
Renascida da Traição
Capítulo 3
Acordei com o mesmo cheiro de desinfetante, mas agora eu estava numa cama de hospital. Uma luz suave entrava pela janela. A minha mão foi instintivamente para a minha barriga.
Estava vazia. Lisa.
O peso que carreguei durante sete meses tinha desaparecido.
Uma enfermeira entrou no quarto, o seu sorriso era gentil, mas os seus olhos estavam cheios de pena.
"Que bom que acordou, Sra. Alves", disse ela suavemente. "Teve um grande choque. Devido ao stress e à queda, infelizmente..."
Ela não precisou de terminar a frase. Eu já sabia.
As lágrimas que eu não tinha chorado pelo meu pai começaram a rolar pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Perdi o meu pai e o meu filho no mesmo dia.
A porta do quarto abriu-se de rompante. Era o Miguel. Atrás dele, hesitante, estava a Sofia.
"Clara! O que aconteceu? A minha mãe ligou-me a gritar. Disse que desmaiaste."
Ele não parecia preocupado. Parecia irritado por ter sido arrastado para ali.
Olhei para ele, para o homem que prometeu amar-me e proteger-me. Não havia um pingo de remorso no seu rosto.
"O pai morreu", disse eu, a minha voz era um sussurro rouco.
Ele franziu o sobrolho. "Eu sei. É triste, mas ele já era velho e tinha problemas de saúde. Não era razão para teres um colapso assim."
Depois, os olhos dele foram para a minha barriga lisa. Uma expressão de compreensão passou pelo seu rosto, rapidamente substituída por... alívio?
"E o bebé...", ele começou.
"Também o perdi", completei, a voz a quebrar-se.
Sofia, atrás dele, levou a mão à boca, num gesto de choque falso.
Miguel ficou em silêncio por um momento. Depois, aproximou-se da cama.
"Olha, Clara, eu sei que é difícil", disse ele, num tom que pretendia ser reconfortante, mas que só soava condescendente. "Mas talvez tenha sido para melhor. Um bebé agora... seria complicado."
Foi como se ele me tivesse dado um estalo.
"Para melhor?", repeti, incrédula. "Eu liguei-te. Eu pedi-te para vires. Onde é que tu estavas, Miguel?"
"Eu já te disse! Estava a ajudar a Sofia!", ele elevou a voz, defensivo. "Ela precisava de mim! Não podes ser sempre o centro do universo! As pessoas têm problemas!"
"O problema dela era uma caixa de cartão", a minha voz saiu fria como gelo. "O meu problema era o meu pai a morrer e o nosso filho em risco."
"Não sejas dramática!", ele gritou.
"Acabou, Miguel", disse eu, com uma clareza que me surpreendeu. "Quero o divórcio."
O rosto dele mudou de raiva para choque puro.
"Divórcio? Estás a brincar? Por causa disto? Depois de tudo o que passámos?"
"O que é que nós passámos, Miguel? Tu passaste o dia a ajudar a tua amiga a mudar de casa. Eu passei o dia a perder a minha família."
O meu telemóvel, pousado na mesa de cabeceira, começou a tocar. Era a minha sogra. Atendi, colocando em alta-voz.
"Clara! Que vergonha! O Miguel acabou de me contar que queres o divórcio!", a voz dela era estridente. "Não tens coração? O teu pai acaba de morrer e já estás a causar mais problemas? Devias estar a apoiar o meu filho, não a atacá-lo! Ele esteve a ajudar uma amiga necessitada, isso é ser um bom homem! Tu é que és egoísta!"
Desliguei a chamada. Olhei para o rosto chocado de Miguel.
"Saiam", disse eu, calmamente. "Os dois."
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