
Renascendo das Cinzas
Capítulo 3
O papel em sua mão tremia. Era uma cópia do acordo de doação que ela havia assinado. Maria o releu pela décima vez, mas as palavras não mudavam. Seu nome estava ali, e abaixo, uma cláusula que estipulava que o beneficiário de seu coração seria determinado pela organização, mas anexo a ele, um documento adicional que ela não se lembrava de ter visto, especificava a receptora: Lin. João havia manipulado tudo desde o início. Ele não apenas a destruiria, mas usaria seu sacrifício final para salvar a mulher que a havia substituído.
A ironia era tão esmagadora que Maria sentiu vontade de rir e chorar ao mesmo tempo. Ela venderia sua vida para salvar seu filho, apenas para que sua morte desse vida à noiva de seu inimigo. Era um nó perfeitamente amarrado pelo destino, ou melhor, por João. A sensação de tragédia era palpável, como uma nuvem escura pairando sobre sua cabeça, pronta para desabar a qualquer momento.
Ela se lembrou do dia em que assinou o acordo. O desespero a consumia. Pedro tinha tido uma crise grave, seus lábios ficaram azuis e ele mal conseguia respirar. Os médicos disseram que o tempo estava se esgotando. Ela precisava do dinheiro, precisava de uma garantia de que, mesmo que ela não estivesse lá, Pedro teria uma chance. Vender a própria vida parecia um preço justo a pagar pela vida de seu filho. O amor de uma mãe não conhece limites, não conhece a lógica, apenas a necessidade visceral de proteger sua cria. Naquele momento de pânico, ela teria assinado qualquer coisa.
João não perdeu tempo. No dia seguinte ao encontro na festa, ele apareceu em seu apartamento. Ele não bateu, simplesmente usou uma chave para entrar, como se fosse o dono do lugar. A arrogância dele era sufocante.
"Eu tenho uma proposta para você," ele disse, parado no meio de sua pequena sala de estar, olhando ao redor com desdém.
Maria o encarou, o ódio queimando dentro dela. "Eu não quero nada de você."
"Ah, mas você quer," ele respondeu com um sorriso de escárnio. "Você quer o dinheiro para a cirurgia do seu filho. E eu quero algo em troca." Ele fez uma pausa, saboreando o momento. "Eu quero que você venha trabalhar para mim. Você será a cuidadora de Lin. Você vai cuidar dela, alimentá-la, dar banho nela, atender a todas as suas necessidades, até o dia da cirurgia."
A humilhação da proposta a deixou sem fôlego. Ele queria que ela servisse sua rival, que a visse todos os dias, que testemunhasse a vida que ele havia construído sobre as ruínas da dela. Era uma tortura psicológica, e ele sabia disso.
"Você é um monstro," ela sussurrou, sua voz cheia de repulsa.
"Eu sou o que você e seu pai fizeram de mim," ele rebateu, seu rosto se endurecendo. "Esta é a minha oferta. Aceite, e eu adianto uma parte do dinheiro para o tratamento de Pedro. Recuse, e eu garanto que você nunca mais verá um centavo. A escolha é sua."
Naquela noite, enquanto colocava Pedro na cama, o menino olhou para ela com seus grandes olhos inocentes. "Mamãe, você vai ficar bem?" ele perguntou, sua pequena mão tocando seu rosto. "Quando eu tiver um coração novo, vou correr muito rápido e te proteger de todo mundo."
As palavras dele, tão puras e cheias de amor, quebraram o coração de Maria em mil pedaços. Ele não entendia o preço de seu "coração novo". Ele não sabia que para ele viver, ela teria que morrer. A tragédia escondida em sua promessa infantil era quase insuportável.
"Sim, meu amor," ela disse, forçando um sorriso e engolindo as lágrimas. "A mamãe vai ficar bem."
No dia seguinte, com o coração pesado e a alma resignada, Maria arrumou uma pequena mala. Ela não tinha escolha. Pelo bem de Pedro, ela se curvaria ao destino, entraria na casa de seu torturador e se tornaria a serva de sua rival. Ao fechar a porta de seu apartamento, ela sentiu como se estivesse fechando a porta para sua própria vida, entrando em um território inimigo do qual talvez nunca mais saísse viva. O ar na mansão de João era frio e opressivo, um prenúncio dos dias sombrios que viriam.
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