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Capa do romance Sangue do Meu Sangue? Não, Meu Coração

Sangue do Meu Sangue? Não, Meu Coração

Após receber o diagnóstico de infertilidade secundária no aniversário da morte de seu filho, a protagonista confronta o desprezo da sogra e a indiferença do marido, Pedro. No passado, ele priorizou um primo em vez da esposa grávida que sangrava, resultando na perda do bebê. Diante da falta de apoio e da crueldade familiar, ela percebe que nunca foi prioridade. Determinada a retomar sua vida, ela entrega a aliança e exige o divórcio para lutar por si mesma.
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Capítulo 2

Quando saí do hospital, o sol da tarde caía sobre a cidade, um contraste gritante com o frio que eu sentia por dentro. O atestado médico na minha mão confirmava o que eu já sabia: infertilidade secundária, uma consequência direta daquele dia.

O meu telemóvel vibrou. Era o meu marido, Pedro.

"Eva, onde estás? O almoço está quase pronto."

A voz dele soava normal, como se nada tivesse acontecido. Como se hoje não fosse o aniversário da morte do nosso filho.

Olhei para o trânsito, para as pessoas a passar. Para eles, era apenas mais uma quinta-feira. Para mim, era o dia em que o meu mundo se partiu.

"Estou a caminho," respondi, com a voz mais firme que consegui.

Em casa, o cheiro de comida pairava no ar. A minha sogra, Sofia, estava sentada à mesa, a dar comida ao seu gato persa, Mimo. Ela nem sequer olhou para mim quando entrei.

"Chegaste tarde," disse ela, com o seu tom habitual de desaprovação. "O Mimo já está a ficar impaciente."

Pedro saiu da cozinha, sorrindo. "Querida, vem sentar-te. Fiz o teu prato favorito."

Sentei-me em silêncio. Na parede em frente, havia uma fotografia do nosso casamento. Nós parecíamos tão felizes, tão cheios de esperança. Mal sabíamos o que o futuro nos reservava.

"Comi um pouco no caminho," menti. "Não estou com muita fome."

Sofia finalmente virou-se para mim, com os olhos frios. "Não admira que estejas tão magra. Uma mulher que não consegue sequer manter um filho, provavelmente também não consegue manter o apetite."

O garfo de Pedro parou a meio caminho da sua boca. Ele olhou para a mãe, depois para mim, com uma expressão de desconforto.

"Mãe, por favor. Hoje não."

"Hoje não? E porquê não hoje?" ela retorquiu. "É o dia perfeito para lembrar que esta casa poderia estar cheia de risos de criança, se a tua mulher não fosse tão descuidada."

Eu agarrei a borda da mesa. Descuidada. Era essa a palavra que ela usava. Como se eu tivesse escolhido perder o nosso bebé.

"Sofia," disse eu, a minha voz a tremer ligeiramente, "você não estava lá. Você não sabe o que aconteceu."

"Ah, não sei?" ela riu-se, um som feio. "Sei que ligaste ao meu filho a pedir ajuda, e ele estava ocupado a salvar a vida do primo dele. Família vem primeiro, Eva. Devias saber isso."

Família. O primo dele, Tiago, que ficou preso num elevador avariado do outro lado da cidade. O meu marido escolheu ir ajudá-lo em vez de vir ter comigo, enquanto eu sangrava, sozinha, à espera de uma ambulância que demorou demasiado a chegar.

Eu estava grávida de sete meses. O nosso filho, que íamos chamar de Leo.

"Ele não era família, Sofia?" perguntei, a minha voz agora um sussurro. "O nosso filho não era família?"

Pedro pousou o garfo com força. "Eva, já chega! A minha mãe está apenas a dizer que foi uma situação terrível para todos. O Tiago podia ter morrido!"

"E o Leo?" gritei, finalmente a perder o controlo. "O Leo morreu, Pedro! Ele morreu porque tu não estavas lá!"

O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Sofia acariciou o seu gato, com um pequeno sorriso satisfeito. Pedro olhou para mim, a sua expressão uma mistura de raiva e culpa.

"Não é justo culpares-me," disse ele, baixinho. "Eu fiz uma escolha difícil."

"Não," respondi, a levantar-me. "Tu fizeste uma escolha fácil. Escolheste-os a eles em vez de nós. E agora, eu vou fazer a minha."

Fui para o quarto e comecei a fazer as malas. Pedro seguiu-me, a sua voz agora suplicante.

"Eva, o que estás a fazer? Não sejas assim. Nós podemos superar isto. Juntos."

"Não há 'nós', Pedro. Tu deixaste isso bem claro há um ano."

Tirei a aliança de casamento do meu dedo. Estava fria. Coloquei-a na mesa de cabeceira.

"Quero o divórcio."

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