dele não parou. Mensagens de Patrícia. Ligações. Ele ignorou tudo. Começou a arrumar suas coisas, uma sensação estranha de liberdade e pânico se misturando dentro dele.
A campainha tocou incessantemente. Ele sabia que era ela. Por fim, ele abriu a porta.
Patrícia estava ali, com os olhos vermelhos de choro.
"Miguel, me desculpa. Eu fui uma idiota. Eu não pensei. Por favor, vamos conversar. Sete anos, a gente não pode jogar tudo fora assim."
"Já jogamos, Patrícia. Ontem."
"Não, não jogamos! Eu te amo! Foi só um erro estúpido!"
Ele balançou a cabeça. "Não foi um erro. Foi uma escolha. E você continua fazendo."
Ele comprou a passagem de avião para a semana seguinte. A resposta da Nexus Games foi imediata e entusiasmada. Seu orientador da faculdade, que tinha feito a ponte para a vaga, ligou para parabenizá-lo.
"Fico feliz que você finalmente tenha aceitado, Miguel. É uma oportunidade que você merece. Eu sabia que adiar aquilo por um relacionamento era um erro."
A semana passou voando, entre resolver burocracias e se despedir dos amigos. Ele evitou Patrícia a todo custo, mas na véspera da viagem, ela conseguiu interceptá-lo na portaria do prédio.
Ela não estava sozinha. Tiago estava com ela, parecendo desconfortável.
"Miguel, eu preciso do seu notebook antigo," ela disse, a voz tensa. "Aquele que você me deu. Tem o protótipo do meu projeto final da faculdade lá."
Miguel franziu a testa. "Eu o formatei. Ia vendê-lo."
O pânico tomou conta do rosto dela. "O quê? Não! Você não pode ter feito isso! Meu projeto! Tiago tentou me ajudar a passar os arquivos, mas o HD externo dele deu problema e corrompeu tudo!"
Tiago deu um passo à frente. "É, cara, foi mal. Acontece. Mas você não devia ter formatado o computador dela sem avisar."
A acusação velada fez o sangue de Miguel ferver. Ele tinha dado aquele notebook a ela. E agora, a culpa era dele?
"O computador não é dela, Tiago. É meu. E o que eu faço com as minhas coisas não é da sua conta."
Foi então que o orientador de Miguel, que por coincidência morava no mesmo bairro e estava passando, se aproximou. Ele ouviu a última parte da conversa.
"Miguel? Algum problema?", perguntou o professor, um homem calmo e observador.
"Professor! Não, sem problemas," Miguel tentou desconversar.
Patrícia, porém, viu uma oportunidade. "Professor, o Miguel apagou meu projeto final da faculdade! Ele fez de propósito porque está com raiva de mim!"
O orientador olhou de Patrícia para Miguel, depois para Tiago, com uma expressão indecifrável.
"Patrícia, o Miguel não faria isso. Mas, falando em projetos importantes, você sabe que o protótipo de jogo no qual o Miguel estava trabalhando e que foi danificado na universidade na semana passada, quando você e o Tiago estavam no laboratório fora do horário, vale mais de meio milhão de reais em investimento inicial?"
Patrícia e Tiago congelaram.
"O quê?", ela gaguejou. "D-danificado? Ninguém nos disse nada."
"A investigação está em andamento," o professor continuou, calmamente. "E Miguel, a empresa já foi notificada. Eles vão acionar o departamento jurídico para apurar as responsabilidades. Eles levam a destruição de propriedade intelectual muito a sério."
O rosto de Patrícia ficou pálido. Ela se virou para Miguel, o pânico agora misturado com fúria.
"Você vai me processar? Processar a mim e ao Tiago? Depois de tudo que a gente viveu? Você é um monstro!"
Miguel a encarou, o cansaço de sete anos pesando em seus ombros.
"Eu? Um monstro?", ele respondeu com um sarcasmo gélido. "Interessante você dizer isso, Patrícia. Muito interessante. Agora, se me dão licença, eu tenho um avião para pegar."
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