
Renascer das Chamas: A Vingança da Ex-Esposa
Capítulo 3
Acordei com o som de um bip constante e um cheiro a antissético.
Uma luz branca e forte feria os meus olhos. Estava num hospital.
Uma enfermeira viu que eu estava acordada e aproximou-se.
"Como se sente?"
A minha garganta estava seca, doía ao falar. "O meu bebé... ele está bem?"
A enfermeira olhou para mim com pena, o seu sorriso profissional desapareceu. Ela não precisou de dizer nada.
Eu sabia.
Olhei para a minha barriga. Estava coberta por um lençol, mas eu sentia-a. Estava vazia. Plana.
O silêncio no quarto era mais alto do que qualquer grito.
A enfermeira colocou uma mão no meu ombro. "A inalação de fumo foi severa. O seu corpo sofreu um grande stress. Fizemos tudo o que podíamos, mas..."
Ela não terminou a frase. Não precisava.
"Onde está o meu marido?" perguntei, a minha voz sem emoção.
"Ele está lá fora. Tem estado aqui desde que a trouxeram. Quer que o chame?"
"Não."
A palavra saiu fria e dura.
Fechei os olhos, mas a imagem da escuridão e o som da voz de Leo a chamar por Sofia não me saíam da cabeça.
Ele escolheu. E a sua escolha custou-me o meu filho.
Um médico entrou mais tarde para me explicar os detalhes. Falou sobre privação de oxigénio, sobre o sofrimento fetal. As suas palavras eram técnicas, distantes. Eram apenas ruído.
A única coisa que eu ouvia era o eco do silêncio no meu ventre.
A porta abriu-se devagarinho. Era o Leo.
Ele parecia exausto. A sua cara estava manchada de fuligem, a sua roupa de bombeiro estava suja. Ele aproximou-se da cama, os seus olhos cheios de uma dor que me pareceu falsa.
"Clara..."
Ele tentou pegar na minha mão. Eu afastei-a.
"Não me toques."
Ele recuou, surpreendido. "Clara, eu... eu sinto muito. Eu..."
"Onde estiveste, Leo?"
"Eu estava a ajudar. O fogo era no décimo andar, mesmo debaixo do apartamento da Sofia. Eu tive de a tirar de lá primeiro, era o procedimento correto. O fogo estava a subir."
A sua desculpa era tão lógica, tão profissional. Tão fria.
"Ela está bem?" perguntei, a minha voz perigosamente calma.
"Sim, ela só inalou um pouco de fumo. Está em observação noutro quarto." Ele fez uma pausa. "Os pais dela estão a caminho."
Claro que está bem. Ele chegou a tempo para ela.
"E o nosso filho, Leo? Ele está bem?"
Perguntei, olhando-o diretamente nos olhos. Vi a sua fachada de herói a quebrar-se. A culpa apareceu, feia e real.
Ele não conseguiu responder. As lágrimas encheram-lhe os olhos.
"Clara, eu não sabia... Eu pensei que tinha tempo..."
"Tempo? Ligaste-me e disseste que estavas a cinco minutos. Mas já estavas no prédio, com ela. Mentiste."
"Não, eu... eu cheguei e ouvi os gritos dela no corredor. Tive de tomar uma decisão numa fração de segundo."
"E tomaste." Levantei a cabeça, sentindo uma força estranha a nascer da minha dor. "Tomaste a tua decisão. Agora eu vou tomar a minha."
Ele olhou para mim, confuso.
"Vamos divorciar-nos, Leo."
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