
Renascida, Mas Não Para Você
Capítulo 3
O som da multidão gritando "Aceita! Aceita!" era como um ruído branco nos meus ouvidos. Vi Camila, chocada e radiante, assentir com a cabeça enquanto Pedro colocava um anel em seu dedo. Não um anel qualquer, mas um anel de grife que eu sabia que custava uma fortuna. Uma fortuna que ele, um simples estudante universitário, não deveria ter.
Meu coração se partiu em mil pedaços. A humilhação pública, o olhar de pena das pessoas ao meu redor, tudo era demais. Eu me virei e corri, sem rumo, apenas querendo fugir daquela cena.
Cheguei em casa ofegante e me tranquei no quarto. Minha mãe bateu na porta, sua voz cheia de preocupação.
"Sofia, filha, o que aconteceu? Abre a porta."
Eu não conseguia responder. As lágrimas simplesmente escorriam pelo meu rosto em silêncio. Como eu poderia explicar? Como eu poderia dizer que o homem que prometeu me amar para sempre em outra vida tinha acabado de me humilhar na frente de todos?
Sentei-me no chão frio, e as memórias da vida passada inundaram minha mente. Comecei a conectar os pontos, a rever cada momento que eu achava que era nosso. O primeiro encontro dele na universidade, que ele disse ter sido um sucesso? Foi no mesmo dia em que Camila visitou o campus. A festa para comemorar sua primeira bolsa de estudos? Camila estava lá, no centro das atenções. O presente caro que ele me deu uma vez, dizendo que era um bônus do estágio? Lembrei-me de ouvir Camila comentando com as amigas sobre um presente idêntico que ela havia ganhado.
Tudo se encaixou de uma forma terrível e dolorosa. Todas as grandes conquistas dele, todos os momentos que ele compartilhou comigo com um ar de mistério, estavam, de alguma forma, ligados a Camila. Ele não estava tentando construir uma vida melhor para nós. Ele estava construindo uma vida melhor para ela.
A verdade me atingiu como um soco no estômago. Pedro não renasceu para me compensar. Ele renasceu para "corrigir" o que ele considerava o maior erro da sua vida passada: não ter ficado com a garota rica e popular. Eu, a esposa dedicada, a companheira leal, tinha sido apenas um degrau, uma segunda opção conveniente que ele usou até conseguir o que realmente queria.
Chorei por horas, até não ter mais lágrimas. Chorei pela minha ingenuidade, pelo meu amor desperdiçado, pelas duas vidas que dediquei a um homem que nunca me amou. Quando finalmente parei, olhei meu reflexo no espelho. Eu estava um caco, mas por baixo da dor, uma nova determinação começou a surgir. Eu não ia deixar que ele me destruísse de novo. Eu me levantei, lavei o rosto e abri a porta. Minha mãe me abraçou forte, sem fazer perguntas. Aquele abraço era tudo que eu precisava.
No dia seguinte, voltei ao trabalho na pequena confecção do bairro. A fofoca sobre o novo casal era o único assunto.
"Você viu o anel que ele deu pra Camila? Dizem que custou mais de cinco mil reais!"
"Ele a levou para jantar no restaurante mais caro da cidade. Pagou tudo."
Cada palavra era uma facada. Lembrei-me de como ele era mesquinho comigo. Na vida passada, quando eu pedia para irmos a um restaurante um pouco melhor no nosso aniversário, ele sempre dizia que precisávamos economizar, que era um desperdício de dinheiro. Ele me dava presentes baratos, comprados em promoção, dizendo que o que importava era o sentimento.
Naquele momento, eu entendi. Não era que Pedro não soubesse ser romântico ou generoso. Ele só não queria ser comigo. Para Camila, ele movia o mundo. Para mim, ele não movia um dedo.
A dor deu lugar a uma clareza fria. A ilusão havia acabado.
Com o tempo, a fofoca diminuiu. Pedro e Camila eram o casal do momento, sempre vistos juntos, sempre sorrindo para as fotos. E eu? Eu comecei a focar em mim mesma.
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