
Renascida das Cinzas: A Vingança de Clara
Capítulo 3
Acordei com o som de um bip constante e um cheiro a antissético. As paredes eram brancas. Hospital.
Uma enfermeira estava a ajustar o soro no meu braço. Ela sorriu-me com simpatia.
"A menina acordou. Como se sente?"
A minha primeira ação foi levar a mão à minha barriga. Estava... mais pequena. Menos firme. O pânico subiu pela minha garganta.
"O meu bebé... Onde está o meu bebé?"
O rosto da enfermeira ficou sério. Ela desviou o olhar.
"O médico virá falar consigo em breve. Tente descansar."
Mas eu já sabia. O silêncio dela era a resposta mais alta de todas. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Perdi-o. O meu filho.
Miguel entrou no quarto nesse momento. Tinha o rosto sujo de fuligem e os olhos vermelhos. Ele correu para o meu lado.
"Clara! Graças a Deus, estás bem. Eu estava tão preocupado."
Ele tentou pegar na minha mão, mas eu afastei-a.
"Onde está o nosso filho, Miguel?" A minha voz era fria, sem emoção.
Ele baixou a cabeça.
"Os médicos disseram... a inalação de fumo... o stress... provocou o parto. Era demasiado cedo. Ele não... ele não sobreviveu."
As palavras dele pairaram no ar, pesadas e horríveis. Fiquei a olhar para o teto branco, sentindo um vazio tão grande dentro de mim que parecia que ia engolir o mundo inteiro.
"A Sofia está bem?" perguntei, a voz ainda sem inflexão.
Ele pareceu surpreendido com a pergunta.
"Sim, sim, ela está bem. Só um pouco assustada e inalou um pouco de fumo. A minha mãe está com ela noutro quarto. Ela estava em pânico, coitada."
Coitada. Ele estava a consolar a irmã por um susto, enquanto o nosso filho estava morto.
"Quero o divórcio, Miguel."
As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar nelas. Mas assim que as disse, soube que eram a única verdade que me restava.
Miguel olhou para mim, chocado.
"O quê? Clara, não digas isso. Estás em choque. Nós acabámos de perder o nosso filho. Precisamos um do outro agora."
"Não," eu disse, virando o rosto para ele pela primeira vez. Os meus olhos estavam secos agora. "Eu precisei de ti na festa. O nosso filho precisou de ti. E tu escolheste a Sofia."
"Não é justo! Ela tem asma! Ela podia ter morrido!"
"E eu? Grávida de sete meses? Eu não podia morrer? O nosso filho não importava?"
"Claro que importava! Eu pensei que tinha mais tempo! Pensei que te podia tirar de lá a seguir!"
As suas desculpas eram como areia na minha boca. Vazias. Sem sentido.
"Sai."
"Clara..."
"Eu disse para saíres do meu quarto. Agora."
Ele ficou a olhar para mim por mais um momento, o rosto uma mistura de dor e confusão. Depois, virou-se e saiu, fechando a porta suavemente atrás de si.
Sozinha no silêncio, o meu corpo começou a tremer. O vazio deu lugar a uma dor que me partiu ao meio. O meu bebé. O meu menino. Tinha desaparecido para sempre. E o homem que jurou proteger-nos tinha sido o primeiro a abandonar-nos.
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