
Rainha do Castelo Próprio
Capítulo 2
A tela do celular iluminava o rosto de Maria da Graça, refletindo a ansiedade e a expectativa em seus olhos. Faltava apenas um dia para ela finalmente conhecer Pedro Albuquerque, o "príncipe" que ela conheceu online. Herdeiro de uma famosa marca de café de São Paulo, ele era tudo o que ela sonhava: charmoso, rico e, aparentemente, apaixonado por ela.
Do seu pequeno quarto no interior, que dividia com uma colega, ela passara meses conversando com ele, compartilhando seus sonhos de se tornar uma grande estilista e ouvindo sobre a vida glamorosa dele na cidade grande. Ele a incentivou, elogiou seus esboços e prometeu que, quando se encontrassem, a apresentaria a pessoas importantes do mundo da moda.
Ela já estava em São Paulo, hospedada em uma pensão barata com sua colega de quarto, Patrícia, apenas para este encontro. O coração de Maria da Graça batia mais forte só de pensar nele. Amanhã, tudo mudaria.
"Você tem certeza que ele é tudo isso, Graça?", Patrícia perguntou da cama ao lado, lixando as unhas com uma expressão entediada.
"Claro que sim. Ele é incrível", respondeu Maria, sem tirar os olhos do celular, relendo as últimas mensagens carinhosas de Pedro.
Naquela noite, a ansiedade não a deixava dormir. Ela se levantou para beber um copo d'água na cozinha compartilhada da pensão. O lugar estava silencioso e escuro. Quando se aproximou, ouviu vozes vindas do corredor, perto da porta do quarto de Patrícia, que ficara entreaberta.
Era a voz de Patrícia, mas ela falava baixo, quase sussurrando ao telefone. A curiosidade fez Maria da Graça parar.
"Sim, Pedro... Ela está aqui, toda animada. Mal sabe ela... Coitadinha."
O nome "Pedro" fez o estômago de Maria da Graça gelar. Ela se encostou na parede fria, prendendo a respiração para conseguir ouvir melhor.
"Claro que ela acreditou em tudo", continuou Patrícia, com uma risada abafada. "Ela é tão ingênua, uma garota pobre do interior. Acha mesmo que um cara como você se interessaria por ela de verdade?"
Cada palavra era um soco. O mundo de Maria da Graça começou a desmoronar.
"Não se preocupe, eu te ajudo a se livrar dela. Mas e o seu amigo, o João? Ele realmente vai no seu lugar amanhã?"
Houve uma pausa. Maria da Graça podia imaginar Pedro do outro lado da linha, confirmando o plano com sua voz arrogante que ela agora percebia ser falsa.
"Entendi. Então o plano é esse: o João vai encontrá-la, diz que você não pôde ir e a dispensa. Simples assim. Ela vai ficar arrasada, mas quem se importa? É só um brinquedinho pra você, não é?"
A raiva substituiu o choque. Uma fúria fria e cortante subiu por sua espinha. Então era isso. Um brinquedo. Uma "garota pobre e ingênua". A humilhação que ele planejou para ela era cruel, calculada. E Patrícia, sua colega de quarto, era cúmplice.
Ela voltou para o quarto em silêncio, o coração pesado, mas a mente surpreendentemente clara. As lágrimas que ameaçavam cair foram engolidas pela determinação. Ela não seria humilhada. Ela não daria a eles esse gostinho.
Ela se deitou na cama e fingiu estar dormindo quando Patrícia entrou no quarto minutos depois, movendo-se sorrateiramente.
Maria da Graça pegou seu celular debaixo do travesseiro. Com os dedos firmes, ela abriu a conversa com Pedro. O plano dele era enviar um amigo para dispensá-la. Perfeito. O jogo tinha acabado de mudar de tabuleiro.
Ela digitou uma mensagem, a mais doce e ingênua que conseguiu formular.
"Oi, Pedro! Estou tão ansiosa para amanhã! Mal posso esperar para finalmente te ver. <3"
Ela enviou e desligou o celular. Um sorriso amargo brotou em seus lábios no escuro. Eles queriam um jogo? Eles teriam um. Mas agora, as regras eram dela. Ela iria ao encontro, mas não para ser a vítima. Ela iria para virar a mesa. E o amigo misterioso, João, seria a peça principal de sua vingança.
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