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Senador

Um senador influente busca a presidência através de um casamento de fachada, evitando laços afetivos. Ele se une a uma jovem pressionada pela família e pela doença da irmã, sem saber que ela é peça de uma vingança contra ele. A paixão surge, mas o ódio domina quando ele descobre a suposta traição dela com seus inimigos. Contudo, ela esconde um herdeiro secreto que pode mudar o futuro. Conseguirá o amor superar mentiras e curar as feridas desse acordo?
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Capítulo 1

— Senador Walker? Uma palavrinha, por favor.

Passei pelos repórteres como um furacão, sendo seguido por

dois seguranças, que tentavam afastá-los a todo custo.

De outro lado, meu assessor, Kenneth Bridges, surgiu, depois

de saltar do carro correndo, como se precisasse me resgatar no

meio de um furacão.

Mas era mais ou menos isso.

— Senador? Por favor, gostaríamos de uma posição sua a

respeito da Sra. Walker.

O uso do meu sobrenome em referência à minha ex-esposa

me fez parar no meio do caminho e me girar na direção do repórter

com o cenho franzido, quase transtornado.

— Ela não é a Sra. Walker há mais de um ano — joguei com

muito pouca paciência, porque eles sabiam disso. O que queriam

era a minha reação. As câmeras apontadas na minha direção

estavam prontas para pegar qualquer deslize que pudesse me

comprometer.

Tiana, minha ex-esposa, escolhera a pior hora para anunciar

seu casamento exatamente com o homem com quem me traíra.

De fato, ela provavelmente tinha feito tudo de caso pensado.

Aquela mulher fora o maior erro da minha vida.

Pior de tudo: Kenneth me avisara. Ele sempre tinha razão,

mas na maior parte das vezes eu não o ouvia. Era teimoso,

costumava me sentir o dono da verdade, e caí em muitas

armadilhas por causa disso.

As melhores coisas que tinham acontecido comigo foram sob

orientações daquele cara. Minha promessa a partir do momento em

que tudo virou de cabeça para baixo foi que iria ouvi-lo. Fora ele que

me ajudara a me eleger e que iria, sem dúvidas, me levar à Casa

Branca.

— Seja mais polido. Lembre-se de quem você é — Ken

sussurrou no meu ouvido, fazendo sua voz funcionar como uma

corda que me puxava de volta à consciência.

Respirando fundo, sabendo que precisaria engolir sapo,

empertiguei-me e sorri, parando e acenando para os repórteres.

— Gostaria de dizer que estou muito feliz por Tiana. Não há

ressentimentos entre nós. — A política nos ensinava a arte de

mentir. Claro que havia mágoas, claro que eu não queria ver aquela

mulher nem pintada, mas para a imprensa, nosso término foi

pacífico, porque era a melhor forma de abafar o escândalo.

Na época, Tiana fora flagrada saindo de um evento ao qual

ela participou, como ativista, acompanhada de um ator de

Hollywood que se envolvia em todas essas causas. Sempre fora um

bálsamo para a minha imagem que minha esposa fosse tão

preocupada com meio ambiente e com as minorias, com trabalho

voluntário. Tínhamos muita fé que ela se tornaria uma peça crucial

para a minha candidatura à presidência, porque seria uma excelente

primeira-dama.

Modelo que largara a carreira para se dedicar às causas que

eu defendia – embora nunca tivesse sido um pedido meu –, linda,

um ícone fashion, além de uma pessoa que todos amavam.

Só que a minha paixão por ela me fez ficar cego para seus

problemas com bebidas e para o quanto isso também fora uma

imagem criada para seduzir seu público. Eles eram tão apaixonados

por ela, que chegaram a inventar mil fanfics em suas cabeças a

respeito da traição, mesmo que houvesse filmagens de Tiana com o

amante aos beijos, que saíram em diversos sites de fofocas, além

de outras fotos comprometedoras deles dois em outros lugares, até

mesmo em uma viagem que ela deveria ter feito sozinha, por causa

de um trabalho.

Eu me tornei literalmente o corno para a mídia, mas

surpreendentemente isso também veio ao meu favor. Minha

popularidade cresceu, principalmente pela forma como lidei com a

situação. Era meio absurdo que achassem cavalheiresco da minha

parte que eu não tivesse simplesmente partido para a agressão. Eu

jamais faria isso.

Se bem que talvez essa imagem fosse associada a mim por

causa do meu pai, que não era nem um pouco lisonjeiro com sua

esposa – minha madrasta, muitos anos mais jovem do que ele.

— O senhor está feliz por ela, mesmo depois de ter sido

traído? — uma jornalista mais ousada perguntou, e eu voltei minha

cabeça na direção dela como um chicote, erguendo uma

sobrancelha.

Eu poderia ter dado um milhão de respostas mal-educadas,

embora não fosse chegar tão longe levando em consideração que

se tratava de uma mulher. Ainda assim, eu ergui a cabeça, muito

sério, pronto para responder.

— Isso aconteceu há algum tempo. Estamos em paz um com

o outro.

Mentira novamente. Nunca mais tinha falado com Tiana, e

nem queria. Não a amava mais, e talvez nunca tivesse amado, mas

o que me doía era a deslealdade e o fato de ela ter deixado uma

mancha nos meus sentimentos. Não me sentia pronto para confiar

novamente e passei a ter pouquíssima tolerância para quem tentava

me enganar.

Tentei voltar a andar, mas outro jornalista se apressou e veio

correndo ao meu lado, apontando o microfone para a minha boca,

quase o batendo contra meus dentes.

— Não acha que foi um pouco de falta de consideração ela

ter anunciado esse casamento poucos dias depois do anúncio de

sua candidatura à presidência? Talvez ela queira os holofotes para

si mesma...

Eu sabia que o que ele estava dizendo era verdade. Tiana

não fazia nada que não fosse de caso pensado. Quando nosso

relacionamento terminou, ela perdeu muito do status que

conseguira, então fazia um enorme esforço para continuar na mídia.

— Cada um de nós trilhou um caminho. Repito que quero que

ela seja feliz, mas eu tenho mais coisas nas quais pensar. Agradeço

a todos pelas perguntas.

Essa era a minha deixa. Os seguranças se colocaram

novamente ao meu lado, assim como Ken, que foi tentando acalmar

os ânimos.

Eu já tinha falado até de mais, sido o máximo simpático

possível e sorri mais do que poderia aguentar.

Aceleramos o passo e subimos as escadas que levavam ao

prédio do meu gabinete, em Nova Iorque, estado para o qual eu

tinha sido eleito senador. Normalmente eu passava bastante tempo

em Washington, trabalhando no Congresso, especialmente depois

que me divorciei, mas aquele assunto que iria tratar na reunião

daquele dia requeria total descrição.

— Rick, está tudo bem? — Kenneth perguntou, enquanto

parávamos diante dos elevadores, esperando-os.

— Por que não estaria? Por que não só o fato de eu ser

corno foi divulgado para todo o país, mas também porque estou

prestes a ter que escolher uma noiva que nem conheço?

— Não fale isso em voz alta até estarmos em uma sala,

fechados — Kenneth afirmou, novamente aos sussurros, olhando de

um lado para o outro, como se estivéssemos fugindo da polícia.

Fiquei quieto e só respirei fundo, pensando na merda em que

estava me metendo.

Quando me candidatei a senador, eu sabia que estar casado

imporia um respeito que jamais conseguiria sendo solteiro. Mas

naquela época foi fácil, porque eu estava namorando e

completamente apaixonado. O pedido de casamento foi simples, e a

cerimônia aconteceu alguns meses antes das eleições.

O divórcio veio exatamente um ano depois, com o anúncio da

traição.

Aquela facada nas costas, com a notícia do casamento,

surgira dias antes, pouco após o anúncio de que eu começaria

minha campanha para a presidência.

Não que eu tivesse qualquer esperança de que me

deixassem escapar ileso, mas a relembrança de um casamento

resgatara a questão de eu estar novamente solteiro. Para um

presidente, isso era quase inconcebível. Eu poderia concorrer, mas

nunca chegaria lá.

Os eleitores eram conservadores a este ponto, por mais que

eu fizesse parte de um partido – o Union Party – que tinha ideais

modernas.

Entramos na sala, na companhia de uma assessora de

imprensa que tinha assinado um contrato de confidencialidade, e

trancamos a porta, deixando um segurança do lado de fora.

Ninguém poderia sequer se aproximar sem autorização.

Eu e a assessora de imprensa, que se chamava Daisy, nos

sentamos, e Ken jogou uma pasta à minha frente, porque

aparentemente não tínhamos tempo a perder.

— O que é isso? — perguntei, erguendo os olhos para ele,

com o cenho franzido.

— Abra a pasta e verá.

Fiz o que ele pediu, mas tive um pouco de dificuldade para

entender. Eram fotos e fichas de mulheres, como se eu fosse o dono

de uma agência, pronto para escolher uma modelo para estrelar

uma campanha de publicidade.

— Isso não pode ser o que penso que seja... — cuspi as

palavras. — Não vai querer que eu escolha minha futura esposa

assim, vai?

Kenneth não respondeu nada, o que me obrigou a dar uma

risada de escárnio e fechar a pasta com raiva.

— Isso é ridículo! — exclamei, me sentindo amargo.

— Fazemos muitas coisas ridículas para chegar aonde

queremos chegar. Rick. O que você teve que dizer lá fora também

foi. Nossa vontade era xingar aquela traidora e não desejar

felicidades em um casamento que está fadado ao fracasso.

— Eu entendo, e já acho que essa história de casamento por

conveniência é um absurdo, mas um arquivo com fotos das

mulheres? Como se fosse só uma questão de aparência...

Tiana era uma mulher lindíssima. O tipo perfeito de modelo,

quase uma Barbie, mas isso não queria dizer nada.

— Nenhuma delas foi escolhida só pela aparência, mas você

há de convir que uma mulher bonita chama atenção. Pessoas

gostam de coisas belas! — Kenneth sempre defendia suas opiniões

com paixão. — Não coloquei apenas a foto delas. É quase um

currículo, com atribuições, histórico, personalidade.

— Vou me casar, Ken. Não jogar RPG.

Daisy chegou a rir. Ela estava calada desde o início, e eu

ainda não sabia se podia confiar cem por cento em sua discrição,

mas Kenneth a tinha em alta conta.

— Não importa a forma como elas estão sendo

apresentadas, Rick. Infelizmente vai ser um casamento às cegas.

Temos muito pouco tempo e uma história para contar. Temos que

conversar com as moças ainda e convencê-las. Por isso precisamos

que seja tudo feito em um piscar de olhos, inclusive a cerimônia.

Você vai viajar semana que vem, não temos muito tempo.

Tínhamos combinado que assim que encontrássemos a

candidata ideal, o casamento seria feito logo em seguida, porque se

ela desistisse, não poderíamos arriscar contar todo o plano para

mais gente. Além disso, havia muito dinheiro em jogo e todo um

público para convencer de que se tratava de uma história de amor

inevitável, algo que só acontecia nos livros.

Kenneth e Daisy pareciam ter tudo sob controle, só dependia

de mim.

E eu queria chegar à Casa Branca. Queria a qualquer custo o

que meu pai um dia tivera. O fato de eu ser filho de um expresidente contava e muito, mas não era suficiente.

Sabendo disso, bufei e abri a pasta, começando a folheá-la

para escolher minha futura esposa.

Se não era a coisa mais patética que já tinha feito na minha

vida, eu não saberia qual poderia ser.

O problema era que a política, para mim, era quase uma

imposição. Era isso ou nada, porque cresci no meio dela e a respirei

desde que me entendia por gente. Só que a cada jogo que eu

entrava, eu queria sair como vencedor. Se fui arrastado àquele

mundo, eu não iria ser só mais um.

Se precisasse me casar para ser mais respeitado e ter mais

chances de chegar ao topo, era isso que eu faria. Não importava

que não soubesse o nome da noiva, que não conhecesse

absolutamente nada sobre ela.

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