
Renascida Das Cinzas da Traição
Capítulo 3
Sara POV:
Eu olhei para ele, meus olhos fixos nos dele. Não havia tremor em meu olhar, apenas uma calma artificial que eu havia cultivado nas últimas horas.
"Augusto," eu disse, minha voz suave, quase um sussurro. "Como você sabe, minha Força Interior está... comprometida. Eu não sou mais a mesma. Não seria justo com a coletividade que eu mantivesse meu registro ativo. Como uma mulher com a Força Interior enfraquecida, eu seria um fardo. Não quero que pensem que a linhagem Caldeira está se enfraquecendo por minha causa."
Ele relaxou visivelmente. Sua expressão de confusão se transformou em uma de falsa preocupação. O ator em tempo integral.
"Meu amor, nunca pense assim. Você sempre será minha companheira. Ninguém na coletividade questionará sua posição. Você é digna de tudo."
Oh, Augusto, você não faz ideia do que eu sou digna.
Eu continuei a encará-lo. "Eu sei que você está ocupado com a cerimônia. E com a adoção. Não quero ser um problema. Eu sempre fui leal à nossa coletividade. E não farei nada para manchar seu nome. Eu seguirei as regras. Em silêncio."
Ele me puxou para um abraço apertado, quase sufocante. "É por isso que eu a amo, Sara. Você sempre pensa no bem da coletividade. Você é perfeita para a minha família. Você é tão... nobre."
Eu forcei um sorriso amargo, que ele, claro, não percebeu. Ele estava tão cego por sua própria arrogância.
"Augusto," eu disse, me afastando um pouco. "Talvez eu deva ir para um lugar mais calmo por um tempo. Para me recuperar. Longe de tudo isso. As feridas ainda estão abertas. E a perda da minha Força Interior… é mais difícil do que eu imaginei."
Seu corpo imediatamente tencionou. Ele me segurou com mais força.
"Não! De jeito nenhum," ele disse, sua voz tensa. "Você ainda não está recuperada. É perigoso para você sair sem mim. E sem a Força Interior dela, você é ainda mais vulnerável."
Eu dei um sorriso fraco e puxei o braço dele gentilmente. "Augusto, por favor. É só por alguns dias. Eu só preciso de paz. Pense em nossa futura criança. Não quero que ela nasça em um ambiente de tristeza. E sobre a adoção... você já tem um nome em mente?"
A menção da criança o acalmou. Seu rosto, antes tenso, suavizou.
"Sim. Sim, eu tenho," ele disse, um brilho de excitação em seus olhos. "O Dr. Guilherme me apresentou a um órfão da nossa linhagem. Um menino. Ele está em um orfanato aqui perto. Eu o visito regularmente. Ele é forte. É... um Caldeira. Gostaria de conhecê-lo?"
Conhecer Oliver, eu pensei. O filho que ele me roubou.
"Sim, Augusto," eu disse, minha voz carregada de uma falsa emoção. "Eu adoraria. Quero fazer parte da vida de nosso filho. De nosso futuro."
A caminho do orfanato, Augusto tirou um brinquedo do banco de trás. Um pequeno lobo de pelúcia.
"Comprei isso para você, meu amor," ele disse, me entregando. "É para te animar."
Eu peguei o brinquedo. A etiqueta revelava que era para crianças de 3 anos ou mais. O mesmo brinquedo que ele comprou para Oliver, sem dúvida.
Eu o coloquei no colo, fingindo uma tontura. "Obrigada, Augusto. Acho que ainda estou um pouco fraca."
Cinco anos de mentiras. Cinco anos de farsa. Isso acaba hoje.
Chegamos ao orfanato. Eu estava em uma cadeira de rodas, fingindo fraqueza, minhas cicatrizes em evidência.
Um menino pequeno correu em direção a Augusto.
"Papai!" ele gritou, se jogando nos braços de Augusto.
Augusto congelou. Seus olhos se arregalaram. Ele me olhou, pânico estampado em seu rosto.
"Oliver! Meu menino!" Augusto disse, forçando um sorriso. Ele me olhou e apressadamente emendou: "Ele chama todos os homens de 'papai' . É um hábito comum aqui no orfanato. Ele é tão carente de uma figura paterna."
Eu assenti, estendendo a mão e tocando o rosto do menino. Ele era a cópia de Augusto. Os mesmos olhos azuis intensos. O mesmo formato de nariz. Mas o sorriso... o sorriso era de Rebeca.
"Ele parece muito com você, Augusto," eu disse, forçando um tom de admiração. "Quão... encantador. Qual o nome dele?"
"Oliver," Augusto disse, sua voz um pouco mais relaxada. "É o órfão que eu sugeri. Um nome forte, não acha?"
Eu acariciei os cabelos de Oliver. Ele cheirava a Augusto. E a um perfume floral que eu conhecia muito bem. O perfume de Rebeca.
Minha Força Interior estava danificada, mas meus outros sentidos, não. Eu não era tão fácil de enganar.
De repente, Oliver começou a chorar. "Mãe! Eu quero a mamãe!"
Augusto empalideceu. O cheiro de seu medo era palpável. Ele olhou para mim, os olhos cheios de pânico.
"Ele... ele sente falta da cuidadora," Augusto gaguejou. "Ele a chama de mãe."
Eu sorri, um sorriso puro e inocente. "Ele é um menino adorável, Augusto. Ele tem a Força Interior de um Caldeira. É um belo nome."
Minha calma o tranquilizou. Ele pegou Oliver nos braços e o levou apressadamente para um escritório adjacente. Oliver se agarrava a ele, como um filhote a seu pai.
Eu me aproximei da porta, fingindo que ia pegar minha medicação. Pude ouvir vozes abafadas lá dentro.
O cheiro de Rebeca era inconfundível agora. Ela estava lá. Com eles.
As vozes ficaram mais claras. Eram os membros da coletividade. Os anciãos.
"Então, ele está fingindo que o filho dele é um órfão? E ainda por cima, Oliver está usando roupas de grife? Que absurdo!"
"Augusto sempre foi um mestre da manipulação. Isso é para legalizar o filho dele. Para que a outra possa assumir o lugar dela sem escândalo."
"E a pobre Sara? Ela não sabe de nada? Que patética! E ainda aceitou a infertilidade como um fardo."
"É por isso que ela é tão fraca. Ela nunca seria capaz de gerar um herdeiro forte para a coletividade. A outra… Rebeca, ela é mais adequada. Mais forte. Mais fértil."
Meu peito apertou. A dor rasgou minha alma. Eu mal conseguia respirar.
Eu me aproximei ainda mais da porta. As vozes de Augusto e Rebeca eram claras agora.
"Você está bem, meu amor?" Augusto perguntou, sua voz suave.
"Estou bem, Augusto," Rebeca respondeu, sua voz carregada de um escárnio mal disfarçado. "Apenas cansada de toda essa farsa. De ter que fingir que sou sua 'amiga'. E de ter que esconder nosso filho. Quando poderemos ser uma família de verdade?"
Augusto riu amargamente. "Em breve, meu amor. Em breve. Assim que Oliver for oficialmente um Caldeira, não teremos mais nada a temer. Eu cuidarei de vocês dois. Sempre."
Ouvi o som de uma caixa sendo aberta.
"Eu te trouxe um presente, meu amor," Augusto disse. "Um creme especial. Para suas cicatrizes. É o melhor que existe. Vai apagar todas as marcas."
Rebeca soltou um suspiro de admiração. "Augusto! É lindo! Mas... e Sara? Se ela descobrir? Ela vai ficar furiosa."
"Sara não precisa de creme," Augusto disse, sua voz gélida. "As cicatrizes dela não importam. Para a coletividade, ela já é um problema resolvido."
Nesse momento, a risada inocente de Oliver preencheu o ar. Uma risada de criança, pura e feliz. Mergulhada no amor de seus pais. O amor que ele me roubou.
"Mamãe! Papai! Quando vamos para casa?" Oliver perguntou.
A risada dele era a trilha sonora da minha destruição.
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