
Renascer das Águas Amargas
Capítulo 2
A água gelada subia rapidamente, já a bater nos vidros do carro. A minha mãe, Helena, ao meu lado, tremia, não sei se de frio ou de medo.
O rádio do carro tinha morrido há minutos, mas a última notícia que ouvimos foi sobre o colapso de um túnel devido à inundação súbita em Porto Tempestade.
Estávamos presas numa rua baixa, o motor já não pegava.
A minha barriga de nove meses parecia uma pedra pesada, dificultando a minha respiração. O pânico começou a instalar-se.
Peguei no telemóvel com os dedos a tremer e liguei ao meu marido, Miguel.
A chamada demorou a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, o barulho de fundo era de vento e chuva, mas não de pânico.
"Sofia? O que se passa? Estou ocupado."
A voz dele era impaciente, distante.
"Miguel, ajuda-nos! O carro parou, a água está a subir muito depressa! Estamos na Rua das Flores, perto da ponte velha."
A minha voz saiu embargada, uma mistura de choro e medo.
"Calma, os bombeiros já devem estar a caminho. Não consigo ir aí agora, estou numa emergência."
Emergência? Que emergência poderia ser mais importante do que a sua mulher grávida presa numa inundação?
Antes que eu pudesse responder, ouvi outra voz ao fundo, uma voz feminina, suave e assustada.
"Miguel, o Miau está com tanto medo, não para de tremer."
Era a Beatriz. A amiga de infância dele, a sua quase-irmã, a mulher que a minha sogra sempre desejou para ele.
O meu coração gelou.
"Estou a tratar de um assunto sério, Sofia. A Beatriz está sozinha e a casa dela está a começar a inundar. O gato dela está em pânico. Tenho de a ajudar primeiro. Liga para o 112 e espera," disse ele, com um tom final.
"Miguel, por favor..."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel. Chamada terminada.
Tentei ligar de novo. E de novo. E de novo. A chamada ia diretamente para o correio de voz. Ele tinha-me bloqueado.
A água já cobria metade da janela. A minha mãe começou a rezar em voz baixa.
Eu olhei para a minha barriga. O nosso filho. O filho que ele dizia tanto querer.
Aparentemente, não tanto como o gato da Beatriz.
Você pode gostar





