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Capa do romance SANGUE ETERNO

SANGUE ETERNO

Ayla Morgan possui uma mente impenetrável que intriga seres sobrenaturais. Em Ravenmoor, ela se vê dividida entre Kai Blackwood, seu protetor de longa data, e o enigmático vampiro Dorian Valecliff. Enquanto segredos sobre seu passado emergem, uma trégua frágil entre lobisomens e vampiros é ameaçada. Forças sombrias cobiçam o poder oculto em suas veias, revelando que sua origem é uma maldição perigosa. Agora, Ayla deve enfrentar uma ameaça mortal que reside em seu próprio sangue.
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Capítulo 2

Ravenmoor tinha esse jeito de te engolir.

Não de repente, não com alardes. Mas devagar, como névoa entrando por baixo da porta enquanto você dormia. Você acordava e simplesmente estava envolta nela, e nem sabia mais quando tinha começado.

Eu vivia aqui desde que tinha memória. Antes disso, também. Mas os "antes" da minha vida começavam com um incêndio, uma cama de hospital e o rosto da Sra. Hargrove, que me acolheu sem muita cerimônia e menos ainda afeto. Sete anos de idade, sem família, sem explicações. Só um arquivo no cartório com o nome Ayla Morgan e um endereço que não existia mais.

Com o tempo aprendi que Ravenmoor era o tipo de cidade onde as perguntas custavam caro. Então eu parei de fazer.

— Você está encarando o nada de novo — disse Kai, jogando o mochilão no banco ao meu lado e deslizando para o assento em frente com a familiaridade de quem fazia aquilo há anos. Porque fazia. — Aconteceu alguma coisa ou você está só sendo você mesma?

— Sendo eu mesma — respondi, empurrando o copo de suco na direção dele. — Pode tomar, não estou com fome.

Ele aceitou sem protestar. Kai Blackwood era assim: nunca desperdiçava comida, nunca perdia uma oportunidade de te chamar de idiota com carinho, e nunca — em dezoito anos de amizade — tinha me deixado sozinha quando importava. Tinha cabelos escuros sempre levemente bagunçados, ombros largos demais para um cara de dezessete anos, e um sorriso que chegava antes de qualquer palavra.

Era meu melhor amigo. Meu único amigo de verdade, se eu fosse honesta comigo mesma.

— Os Hargrove estão te enchendo o saco de novo? — ele perguntou, com a boca já no copo.

— Os Hargrove vivem me enchendo o saco. Isso é o estado natural das coisas.

— Ayla.

— Kai.

Ele me olhou por um segundo a mais do que o necessário. Aquela olhada dele que eu nunca sabia bem como interpretar — séria demais para ser só amizade, leve demais pra ser outra coisa. No final, ele desistiu, como geralmente fazia.

— Tudo bem — cedeu, pousando o copo na mesa. — Mas se quiser dormir no sofá lá de casa essa semana, você sabe que pode.

A família Blackwood era um capítulo à parte. Numerosa, calorosa e barulhenta de um jeito que eu nunca tive em lugar nenhum. O pai de Kai, Reid, era o tipo de homem que preenchia qualquer cômodo onde entrava, não pela altura nem pelo volume, mas por alguma presença intangível que fazia as pessoas recuarem um passo sem perceber. Os irmãos de Kai eram parecidos. Todos eles eram parecidos.

Eu sempre achei curioso. Nunca perguntei por quê.

Saímos da lanchonete por volta das cinco. O sol baixava sobre os telhados de pedra de Ravenmoor com aquela luz dourada e preguiçosa que tornava tudo mais bonito do que realmente era, como maquiagem sobre um rosto cansado. As ruas do centro eram estreitas, calçadas irregulares, e as árvores que cresciam nas calçadas tinham raízes tão antigas que levantavam o asfalto em ondas. Ninguém consertava. As raízes faziam parte da paisagem, e a cidade parecia ter aceito isso há muito tempo.

Foi quando Kai parou.

Fiz dois passos além dele antes de perceber, e me virei para ver o que tinha chamado a atenção. Ele estava com os olhos fixos na rua paralela, a mandíbula levemente tensa, o corpo imóvel da forma que ficava quando estava em alerta. Eu reconhecia esse estado nele desde criança, mesmo sem nunca ter sabido nomear.

— O quê? — perguntei.

— Nada — ele disse. Mas não era nada.

Segui a direção do olhar dele. Uma caminhonete preta e alta estava estacionada na frente da mansão Vael, aquela construção grande e escura que ficava vazia há pelo menos três anos no limite da rua mais antiga da cidade. Homens descarregavam caixas em silêncio enquanto a luz do fim de tarde batia nas janelas da casa como uma espécie de advertência.

— Alguém comprou a mansão? — perguntei.

— Aparentemente.

Havia algo no tom dele que me fez olhar de volta para o rosto de Kai. Não era surpresa. Era reconhecimento.

— Você sabe quem é?

Ele virou para mim e esboçou um sorriso que não chegou aos olhos.

— Não faço ideia — disse. — Vamos embora, está ficando frio.

Era mentira. Eu sabia que era mentira.

Segui assim mesmo.

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