
Sem Raiva, Sem Pena: Vazio
Capítulo 3
No dia seguinte, Clara acordou chorando.
Ela se sentou na cama, com os olhinhos inchados, e chamou por um nome que partia meu coração.
"Papai."
Eu me aproximei e a abracei com força.
O cheiro do seu cabelo de criança, a forma como seu corpinho se encaixava no meu, era a única coisa que me mantinha de pé.
"Ele não está aqui, meu amor. O papai está viajando."
Ela soluçou no meu ombro.
"Ele não gosta de mim, mamãe?"
A pergunta, tão simples e direta, me atingiu com a força de um soco.
Eu a segurei mais forte, tentando esconder minhas próprias lágrimas.
"Claro que ele gosta, filha. Ele só... está muito ocupado."
Era uma mentira. Uma mentira que eu contava para ela e para mim mesma.
Naquele momento, uma onda de culpa e arrependimento me invadiu.
Eu era a culpada por trazer Clara a este mundo, um mundo onde seu próprio pai a rejeitava.
A culpa era minha por ter sido tão cega, tão ingênua.
Minha mente voltou no tempo, para a noite que selou meu destino.
Eu estava no meu quarto, lendo, quando meu pai entrou.
Ele era um homem do campo, de poucas palavras, mas com um amor por mim que beirava a superproteção.
Ele se sentou na beirada da minha cama.
"Sofia, eu sei que você gosta do rapaz dos Costa."
Eu corei, sem saber o que dizer.
Minha paixão por Pedro era um segredo que eu guardava a sete chaves.
"Pai, eu..."
Ele me interrompeu, sua voz firme.
"Eu conversei com o pai dele. Eles têm interesse em unir as fazendas. E eu quero ver você feliz."
Ele então me contou seu plano.
Um plano absurdo, saído de um romance antigo.
Eles iriam criar uma situação, um mal-entendido, que forçaria Pedro a se casar comigo para salvar as aparências.
Eu protestei, disse que era loucura, que não se podia forçar alguém a amar.
Mas no fundo, uma parte tola e sonhadora de mim pensou: e se desse certo?
E se, com o tempo, ele aprendesse a me amar?
A lembrança daquela noite me enojava.
Lembrei-me do casamento.
Da cerimônia rápida e impessoal.
Lembrei-me da nossa primeira noite juntos, no quarto principal da fazenda.
Eu estava nervosa, usando a melhor camisola que encontrei.
Ele entrou no quarto, tirou o paletó e o jogou sobre uma cadeira.
Nem olhou para mim.
"Você e seu pai conseguiram o que queriam", ele disse, a voz cheia de desprezo. "Parabéns. Agora cada um cuida da sua vida."
Ele se virou e foi para o quarto de hóspedes.
Dormimos em quartos separados desde o primeiro dia.
Uma semana depois, ele anunciou sua primeira viagem para a "Europa, a negócios".
Eu fiquei na fazenda. Grávida.
Descobri a gravidez duas semanas depois que ele partiu.
Liguei para contar, excitada, pensando que a notícia de um filho mudaria tudo.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha.
Então, a voz dele, fria como gelo.
"Faça o que quiser. O filho é seu."
E desligou.
Mesmo assim, eu continuei esperando.
Durante os nove meses de gravidez, durante o parto doloroso, durante as noites em claro com um bebê nos braços, uma pequena chama de esperança teimava em não se apagar.
Eu mandava fotos de Clara.
Ele nunca respondia.
Eu contava sobre os primeiros passos dela, as primeiras palavras.
Ele nunca retornava as ligações.
Agora, olhando para o rosto triste da minha filha, eu finalmente entendi.
A esperança não era uma chama.
Era um veneno.
E eu tinha me envenenado por três longos anos.
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