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Capa do romance Rainha do Samba Renasce

Rainha do Samba Renasce

Traída por João, o homem que elevou ao trono, a Rainha do Samba Maria vê sua arte e legado virarem cinzas. Influenciado pela inveja de Sofia, ele destrói tudo o que ela ama, incluindo seu filho não nascido, e tira sua vida. Porém, o sacrifício de seu herdeiro a desperta como uma Fênix. Renascida do luto e da lama, Maria busca justiça. Agora, ela lidera uma dança de purificação onde o Carnaval cobrará cada vida perdida, garantindo que a alma de João jamais encontre paz.
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Capítulo 2

O cheiro de fumaça e cinzas enchia o ar, um aroma que antes significava a celebração do fim de um desfile glorioso, mas que agora era o fedor da perda.

Maria se lembrava de outro tempo, não muito distante, quando essa mesma cidade estava de joelhos. O Carnaval, a alma da cidade, estava morrendo. Patrocinadores haviam sumido, a prefeitura cortara os fundos e as escolas de samba estavam à beira do colapso.

Foi João quem a procurou. Naquela época, ele não era o "Rei do Carnaval", era apenas um homem desesperado, com o peso do legado de sua família nos ombros. Ele se ajoelhou diante dela, no meio do barracão poeirento, e implorou. Suas lágrimas molharam o chão de cimento.

"Maria, só você pode nos salvar", ele disse, a voz embargada. "O espírito do samba em você, a Phoenix... use-o. Salve nosso Carnaval."

E ela o fez. Maria trabalhou por dias e noites, sem dormir, sem comer. Ela canalizou a energia ancestral da Phoenix, o espírito do samba que vivia nela, para criar as fantasias mais espetaculares que a avenida já vira. Ela usou sua própria força vital para bordar cada lantejoula, para colar cada pluma, transformando tecido e arame em pura magia. Sua comunidade, inspirada por sua devoção, uniu-se a ela. O Carnaval daquele ano não foi apenas salvo; foi o mais lendário de todos. A cidade a aclamou como sua Rainha eterna. E João, graças à sua glória, foi coroado Rei.

Agora, esse mesmo homem a olhava com desprezo. O amor e a gratidão em seus olhos haviam sido substituídos por um gelo cortante. Ele não estava mais de joelhos, mas de pé, imponente e cruel, com a mão possessivamente na cintura de outra mulher.

Sofia.

Uma dançarina rival, cujo talento sempre fora ofuscado pelo brilho de Maria. A inveja de Sofia era uma coisa viva e venenosa, e ela finalmente encontrara uma arma para usá-la: o coração de João.

"Bruxa", João cuspiu a palavra, e ela atingiu Maria com a força de um tapa. "Você e essa coisa amaldiçoada em sua barriga. Vocês vão trazer a desgraça para o nosso Carnaval."

A crise de Maria não era apenas a perda de seu amor, era uma ameaça à vida que carregava. Seu filho não era uma criança comum, ele era o receptáculo da próxima geração da Phoenix, um espírito que precisava de alegria, de música e da energia vibrante do samba para se formar.

Sofia se encolheu nos braços de João, a mão delicadamente sobre o próprio ventre, ainda liso.

"João, querido", ela sussurrou, fingindo fraqueza. "Sinto uma energia tão sombria vindo dela. Acho que... acho que está afetando nosso bebê."

A mentira era tão óbvia, tão transparente, mas João a engoliu como se fosse a mais pura verdade. Seus olhos se endureceram, a loucura da paixão e do poder o cegando completamente.

"Eu não vou permitir", ele rosnou. "Este Carnaval será puro. Será nosso. Só a Sofia merece ter um filho meu."

Ele se virou para seus homens, capangas que antes eram membros leais da comunidade do samba, agora corrompidos pela promessa de poder de João.

"Tranquem-na no barracão dos fundos. E queimem tudo. Cada fantasia, cada adereço, cada pluma. Não quero que sobre nem poeira do samba de Maria."

O pânico gelou o sangue de Maria. Não as fantasias. Eram mais do que meros objetos, eram a essência de seu trabalho, a manifestação física da energia da Phoenix. Eram o berço de seu filho.

Os homens a arrastaram, suas unhas cravando em seus braços. Eles a jogaram no chão de terra do barracão menor, um lugar usado para guardar ferramentas velhas e carros alegóricos quebrados. A porta de metal bateu com um som final, e a escuridão a engoliu.

Do lado de fora, ela ouviu as ordens de João. Ouviu o som de suas criações sendo arrastadas, rasgadas. Então, o cheiro. O cheiro de tecido queimado, de plástico derretido, de penas se transformando em fumaça acre.

Ela se arrastou até uma fresta na porta e olhou. Uma fogueira gigantesca ardia no pátio, consumindo anos de sua vida, de sua arte. As fantasias que salvaram a cidade agora eram combustível para o ódio de um homem.

"Não!", ela gritou, a voz rasgando a garganta. "João, por favor! Meu filho! Ele precisa dessa energia para sobreviver! A Phoenix dentro dele vai morrer!"

Ela batia na porta de metal até seus pulsos sangrarem.

A porta se abriu de repente. João estava lá, a luz da fogueira dançando em seu rosto, fazendo-o parecer um demônio. Sofia estava ao seu lado, um sorriso vitorioso e sutil nos lábios. Ele a abraçava, uma mão protetora sobre a barriga dela.

Ele riu do desespero de Maria, um som feio e cruel que ecoou na noite.

"Seu filho?", ele zombou, o desprezo gotejando de cada sílaba. "Seu filho amaldiçoado merece morrer! Só o meu herdeiro com a Sofia viverá para ver o próximo Carnaval."

Ele fechou a porta na cara dela, trancando-a novamente com o som de sua própria alma se partindo.

Lá dentro, na escuridão, Maria sentiu. Uma agitação fraca em seu ventre, uma dor que não era física. Era a Phoenix, seu filho ainda não nascido, se desfazendo. A energia que o sustentava estava sendo queimada, transformada em cinzas inúteis. Ele estava se dissolvendo em lágrimas espirituais, um eco silencioso de dor que só ela podia sentir.

Mais tarde, o silêncio foi quebrado novamente. Desta vez, pelos gritos de um homem.

Maria se encolheu no canto. Ela reconheceu a voz. Era a de seu Mestre-Sala, um senhor de idade que dançava com ela há anos.

"O que está acontecendo?", ela sussurrou para a escuridão.

Então ela ouviu a voz de João, clara e fria.

"A Sofia sentiu um enjoo. A culpa é da sua bruxaria, Maria. Isso é um aviso. Para cada desconforto que ela sentir, um dos seus pagará o preço."

Um novo grito cortou o ar, seguido pelo som de um golpe surdo.

Maria fechou os olhos, as lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto sujo de poeira. A crueldade de João não tinha limites. Ele não estava apenas destruindo seu passado e seu futuro, ele estava aniquilando seu presente, sua família, sua comunidade, um por um, usando o pretexto mais frágil e perverso.

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