
Renascimento: Vingança e Recomeço
Capítulo 3
No dia seguinte, Laura me encurralou perto dos armários.
Pedro não estava com ela desta vez. Era melhor assim.
"Você se acha muito esperta, não é, Sofia?"
Sua voz era baixa e ameaçadora.
Eu continuei a organizar meus livros no armário, sem lhe dar atenção.
"Não me ignore!" ela agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele.
Eu me virei lentamente para encará-la. Seus olhos estavam cheios de ódio.
"Sabe, eu estava pensando", ela disse, com um sorriso venenoso. "A competição para o intercâmbio vai ser acirrada este ano. Tantas provas, tantas entrevistas... seria uma pena se algo acontecesse na noite anterior à entrevista final. Alguém poderia ficar doente, por exemplo."
Meu coração parou por um segundo.
Minhas unhas se cravaram na palma da minha mão.
Ela estava falando sobre isso. Sobre o que ela fez na minha vida passada.
A lembrança me atingiu como um soco no estômago.
A noite anterior à entrevista final para o intercâmbio. Eu estava nervosa, mas confiante. Eu tinha as melhores notas, os melhores projetos. A vaga era praticamente minha.
Laura, minha "melhor amiga", apareceu no meu quarto.
"Você parece tensa", ela disse, com um sorriso solidário. "Eu fiz seu suco favorito, com umas ervas calmantes especiais que minha avó me ensinou. Vai te ajudar a relaxar e a dormir bem."
Eu, ingênua e grata, bebi tudo.
Acordei no dia seguinte, horas depois da entrevista ter terminado, com a cabeça pesada e o corpo mole. Eu não conseguia pensar direito. Perdi a entrevista. Perdi a vaga.
Laura, que era a segunda na lista, ficou com o lugar.
Mais tarde, descobri que as "ervas calmantes" eram, na verdade, um forte sonífero que ela havia roubado do armário de remédios de sua mãe.
E Pedro? Ele sabia de tudo. Ele a ajudou. Ele me distraiu enquanto ela preparava a bebida. Tudo para que a nova namorada dele pudesse conseguir o que queria.
O desprezo que senti naquele momento, na minha vida passada, voltou com força total. Mas agora, misturado a ele, havia uma raiva fria e cortante.
"O que foi, Sofia? O gato comeu sua língua?" Laura zombou, vendo meu silêncio.
Eu olhei para ela. A garota que eu um dia amei como uma irmã. A garota que destruiu minha vida por pura inveja e egoísmo.
E percebi uma coisa.
Ela era estúpida.
Ela estava tão consumida por sua própria maldade que não conseguia ver o quadro geral. Na vida passada, ela conseguiu a vaga no intercâmbio, mas o que ela fez com isso? Nada. Ela abandonou os estudos na primeira oportunidade, gastou todo o dinheiro que seus pais lhe deram e voltou para casa de mãos abanando, acabando como uma socialite falida, dependente de um homem que ela mesma ajudou a arruinar.
Ela tinha o conhecimento do futuro, mas estava usando-o para repetir os mesmos erros mesquinhos.
Eu, por outro lado, não cometeria esse erro.
"Você tem razão, Laura", eu disse, minha voz calma. "Seria uma pena. Mas não se preocupe comigo. Eu sei me cuidar."
Eu me soltei do aperto dela e fui embora, deixando-a parada no corredor, com a expressão confusa.
Ela não entendeu. Ela achou que sua ameaça tinha funcionado.
Mal sabia ela que apenas havia jogado mais lenha na minha fogueira.
Enquanto eu me dedicava aos livros, Pedro e Laura se dedicavam a outra coisa: a autodestruição.
Eles começaram a faltar às aulas da tarde. Depois, às aulas da manhã. Logo, mal apareciam na escola.
Ouvia-se pelos corredores que eles passavam os dias no shopping, no cinema, em restaurantes caros. Pedro, que na vida passada sempre se gabou de ser um gênio que não precisava estudar, agora parecia determinado a provar isso, abandonando completamente os livros.
Laura o incentivava.
"Pra que estudar tanto, amor? Você é um gênio! A gente tem que aproveitar a vida!"
Eles compravam tudo o que viam pela frente. Tênis de edição limitada para ele, bolsas de grife para ela, o último modelo de celular para ambos.
O dinheiro de Pedro, que vinha da mesada generosa de seus pais, começou a secar rapidamente. Ele começou a fazer bicos, trabalhando como entregador à noite, tudo para sustentar o estilo de vida luxuoso que Laura exigia.
A arrogância dele era inacreditável. Ele realmente acreditava que poderia farrear o ano todo e ainda assim conseguir o primeiro lugar no vestibular, como havia feito na vida passada.
Ele não entendia que seu sucesso anterior não foi apenas por seu "gênio", mas também por horas de estudo que ele, convenientemente, esquecia de mencionar. E, crucialmente, ele tinha a mim, que o ajudava a organizar seus estudos e a revisar as matérias mais difíceis.
Desta vez, ele estava por conta própria. E estava afundando.
Não demorou muito para que o comportamento deles chamasse a atenção da escola.
Um dia, o nome de Pedro e Laura foi lido no sistema de som durante o intervalo.
"Os alunos Pedro Almeida e Laura Bastos, favor comparecer à diretoria imediatamente."
Mais tarde, um comunicado foi afixado no mural de avisos. Eles haviam recebido uma advertência formal por excesso de faltas e por violar o código de conduta da escola ao serem pegos se beijando em uma área restrita.
Eles se tornaram uma piada.
Mas isso não os impediu. Pelo contrário. Parecia que eles gostavam da notoriedade.
Começaram a andar com um grupo de alunos mais velhos, conhecidos por arrumar problemas. Fumar atrás do ginásio, pichar os muros da escola, desafiar os professores.
Era um caminho rápido para o fundo do poço.
E eu assistia a tudo, de longe, com uma sensação de desapego.
Uma noite, eu estava saindo da biblioteca, já tarde. A escola estava quase vazia.
No corredor mal iluminado, encontrei o grupo.
Pedro, Laura e seus novos amigos estavam bloqueando a passagem na escada. O cheiro de cigarro era forte.
Laura me viu e sorriu com desdém.
"Olha só quem está aqui. A futura ganhadora do Prêmio Nobel."
Seus amigos riram.
Pedro me olhou, um misto de irritação e algo mais, algo que eu não consegui decifrar. Talvez um pingo de vergonha.
"Sai da frente, Laura", eu disse, sem parar de andar.
"E se eu não sair?" ela disse, dando um passo à frente, bloqueando meu caminho. Seu corpo balançou um pouco. Ela parecia estar bêbada.
Eu parei a um passo dela, meus olhos fixos nos dela.
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