
Renascida da Culpa
Capítulo 3
Sofia acordou com o som da sua própria respiração ofegante.
Um pesadelo. Sempre o mesmo. A viela escura no Bairro Alto, os gritos, o brilho da faca, o corpo de Clara a cair.
Abriu os olhos. Estava no seu pequeno apartamento em Lisboa, não no Douro.
João estava sentado numa cadeira ao seu lado, a expressão carregada de preocupação.
"Como é que eu vim aqui parar?" perguntou ela, a voz rouca.
"Desmaiaste. Tive de te trazer. Sofia... eu vi os teus exames. Os que fizeste às escondidas. O cancro está a piorar muito rapidamente por causa disto tudo. Por causa dele."
A raiva brilhou nos olhos de João.
"Como é que permites que ele te trate assim? Tens de te afastar dele, Sofia! Tens de lutar, de te tratar!"
Ela desviou o olhar.
"Eu não posso. Não enquanto não pagar a minha dívida."
João passou as mãos pelo cabelo, exasperado.
"Ainda te culpas pela morte da Clara, não é? Achas que suportar a crueldade do Tiago vai trazer a Clara de volta? Ou aliviar a tua culpa?"
Sofia não respondeu. O silêncio dela era uma confissão.
Ele suspirou, derrotado por momentos. "Ele não merece o teu sacrifício, Sofia."
Apesar do seu estado, Sofia sabia que tinha de ir trabalhar. Havia um evento de gala essa noite, um dos mais importantes do ano para a empresa de Tiago.
Ela escolheu um vestido simples, escuro. Sabia que Beatriz, a noiva elegante e socialite de Tiago, estaria lá, deslumbrante. O seu papel era ser invisível.
Quando chegou ao local do evento, um palacete antigo, Beatriz já lá estava, a dar ordens aos empregados.
Viu Sofia e sorriu com superioridade.
"Ah, Sofia. Chegaste. O Tiago ainda não apareceu. Certifica-te de que o champanhe está gelado. E não fiques muito à vista, querida. Não queremos assustar os convidados."
Sofia anuiu, ignorando a provocação.
Tiago chegou pouco depois. Passou por Sofia como se ela não existisse, beijou Beatriz na face e disse em voz alta:
"Espera lá fora, Sofia. Preciso de ti mais tarde."
Não era um pedido, era uma ordem.
Sofia obedeceu. A noite estava fria, e o vento cortante atravessava o tecido fino do seu vestido.
Um empregado da organização, vendo-a tremer, aproximou-se.
"Menina, quer um casaco? Ou entrar um pouco?"
"Não, obrigada. Estou bem."
Ela sabia que aquilo era parte da punição. Tiago queria que ela sentisse o frio, a solidão.
Horas mais tarde, o evento estava no auge. Sofia foi chamada ao interior.
Beatriz aproximou-se dela, fingindo desequilibrar-se e entornando deliberadamente um copo de vinho tinto no seu próprio vestido de alta costura.
"Oh, meu Deus! Sofia, olha o que fizeste! Este vestido custou uma fortuna!"
Tiago surgiu imediatamente.
"O que se passa aqui?"
"A Sofia entornou-me vinho em cima! E pior, o meu alfinete de diamantes, uma herança de família, desapareceu! Deve ter caído quando ela me empurrou!" Beatriz choramingou.
Sofia sabia que era mentira. Não tinha tocado em Beatriz.
"Eu não..."
"Cala-te!" ordenou Tiago. "Beatriz, onde achas que pode ter caído?"
"Talvez ali, perto do lago ornamental," disse Beatriz, apontando para o jardim escuro e gelado. "Eu estava a admirar os nenúfares."
Tiago virou-se para Sofia, os olhos faiscando.
"Vai buscá-lo. E não voltes sem ele."
Beatriz e Tiago voltaram para a festa, deixando Sofia sozinha à beira do lago escuro e gelado.
A água parecia negra e ameaçadora.
"Se não o encontrares, estás despedida," gritou Tiago por cima do ombro, antes de desaparecer porta adentro.
Sofia olhou para a água. A ideia de mergulhar naquele frio era aterradora. Mas a ameaça de Tiago, e a sua própria necessidade de punição, eram mais fortes.
Ela respirou fundo e começou a procurar à volta do lago, a dor no estômago a intensificar-se com o frio e o stress.
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