
Segredos.
Capítulo 2
O dia seguinte começou com uma sensação inquietante no peito.
Enquanto caminhava em direção ao hospital, minha mente continuava presa na imagem daquela jovem ferida e no homem misterioso que a trouxe. Havia algo estranho em tudo aquilo, algo que não fazia sentido, e a falta de respostas estava me deixando louca.
Assim que cheguei, procurei uma das minhas colegas na área de admissões. Sandra, uma das enfermeiras mais gentis do turno da noite, estava organizando alguns prontuários.
"Oi, Sandra. Você tem um minuto?" perguntei, tentando soar casual.
"Claro, Mary. O que você precisa?" respondeu, sem levantar os olhos.
"Ontem à noite atendemos uma garota. Ela era jovem, tinha ferimentos no rosto e nos braços. Chegou acompanhada por um homem alto, muito sério. Você lembra de algo assim?"
Sandra franziu o cenho, deixando os papéis de lado. "Ontem à noite? Não me lembro de ninguém com essas características. A noite foi bem tranquila, não foi?"
"Sim, mas... eu vi. Tenho certeza. Ele exigiu que a atendessem imediatamente, e depois desapareceu. Tem certeza de que não há nada nos registros?"
"Mary, acredite em mim. Revisei os registros esta manhã, e não há nada. Talvez tenha sido em outro hospital."
Não podia ser. Algo estava errado. Decidi procurar por conta própria, percorrendo os corredores e perguntando a outros colegas. Ninguém sabia de nada. Era como se aquela garota e aquele homem nunca tivessem existido.
Quando chegou a hora do jantar, sentei-me no refeitório com Luís, um colega da área de pediatria. Luís era um bom sujeito, sempre gentil e disposto a ajudar. Eu havia notado que ele me olhava com certa admiração, mas nunca dei muita importância.
"Você parece distraída," comentou, sentando-se à minha frente com sua bandeja.
"Um pouco," admiti, mexendo no purê de batatas no meu prato.
"O que aconteceu? Está tudo bem no seu turno?"
Hesitei por um momento, mas decidi contar. "Ontem à noite chegou uma garota no hospital, ela estava muito machucada. Um homem a trouxe... um homem bastante imponente. Mas hoje ninguém parece saber nada sobre eles. Não há registros, nem testemunhas, nada. É como se nunca tivessem estado aqui."
Luís parou de comer, seu rosto ficou tenso imediatamente. Ele tentou disfarçar, mas sua reação foi evidente. "E daí? Muitas pessoas vêm aqui, Mary. Deve ser algum mal-entendido."
"Não, Luís. Eu os vi. Algo estranho aconteceu. Você sabe de alguma coisa sobre isso?"
Ele desviou o olhar, fixando os olhos na bandeja. "Você deveria esquecer isso, Mary."
"Esquecer? Por quê?"
Luís suspirou, desconfortável. "Porque há coisas sobre as quais é melhor não falar. Acredite, você não quer ter problemas. Pelo seu bem, deixe esse assunto de lado e foque nos seus estudos."
Isso só aumentou minha curiosidade. "Luís, por favor, me diga o que você sabe. Quem era aquele homem? E o que aconteceu com a garota?"
"Eu não posso," respondeu rapidamente, quase em um sussurro. "E você também não deveria perguntar. Mary, me escute. Isso não é algo com o qual você deva se envolver. Você não faz ideia de quem ele é ou do que ele é capaz."
"Do que ele é capaz? Ele é perigoso?"
Luís me olhou diretamente nos olhos e, pela primeira vez desde que o conhecia, parecia assustado. "Mais do que você imagina. Por favor, me ouça. Esqueça o que viu. Não pergunte mais. Finja que nunca aconteceu."
Fiquei em silêncio, processando suas palavras. Queria insistir, mas a seriedade na sua voz me fez hesitar. Havia algo obscuro por trás de tudo isso, algo que claramente aterrorizava Luís.
"Está bem," disse finalmente, embora não tivesse nenhuma intenção de deixar isso para lá.
Ele assentiu, aliviado, e mudou de assunto rapidamente, falando sobre um caso que tinha atendido naquela manhã. Eu fingi ouvi-lo, mas minha mente estava em outro lugar. Por mais que tentassem me avisar, eu sabia que não podia ignorar o que tinha visto.
Havia algo maior por trás daquele homem e daquela garota. E, embora me aterrorizasse descobrir, minha curiosidade era mais forte. Eu sabia que isso estava apenas começando.
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