
Renascida das Águas
Capítulo 3
Dois dias depois, recebi alta.
A minha mãe insistiu em levar-me para casa dela. Eu recusei.
"Vou para o meu apartamento," disse eu, a minha voz firme.
"Mas Sofia, precisas de alguém para cuidar de ti," protestou ela.
"Eu sei cuidar de mim mesma."
O apartamento que eu partilhava com o Diogo parecia estranho e frio.
As suas coisas ainda estavam por todo o lado. Uma camisa no encosto de uma cadeira, os seus sapatos à porta.
Senti um aperto no estômago.
Peguei em sacos do lixo grandes e comecei a trabalhar.
Metodicamente, juntei cada item que lhe pertencia. Roupas, livros, a sua caneca de café preferida, fotografias.
Não hesitei. Não senti nada. Era como se estivesse a limpar a casa de um estranho.
Quando terminei, havia cinco sacos de lixo cheios à porta.
Liguei-lhe.
Desta vez, ele atendeu ao segundo toque.
"Sofia? Estás bem? A tua mãe disse-me que recebeste alta." A sua voz soava preocupada. Uma preocupação tardia e inútil.
"Vem buscar as tuas coisas," disse eu, sem rodeios.
Houve uma pausa. "As minhas coisas? O que queres dizer?"
"Estão em sacos à porta. Tens uma hora para as vir buscar. Depois disso, vão para o lixo."
"Sofia, espera aí! O que se passa? Podemos falar sobre isto?"
"Não há nada para falar, Diogo. Eu já enviei os papéis do divórcio para o teu advogado."
"Divórcio?!" ele gritou ao telefone. "Estás a falar a sério? Por causa de um mal-entendido? Eu estava a ajudar a Clara! Ela é tua irmã!"
"Ela não é minha irmã," corrigi-o friamente. "E tu fizeste uma escolha. Agora vive com ela."
"Tu não podes fazer isto! E o nosso bebé?"
A menção ao bebé fez o meu sangue gelar.
"Não te atrevas a falar do nosso bebé," sibilei. "Tu não tens esse direito."
"Sofia, eu amo-te! Não deites o nosso casamento fora!"
"O nosso casamento acabou no dia em que me deixaste morrer naquele túnel."
Desliguei a chamada e bloqueei o número dele.
Sentei-me no chão da sala agora vazia. O silêncio era ensurdecedor.
Olhei para as minhas mãos. Elas tremiam.
Não era de tristeza. Era de raiva.
Uma raiva fria e profunda que me consumia.
Ele achava que podia simplesmente pedir desculpa e tudo voltaria ao normal.
Ele achava que o seu "amor" era suficiente para apagar a sua traição.
Ele estava enganado.
Você pode gostar





