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Capa do romance Senhor King

Senhor King

Claire, uma jovem brilhante, vê sua vida desmoronar após uma decepção devastadora. Desempregada e lutando contra a ansiedade, ela busca um recomeço em uma empresa renomada. Lá, seu caminho cruza com o do Sr. King, um engenheiro de sucesso, mas de temperamento difícil e passado conturbado. O que inicia como um tenso encontro profissional entre esses dois mundos feridos pode ser a oportunidade inesperada para curarem suas cicatrizes e redescobrirem o amor.
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Capítulo 2

O dia termina e eu continuo remoendo a conversa com Amber.

É difícil admitir, mas ela tem razão.

Quando você luta tanto por algo - quando investe tempo, esforço e esperança em um objetivo - abrir mão parece o mesmo que aceitar o fracasso.

Eu não desprezo cargos menores. Não menosprezo quem não teve oportunidade de estudar e se formar.

Não... não é isso.

Para mim, é mais complexo.

A necessidade de provar que sou capaz, que consigo ser alguém... essa urgência lateja dentro de mim há anos, consumindo cada pensamento.

É como se cada recuo fosse uma derrota pessoal. Essa teimosia, essa vontade incessante de mostrar que posso ir mais longe... às vezes me cega.

Mas, como Amber disse: preciso recomeçar.

Vou dormir tarde da noite. Viro de um lado para o outro até, finalmente, pegar no sono.

Às sete da manhã, o despertador toca.

Estico o braço, tateando a mesinha ao lado da cama em busca do aparelho que insiste em me arrancar do sono.

Quando finalmente o encontro, ainda com metade do rosto enterrado no travesseiro, abro um olho com dificuldade e, com satisfação, pressiono o botão vermelho que encerra aquele som irritante.

Enfim... silêncio.

Levanto-me com relutância. Meus olhos estão pesados, e uma leve dor de cabeça ameaça estragar o dia. Pelo menos o estômago parece em paz.

Caminho até o banheiro, já me livrando da roupa pelo caminho.

Entro no box e ligo o chuveiro.

A água fria despenca sobre minha cabeça, arrancando um suspiro trêmulo. Cada gota desperta um pedaço adormecido do meu corpo. O arrepio percorre minha pele e, por um instante, sinto como se estivesse voltando à vida.

Fico ali mais do que o necessário, deixando a água levar minhas lembranças desconfortáveis - entrevistas frustradas, meses de estresse, a incerteza do que vem pela frente.

Por fim, ajusto o registro para morno e termino o banho.

Vinte minutos depois, estou diante do espelho, cabelo enrolado na toalha, escovando os dentes e massageando o rosto com a skincare.

Cada passo da rotina é uma tentativa de impor ordem ao caos da minha mente.

Sigo para a cozinha e preparo o café.

Não vivo sem café.

Café é vida.

Mesmo com a gastrite, essa é uma tradição que me recuso a abandonar.

Faço torradas e ovos mexidos. Arrumo a mesa - só para mim - e tomo o café na companhia do silêncio.

Depois da nossa conversa de ontem, Amber foi para a casa do "investimento" dela. Hoje é domingo. Provavelmente só volta à noite... ou talvez nem volte.

Esse "investimento" está durando mais do que os outros. Mas, se tratando de Amber White, tudo pode mudar em questão de minutos.

A melodia de Per Amore, de Andrea Bocelli, ecoa pelo apartamento vazio.

- Quem é que liga às oito e trinta e cinco da manhã de um domingo? - resmungo, irritada.

- Alô? - atendo com a voz arrastada.

- Alô, Claire? - uma voz masculina soa do outro lado.

- E quem mais seria? - respondo sem disfarçar o mau humor.

- Nossa! Que meiga você está hoje,

Clarissa. - Ele ri. - Está naqueles dias?

Reviro os olhos, mas sorrio de leve. Ele sempre dizia isso quando eu estava mal-humorada.

Como se tivesse levado um choque, encaro o calendário na parede.

É... realmente está perto.

- Não, não estou. - Tento suavizar o tom. - Só não tive uma boa semana.

- Ainda não conseguiu emprego?

Suspiro.

- Escuta, Claire, não quero me intrometer, mas talvez você devesse considerar cargos menores... ou até outras áreas. Administração é uma área ampla, cheia de possibilidades. Você só precisa se permitir explorar.

Reviro os olhos. Aquilo de novo... em menos de vinte e quatro horas.

- É, eu sei. - Minha voz sai seca. - Vou enviar currículo para cargos menores.

Um nó aperta minha garganta. As palavras "cargos menores" soam como cacos de vidro na boca. Admitir isso é mais doloroso do que eu gostaria.

- Mas qual é o motivo da ligação? - tento mudar de assunto.

- Os esboços que te mandei. O que achou?

Ah, os esboços.

Sou leitora beta: leio textos antes de publicados, faço críticas e sugestões. Ele é escritor, mas usa um pseudônimo feminino ridículo. Para minha surpresa, vende bem os livros digitais.

- Bem... você tá começando na fantasia, mas não precisa exagerar tanto nos devaneios. - Seguro uma risada. - Ainda estou tentando imaginar um leão com barbatanas, quatro chifres e olhos de... abelha.

- Eu estava inspirado - ele se defende.

- Inspirado ou febril? - provoco, rindo.

- Vai se ferrar... - diz, mas posso sentir que está sorrindo.

- Escuta, a ideia é boa, mas precisa rever as criaturas místicas. Tem que ter equilíbrio. Eu imprimi os capítulos, fiz anotações e vou digitalizar para te mandar.

- Perfeito. - Ele suspira, rendido. - Ah, Claire...

- O quê?

- Você vai conseguir!

A frase me pega de surpresa. Simples, mas dita com tanta convicção que quase me faz acreditar também.

- Um beijo de esquimó - completa ele, rindo.

Fecho os olhos e sorrio, mesmo sabendo que ele não pode ver.

- Um beijo de esquimó - repito.

- Tchau, Clarissa.

- Tchau.

Desligo e fico olhando para a tela apagada do celular. Só ele consegue me arrancar um sorriso mesmo nos dias ruins.

🌹

O restante da manhã passa comigo no sofá, vasculhando sites de vagas e enviando currículos. Só percebo o tempo quando meu estômago se revira.

- Meu Deus! Já é meio-dia!

Esfrego o rosto, tentando afastar o cansaço.

Vou até a cozinha e abro a geladeira retrô vermelha. Lá está a travessa com o resto da lasanha de ontem.

- Bem... vai ser isso mesmo.

Coloco no micro-ondas e arrumo a mesa com cuidado, mesmo sendo só para mim. Coloco o prato no centro, dobro o guardanapo ao lado... e suspiro.

Encosto na cadeira e encaro a comida diante de mim.

O cheiro da lasanha toma o ar, mas não me desperta fome.

Passo o garfo distraidamente pela borda do prato, mexendo no molho endurecido.

- Mesa para um, por favor - murmuro, sentindo o peso da frase se espalhar pelo apartamento vazio.

Silêncio.

E ele parece mais pesado do que nunca.

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