
Renasci das Cinzas: O Preço da Negligência
Capítulo 2
A porta abriu-se com um rangido. Era o meu marido, Leo.
Ele estava coberto de pó da cabeça aos pés, o seu uniforme de bombeiro estava rasgado em alguns sítios, e o seu rosto estava manchado de fuligem.
Corri para ele, o meu coração a bater descontroladamente no peito.
"Leo! Estás bem? Fiquei tão preocupada, não atendias o telemóvel."
Toquei-lhe no braço, mas ele recuou, afastando a minha mão.
"Estou bem, Sofia. Só estou cansado."
A sua voz era fria, distante. Não era a voz do homem que me beijava todas as manhãs antes de sair para o trabalho.
Ele passou por mim e sentou-se pesadamente no sofá, o pó do seu uniforme a criar uma pequena nuvem à sua volta.
As notícias na televisão mostravam imagens do prédio que tinha desabado no centro da cidade. Era lá que ele tinha estado o dia todo. A minha mão pousou instintivamente sobre a minha barriga de oito meses.
"Foi horrível?", perguntei, a minha voz a tremer um pouco. "Salvaste muitas pessoas?"
Ele não olhou para mim. Os seus olhos estavam fixos num ponto vazio da parede.
"Salvei quem pude."
Fiz uma pausa. Algo estava errado. Muito errado.
"Onde estiveste exatamente? O desabamento foi na Rua das Flores. O teu quartel não cobre essa área."
Ele finalmente virou a cabeça e olhou para mim. Havia irritação nos seus olhos.
"A Clara ligou-me. O apartamento dela é perto de lá. O prédio dela tremeu com o colapso, ela estava em pânico."
Clara. A sua ex-namorada.
Senti um frio a percorrer-me a espinha.
"Tu... foste ter com a Clara?"
"Sim", disse ele, desafiador. "Ela estava sozinha e assustada. O gato dela, o Biscoito, tinha-se escondido debaixo da cama e não saía. Tive de a ajudar. Qual é o problema?"
O problema. Ele perguntava qual era o problema.
Eu tinha-lhe ligado doze vezes. Doze. Cada chamada não atendida era um prego a mais no meu caixão de ansiedade. Eu estava grávida, sozinha em casa, a ver as notícias de um desastre onde o meu marido podia estar a morrer.
E ele estava a consolar a ex-namorada por causa de um gato assustado.
"Eu liguei-te, Leo. Eu estava preocupada."
"Eu vi as tuas chamadas", disse ele, com um encolher de ombros. "Estava ocupado. A Clara precisava de mim. Tu estavas segura em casa."
Senti uma dor aguda no ventre, um aviso de que algo estava terrivelmente errado.
"Eu não me sinto bem, Leo."
Ele suspirou, um som longo e exasperado.
"Não comeces com o drama, Sofia. Estou exausto. Tive um dia de cão. Não podes simplesmente ser compreensiva por uma vez?"
Ele achava que eu não era compreensiva.
Eu, que passei os últimos oito meses a adaptar a minha vida inteira à volta dele e do nosso bebé que aí vinha.
A dor no meu ventre intensificou-se. Dobrei-me, a minha respiração ficou presa na garganta.
"Leo... acho que é sério."
Só então ele pareceu notar o meu estado. Levantou-se lentamente do sofá, a sua expressão mais de aborrecimento do que de preocupação.
"O que se passa agora?"
Eu não conseguia responder. A dor era uma onda que me consumia. Olhei para as minhas mãos e vi que estavam a tremer.
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