
Quebrada de Bandido
Capítulo 2
Maquinista: Fia, não vem com esse papo não! — me levantei — Tá aqui por que mesmo?
Larissa: Vim te fazer uma surpresa... — ameaçou a tirar a roupa.
Maquinista: Só quando eu chamar. — encostei na mesa — Pode ir embora agora. — desenrolei um beck.
Larissa: Quando eu quiser, também posso, não é assim. — fez mais um drama.
Maquinista: Não sai Larissa, mete o louco não. — alterei um pouco a voz — Sai quebrando.
Larissa: Depois não vem atrás. — jogou o cabelo.
Maquinista: Pode deixar! Eu não vou. — afirmei.
Ela fez mais alguns shows, deu mais alguns dramas, mas eu não estava afim de escutar. Por isso, liguei o foda - se. Fiquei ali desenrolando o meu beck e desenvolvendo os esquemas da carga. Passei um rádios pros aprendizes.
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— Quero geral do beco 15, revistando os galpões.
— Dodô na escuta.
— Dodô, pega geral do beco 15 e vai revista os galpões.
— Jaé chefe, mas alguma coisa?
— Porra, cadê o resto nesse merda desse rádio? Tão com a vida ganha carai?
— Uns tão no asfalto, outros fazendo a ronda de sempre.
— Sei que ronda eles estão fazendo, tô ligado.
— Que isso chefe.
— Sem k.o, todo mundo é fi de Deus né não? Quero o certo pelo certo.
— Entendido.
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Procuro sempre ser mais amigos dos meus aprendizes do que chefe, até porque sempre estão ali quando eu preciso ou quando qualquer um precisa. Isso é família. Tenho o orgulho de fazer parte, mesmo que seja pelo motivo errado, ganhei e não quero perder. A boca já estava mais calma, pelo menos dentro do meu barraco, tranquei. Ia lá em casa bater aquela larica fi, sem boca mesmo.
— Ou, tu tá bem fio? — o aprendiz me perguntou.
— Ou fio, tô só na larica mesmo, qual foi? — cruzei os braços.
— Negando a Larissa? — riu — Ou melhor, buceta.
— Qual é CV até parece que eu como qualquer uma. — ofendido.
— Ah patrão, passa o pinto em tudo. — debochou.
— Vai chegar a sua vez, chora não. — dei um tapa na cabeça dele — Vai aprendendo com o mestre.
— Pegar o meu caderno pra anotar. — ameaçou procurar.
— Melhor que tu faz. — fiz sinal — Os pela saco, fiquem de olho aí na boca jaé? E ATENDAM A PORRA DO RÁDIO, CUZÕES.
— TE AMO AMOR. — um outro aprendiz gritou.
Me virei pra ele e aprontei pra minhas partes, e sai quebrando. A fome tava monstra fi.Maquinista: Que cheiro bom de comida. — inalei.
Sônia: Pelo menos alguém adora a minha comida. — disse se referindo a minha irmã.
Lana: Começou as indiretas. — revirou os olhos — Fala na cara mãe. — se jogou no sofá.
Sônia: Me respeita. — deu um tapa no braço da mesma — Não sou as suas amigas Lana!
Maquinista: Ou! — falei mais alto — Não quero as duas brigando.
Lana: Af! — resmungou.
Maquinista: Af nada Lana. Bora comer. — parei perto dela, esperando levantar.
Lana: Não vou. — cruzou as pernas.
Não tive outro jeito, a carreguei daquele jeito mesmo, fiz que nem criança, acomodei ela sentada na cadeira.
Maquinista: Pode se servir. — apontei pro prato.
Lana: Não estou com fome. — relutou.
Maquinista: Não te perguntei. — afirmei.
A Lana tinha um sério problema com a comida, se não era a comida, o motivo tinha outros nomes, vários se possível. Não sou ciumento, não seguro a Lana, se ela quiser dar o problema é dela não é não? O negócio é só ela ficar de zoia. Montei aquele prato de pedreiro, devorei aquilo no mesmo instante em que coloquei no prato, nem dava pra engolir.
Sônia: Come direito, moleque! — deu um tapa na minha cabeça.
Maquinista: É fome. — falei de boca cheia.
Sônia: Gula é pecado, sabia? — falou se servindo.
Maquinista: Tomar conta da vida dos outros também, sabia? — dei a última garfada.
Sônia: Que abuso! — me beliscou — Vai lavar o seu prato! Sim e pronto! — ordenou.
Maquinista: Sim senhora. — deu um beijo no rosto da coroa.
Lana: Eca, que grude. — fez cara de nojo.
Maquinista: Fica quieta aí... — fui pra cozinha lavar o prato.
Não iria ficar ali por muito tempo, depois de almoçar fui me jogar no sofá, o rádio apitava e eu só escutava os recados, e ficava de boa.
Lana: Rael? — se sentou do meu lado.
Maquinista: Hm? — me ajeitei no sofá.
Lana: o CV ainda tá na boca? — olhou pra baixo.
Maquinista: Lana, qual é... — fixei nela — Deixa o CV de lado.
Lana: Eu tento... — abaixou a cabeça — Não dá, eu tento.
Maquinista: Dá sim. — encarando — Papo reto, ele é meu amigo, mas não é pra você!
Lana: Eu sei de tudo isso, eu sei, eu sei... — suspirou — Deixa pra lá, tá? Esquece.
Maquinista: Por que não vai dar um rolê, pelo morro? — falei — Tem mina nova chegando.
Lana: Talvez eu vá... — deu as costas pra escada — Em que casa elas vão ficar?
Maquinista: Depois da casa do Sorriso. — desliguei a tv.
Não esperei ela me responder e voltei pra boca. Já estava na hora do carregamento! Desci no embalo, já organizando o batalhão, partimos pro asfalto.ㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤ ㅤㅤ ㅤ ㅤ ㅤ Marina Narrando
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O táxi tinha nos deixado na entrada da morro, houve uma confusão se iria deixar ou não o carro subir. Por fim eu me estressei, e disse que dali mesmo subia com as malas, mesmo que eu tivesse que fazer duas viagens ou mais.
Marina: Anda Bia! — chamei — Depois vocês até se comem, eu juro. — olhei pros dois./
Bia: Marina!!! — me repreendeu.
Marina: Ah, desculpa... — debochei — Até parece mesmo que aqui, ninguém nunca fez isso. — dei uma boa olhada nos homens com as armas, e alguns sem.
?????: Sabemos bem de qual é da parada, novinha. — piscou pra mim.
Marina: Muito obrigada. — sorri — Será que alguém poderia me ajudar?
?????: Aquelas ali atrás? — um outro menino apontou.
Marina: É por favor. — ajeitei as malas e as caixas — BIA! — falei mais alto.
Bia: O QUE? — descolou do menino.
Marina: Vamos! — tentei convencer dessa vez.
Por fim ela me ouviu, e fomos subindo o morro devagar. Eu não estava com pressa apesar do peso, estava adorando aquele lugar, por mais besta que pareça. Eu não sou inocente, só pela tv já dá pra se ver como é o funcionamento de um morro, e como é um morro, talvez não tão de perto mais já da pra sacar.
Bia: Aqui é bem louco. — disse olhando o movimento.
Sorriso: É da hora morar aqui. — pareceu orgulhoso — Depois de você deixar as suas coisas, vou te levar pra conhecer.
Marina: Obrigada pela parte que me toca. — me intrometi na conversa.
??????: Se quiser te levo pra um rolê. — riu imitando o casal feliz.
Bia: Vão pra merda. — riu e logo depois deu um selinho no Sorriso.
Demoramos mais alguns minutos, e enfim chegamos. A casa era bem humilde, tanto por dentro, quanto por fora, mas era simplesmente linda demais! E não era muito diferente da antiga, diferente de muitas, eu não acordava com a vista pro mar, nem pras montanhas bonitas, e aqui não iria ser diferente. Também não era algo de se sentir pena, pera lá, até porque aquela casa tinha muita história para contar e eu amei cada dia que eu morei lá. Fui a primeira a entrar, Bia destrancou a porta, fui passando por cima dela. Deixei as coisas tudo no chão e fui procurar o quarto maior, não sou boba.
Marina: ESSE QUARTO É MEU. — falei bem alto.
Bia: Pera lá, não conversamos sobre isso. — ela veio até mim.
Marina: Não temos o que conversar, é meu. — comemorei.
Bia: Eu sou a mais velha, tenho direitos. — quis duelar.
Marina: Um ano só... — me joguei na cama — Beijo de luz, sai do meu quarto.
Bia: Tô ficando sem moral.. — disse saindo do quarto.
Marina: Já teve algum dia? — ri, indo atrás dela.
Bia: Acho que sim né... — pensou — Pelo menos por eu ser a mais velha, deveria ser assim.
Marina: Um ano só. — revirei os olhos — Aceita amiga, aceita. — peguei todas as minhas coisas e levei pra o meu quarto.
Bia: Um ano é muita coisa. — resmungou mais um pouco — E não, não aceito.
O menino que me ajudou foi embora voado assim que deixou as coisas na porta, e o Sorriso não demorou pra fazer a mesma coisa. A Bia até tentou me explicar, mas eu não estava com cabeça para isso. Como a casa já estava imobiliada, só bastou colocar as coisas no lugar. Começei colocando as fotos, dessa vez concentrada em uma parede só, depois ao poucos pelas roupas. Separei uma toalha e o meu pijama, e fui para o banheiro. Demorei alguns longos minutos, embaixo do chuveiro. Passei meu hidratante corporal, e logo depois me vesti.
Marina: Dona da casa por ser mais velha, qual é a comida de hoje? — me repousei sobre o balcão.
Bia: Lasanha de microondas. — bateu palmas.
Marina: Nada mal. — sorri — Bia, falando sério agora, qual é a sua e desse Sorriso?
Bia: Ah não sei, a gente tá se conhecendo... — deu ombros.
Marina: Bia não vem com esse papo. — suspirei — Eu te conheço, lembra disso?!
Bia: Ma, eu não sei o que está rolando. Estou apenas deixando fluir. — tentou explicar.
Marina: Você sabe muito bem o que está acontecendo. Só não quer se permitir. — a encarei.
O assunto tinha morrido ali, a Bia não era do tipo que gostava de falar de seus sentimentos, dizia ter seus motivos, se proibia de sentir, até parece que isso resolver alguma coisa não é? Se resolvesse todo mundo estava com sorte. Depois de uns 15 minutos de microondas, a lasanha ficou pronta, comemos em silêncio.
Bia: Marina, atende que eu vou pro banho. — disse depois de deixar o prato na pia.
Só dei um berro pra ser sincera, achei que era algum dos meninos.
Marina: Quem é? Sorriso ou o Desconhecido? — brinquei.
???????: Nenhum dos dois, é a Lana. — ficou na porta.
Marina: Oi, desculpa, achei que era.... — olhei pra ela — Entra poxa.
Lana: Eu fiquei sabendo que tinha menina nova chegando e quis vir, fazer uma visita. — sorriu.
Marina: Ah sim. — me levantei — Marina, e me desculpa pelo berreiro.
Lana: Prazer, Lana. — riu — Não tem problema nenhum. Então, só você que mora aqui? — perguntou.
Marina: Não. — falei — Mora eu e uma outra enjoada. — fiz careta.
Bia: EU ESCUTEI! — gritou do banheiro.
Marina: Como se eu não te dissesse isso todo dia. — falei um pouco alto.
Lana: Super amigas. — riu do nosso jeito.
Marina: Sinceridade acima de tudo — ri — E você? É daqui mesmo?
Lana: Sim. Moro um pouco mais pra baixo. Sou irmã do chefe daqui. — falou naturalmente.
Bia: Oi, prazer... — disse vindo de toalha — Você é a irmã do Maquinista né? — sorriu.
E eu sobrei.Marina: A conversa tá legal gente? — dei uma risada.
Bia: Maquinista é o dono do morro. — explicou — E ela é a irmã dele.
Lana: Infelizmente... — engoliu — As meninas só se aproximam de mim aqui por isso.
Bia: São bobas, aposto que você é mó gente fina. — tentou consolar.
Lana: Eu até tento. — deu de ombros — Mas quando vou ver, o assunto é o meu irmão.
Marina: Falsianes. — sorri — Não se preocupe, com a gente vai ser diferente.
Depois entramos em longo assunto sobre passado, presente e futuro. Já que íamos ser amigas, já tinha que chegar conhecendo. Aos poucos que eu ouvia, podia sentir que ela é uma menina bem sozinha, e tem alguns problemas pessoais, nos quais não quis especificar e também não coloquei pressão.
Sorriso: Dona, cheguei! — disse já passando pela porta.
Marina: Bater antes da madeira faz bem. — dei um sorriso esperto.
Sorriso: Porra, que inteligente você. — bateu palmas.
Marina: Eu sei, eu sei... — me gabei — Tu não pensou nisso né?! — ri.
Sorriso: Nunca na minha vida! — foi de encontro a bia.
Bia: Meu amor. — abraçou ele forte.
Sorriso: E aí minha dama. — encheu ela de beijos.
Bia: Como que foi o seu dia? — grudada nele.
Lana: Oi pra você também Sorriso. — irônica.
Sorriso: Melhor agora amor e o seu? — nem se quer ouviu a Lana.
Marina: Pra você conseguir a atenção de algum dos dois tem duas maneiras: ou você pega eles transando ou você berra, tipo... SORRISO! — gritei.
O que fez ele olhar.
Lana: Terra chegou no seu espaço? — perguntou.
Sorriso: E ai Laninha, tá aí a muito tempo? — passou a mão no cabelo.
Lana: Horrores. — riu — "Minha dama", "melhor agora"... Ui ui.
Sorriso: Cala a boca. — tampou alguma coisa nela.
Lana: E que história é essa de pegar eles transando? — riu alto.
Marina: Ixi... — ri — O sofá da antiga casa que ô diga, a se ele pudesse falar. Não só ele né... — falei baixo.
Lana: Tu já pegou? — espantada.
Marina: Pegar, pegar, 1 vez só! Mas ouvir, várias. — ri.
Lana: Não creio. — riu mais alto ainda — Já conhece o morro?
Marina: Nada. Só um pouco do que eu vi subindo. — olhei pra tv.
Lana: Bora lá, pois, prevejo um sexo selvagem, bem no balcão. — olhou.
Assim que olhei pro balcão, os dois já estavam se pegando. Passei correndo pro meu quarto, coloquei um short jeans e uma camisa de manga cumprida, meus chinelos e vazei. Dali de casa, fomos conhecer as pracinhas, depois as quadras, depois os atalhos, os becos, as lojas, as escolas, tudo, até finalmente chegar na famosa boca. Não que ela já tinha comentado comigo, mas nos jornais sempre falava assim. Paramos um pouco longe, ela só ficava me mostrando quem era quem.Lana: Aquele ali ó... — apontou — É o CV.... — suspirou.
Marina: Hm, acho que esse CV tem muita história pra contar. — olhei pra ela.
Lana: Caso antigo, que eu não consegui esquecer até hoje. — lamentou — O que é ruinzão, porque pra ele nem existo mais.
Marina: É babaca! — revirei os olhos — Sabe que não vale a pena migalhas né? — falei.
Lana: Só das migalhas já estaria satisfeita.
Marina: Ah, mas não mesmo! — firme — Ou é tudo ou não é nada. Você iria sobreviver de migalhas de pão, de biscoito, de farelo, de resto de comida? — a fitei.
Lana: Acho que sim. — afirmou.
Marina: Eita, mas tá perdida. — balançei a cabeça.
Lana: Aquele outro ali, é o meu irmão. — o menino vinha em nossa direção.
Maquinista: Lana, tá fazendo o que na rua essa hora? — sem educação.
Lana: Não começa Rael, é 22hrs ainda! — virou os olhos.
Maquinista: É Maquinista. — passou o olho por mim — E você, quem é?
Marina: Marina. — curta e grossa.
Maquinista: Fia, quando eu pergunto é a ficha completa. — se posicionou na minha frente.
Marina: Quando eu respondo, é só o que interessa. — encarei.
Maquinista: É desaforada em... — deu mais um passo — Não faz mal eu descubro de qualquer jeito.
Marina: Ótimo, então vá descobrir. — sorriso sem mostrar os dentes.
Maquinista: Fica fora do trilho, se não o trem te pega. — deu um soquinho no meu queixo.
Marina: Que medo desse trem. — cruzei os braços.
Maquinista: É bom ter mesmo, ele não avisa duas vezes. — alisou a arma.
Por incrível que pareça, eu não senti medo algum. Como já falei, medo eu não tinha nem da minha mãe vou ter dos de rua? Não! Não!
Lana: Chega! Só estamos dando uma volta. — deu as costas.
Maquinista: Em casa a gente conversa. — deu uma pausa — E a senhora, fica rente. — falou sério.
Marina: Sérião, que ele é desse jeito mesmo? — voltando pra casa.
Lana: As vezes consegue piorar. Mas hoje é um caso em especial. — deu desdém.
Marina: Ah sim.
Não iria dar uma de intrometida e perguntar o porque, não era da minha conta, mas mesmo assim ele não podia sair falando com as pessoas desse jeito. Tudo bem, ele é dono do morro, não das pessoas, eu em... Fomos subindo até uma casa mais arrumada do que a minha, ela me mostrou aonde morava e com quem, disse que o pai sumiu pelo mundo e ela não tem o menor interesse em procurar, e que a Dona Sônia valia dois em um só. Eu pedi pra que ela ficasse por ali mesmo, eu saberia voltar.
Lana: Tem certeza mesmo? — parada no portão.
Marina: Tchau Lana. — ri, acenando.
Subi rápidinho, não tive nenhum problema no caminho. Só ouvia uns caras mexendo, assoviando, isso pra mim, não me incomodava, contanto, que não me encostasse.
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