
Renascendo das Cinzas do Casamento
Capítulo 3
No dia seguinte, Seu Afonso apareceu no hospital. Seus olhos, geralmente severos, estavam cheios de uma tristeza profunda e culpa. Ele se sentou ao lado da minha cama, suspirando pesadamente.
"Laura, eu vi a foto. Não há desculpas para o que Heitor fez."
Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma noite.
"Aquele moleque irresponsável... Eu vou me certificar de que ele assine os papéis do divórcio. Você terá tudo o que lhe é de direito, e mais."
Eu balancei a cabeça lentamente.
"Eu não quero o dinheiro dele, Seu Afonso. Eu só quero a minha liberdade."
"Eu sei, minha filha. Mas a família Horta tem uma dívida com você. Com você e com sua avó." Seus olhos se encheram de lágrimas. "Sua avó era uma boa mulher. Ela não merecia isso."
A menção da minha avó fez meu peito doer, uma dor física e aguda.
"Eu preciso organizar o funeral dela... e o do bebê," eu disse, a voz falhando pela primeira vez.
Seu Afonso segurou minha mão, a sua, enrugada e forte, cobrindo a minha.
"Eu cuidarei de tudo. Descanse. Você precisa se recuperar."
Ele ficou ali por um tempo, em silêncio, e eu me senti grata por sua presença. Ele era a única parte daquela família que ainda possuía alguma humanidade.
Enquanto eu estava deitada naquela cama de hospital, as memórias dos últimos sete anos vieram à tona, como um filme amargo.
Lembrei-me do dia em que conheci Heitor. Não foi um encontro romântico, foi uma transação. Eu era de uma família tradicional, mas em declínio. Minha avó estava doente, e precisávamos de dinheiro para o tratamento. Heitor, o herdeiro playboy dos Horta, precisava de uma esposa respeitável para acalmar os investidores e garantir sua posição como CEO.
Foi um acordo. Um casamento de conveniência. Ele me daria estabilidade financeira, e eu lhe daria a imagem de um homem de família.
"Um casamento de fachada," ele disse na época, com um sorriso cínico. "Sem amor, sem expectativas. Apenas um contrato."
Eu concordei. Na época, parecia a única solução. Ingênua, eu pensei que poderia lidar com isso, que poderia manter meu coração protegido.
Mas eu era jovem e, apesar de tudo, uma romântica incurável. Nos primeiros anos, eu tentei. Eu realmente tentei fazer aquilo dar certo.
Aprendi a cozinhar seus pratos favoritos, mesmo que ele raramente jantasse em casa. Decorei a casa fria e moderna com toques de calor, tentando transformá-la em um lar.
Descobri que ele tinha uma memória de infância de uma pequena cabana de madeira onde passava as férias com os pais, antes de eles morrerem. Em um de nossos aniversários, eu passei meses planejando e construí uma réplica exata da cabana no fundo do nosso jardim, como uma surpresa.
Eu até tentei apimentar nossa vida íntima, lendo livros e artigos, tentando de tudo para agradá-lo, na esperança de que um dia ele pudesse me ver como mais do que apenas uma parceira de negócios.
Ele parecia apreciar meus esforços, às vezes. Havia momentos em que ele era quase gentil, quase carinhoso. Momentos que me davam uma falsa esperança, que me faziam acreditar que talvez houvesse uma chance para nós.
O ponto de virada foi no nosso quinto aniversário de casamento. Eu tinha preparado um jantar especial. A cabana estava pronta. Eu o esperei, vestida com um vestido novo, o coração cheio de expectativa.
Ele chegou tarde, cheirando a perfume de outra mulher.
Ele nem notou a mesa posta ou a roupa que eu usava. Ele jogou um envelope na mesa.
"Feliz aniversário," ele disse, a voz entediada. "Nossos advogados renovaram o contrato por mais cinco anos. Os termos são os mesmos."
Meu coração afundou.
"Heitor... eu... eu fiz uma surpresa para você."
Ele me olhou como se eu fosse louca.
"Uma surpresa? Laura, não se esqueça do nosso acordo. Somos parceiros, não um casal apaixonado. Não confunda as coisas."
Naquela noite, a máscara caiu completamente. Ele não tentou mais fingir. Ele começou a trazer suas amantes para jantares de negócios, apresentando-as como "amigas". Ele desaparecia por dias, sem dar explicações. A imprensa de fofocas estava sempre cheia de fotos dele com modelos e atrizes.
Cada foto era uma facada. Cada boato era um veneno. Eu me sentia presa, humilhada, mas o contrato me amarrava. E a saúde da minha avó dependia do dinheiro dele. Então, eu aguentei.
Até que, alguns meses atrás, um acidente aconteceu. Um descuido. Eu descobri que estava grávida.
Meu primeiro instinto foi o pânico. Mas então, uma pequena chama de esperança se acendeu. Talvez um filho pudesse mudar tudo. Talvez um filho pudesse despertar algo em Heitor.
Quando contei a ele, sua reação foi fria. "Livre-se disso. Não vou criar um filho que não planejei."
Mas Seu Afonso interveio. Ele sempre quis um bisneto. Ele implorou, me pediu para ter o bebê, prometendo que Heitor mudaria, que ele assumiria suas responsabilidades.
"Por favor, Laura," ele disse, com os olhos cheios de súplica. "Dê a esta família uma chance."
E eu, tola, cedi. Eu me agarrei àquela última esperança. Pensei que, com a pressão do avô e a chegada de um filho, Heitor finalmente se tornaria o homem que eu sonhava que ele pudesse ser.
Como eu fui estúpida.
A gravidez não o mudou. Pelo contrário, parecia que ele me odiava ainda mais por isso. Ele se tornou mais cruel, mais distante. E a traição com Jéssica se tornou pública, descarada.
Olhando para o teto do hospital, a memória do acidente, a voz fria de Heitor no telefone, a foto dele com Jéssica... tudo se misturou em uma clareza dolorosa.
A esperança estava morta. E com ela, o amor, a paciência e qualquer resquício de sentimento que eu ainda tinha por ele.
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