
Renascida da Cinzas: O Fim do Pesadelo
Capítulo 3
No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi ligar para o gerente do local que havíamos reservado para a festa de casamento.
Era um salão de luxo, caro, e o contrato estava no meu nome.
"Gostaria de cancelar a reserva para o casamento de Sofia e Lucas" , eu disse ao telefone, minha voz soando profissional e desinteressada.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Senhora, o cancelamento a menos de dois meses do evento incorre em uma multa de setenta por cento do valor total."
"Eu sei" , respondi calmamente. "Pode cobrar. Apenas cancele."
O dinheiro não importava. O que importava era o ato.
Era o primeiro tijolo que eu retirava da construção da vida perfeita de Lucas.
Ele contava com o prestígio daquele local, financiado principalmente pela minha família, para impressionar seus contatos de negócios.
Duas horas depois, meu telefone tocou.
Era ele.
Ver o nome "Lucas" brilhando na tela enviou uma onda de pânico gelado pelo meu corpo.
Minhas mãos começaram a suar.
Meu coração disparou.
Por um instante, eu não era a Sofia renascida e vingativa, eu era a prisioneira no porão, ouvindo seus passos se aproximando da porta.
Respirei fundo, forçando a imagem para longe.
Eu não era mais aquela mulher.
Atendi a chamada.
"Sofia? Que porra é essa? O gerente do salão me ligou dizendo que você cancelou tudo! Que brincadeira é essa?"
Sua voz, cheia de raiva e arrogância, era exatamente como eu me lembrava.
Respirei fundo mais uma vez, moldando minha voz para soar trêmula e magoada.
"Lucas... eu não podia..." eu comecei, fingindo um soluço.
"Não podia o quê? Falar comigo primeiro? O que deu em você?"
"Eu... eu tive um sonho horrível na noite passada" , eu disse, a mentira vindo facilmente. E então, uma ideia maliciosa surgiu. "Foi tão real. Você estava... você morria em um acidente de carro. Com a Patrícia."
Silêncio do outro lado.
Um silêncio longo e pesado.
Quando ele finalmente falou, sua voz era diferente. Havia um tom de choque, de estranheza.
"Como... como você sabe disso?" ele sussurrou.
Meu coração parou por um segundo. O que ele queria dizer com isso?
"Saber o quê? Foi só um pesadelo, Lucas, mas foi tão assustador que eu..."
"Eu tive o mesmo sonho" , ele me interrompeu, sua voz baixa e tensa. "Exatamente o mesmo. Eu não contei a ninguém. Eu e Patrícia... em um carro... batendo em uma ponte."
Eu quase deixei o telefone cair.
Ele também se lembrava?
Não, isso era impossível. Se ele se lembrasse, ele não estaria com Patrícia. Ele saberia da doença dela. Ele saberia de tudo.
Talvez fosse apenas um eco. Um fragmento de memória de uma vida passada, se manifestando como um pesadelo.
Isso era ainda melhor.
Isso o deixaria desequilibrado, paranóico.
Eu usei isso a meu favor.
"Oh meu Deus, Lucas!" Eu forcei um grito de espanto. "Isso é um sinal! Um aviso! Nós não podemos nos casar. É... é amaldiçoado!"
Eu me entreguei ao papel da noiva histérica e supersticiosa.
Chorei, implorei, falei sobre presságios e destino.
Eu sabia exatamente quais botões apertar. Lucas odiava dramas emocionais. Ele os via como uma fraqueza a ser contornada, não confrontada.
"Sofia, se acalme" , ele disse, a irritação voltando à sua voz. "Isso é ridículo. É só uma coincidência."
"Não é uma coincidência! Eu não posso, Lucas! Eu não posso arriscar perder você!" Eu soluçava dramaticamente. "Por favor, vamos adiar. Só por um tempo. Até eu me sentir segura de novo."
Ele suspirou, um som longo e cansado.
Eu podia imaginá-lo revirando os olhos, massageando a testa.
Ele queria o casamento, queria o status e o dinheiro da minha família, mas não queria lidar com uma noiva "instável".
"Tudo bem" , ele finalmente cedeu, exatamente como eu previ. "Tudo bem, Sofia. Vamos adiar. Apenas... pare de chorar, ok? Fale com seus pais. Eu ligo para os meus. A gente resolve isso."
"Obrigada, Lucas" , eu sussurrei, soando grata e aliviada. "Você é o melhor."
Desliguei o telefone e um sorriso frio se espalhou pelo meu rosto.
Ele era tão previsível.
Tão fácil de manipular quando você sabia o que o movia: seu próprio egoísmo e sua aversão a complicações.
Ele pensou que estava me acalmando, me concedendo um capricho.
Na realidade, ele tinha acabado de me dar exatamente o que eu queria: tempo.
Tempo para desmantelar sua vida, peça por peça, sem que ele suspeitasse de nada.
Três dias depois, a prova de que meu plano estava funcionando apareceu na minha timeline do Instagram.
Patrícia postou uma foto.
Ela e Lucas, sorrindo para a câmera, com taças de champanhe nas mãos.
A legenda dizia: "Às vezes, o que você procura está bem na sua frente o tempo todo. Brindando a novos começos com meu amor, Lucas."
A postagem foi feita exatamente na data original do nosso casamento cancelado.
Uma provocação clara. Uma declaração pública.
Eles não perderam tempo.
Amigos em comum começaram a me ligar, a mandar mensagens, perguntando se eu estava bem, o que tinha acontecido.
Eu não respondi a nenhuma delas.
Apenas salvei a foto no meu celular.
A raiva deles, a humilhação pública que eles achavam que estavam me infligindo, era apenas mais um prego no caixão que eu estava construindo para eles.
Eles achavam que estavam no controle.
Mal sabiam eles que estavam apenas dançando conforme a minha música.
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