
Quando o Para Sempre Desmorona: A Dura Realidade do Amor
Capítulo 2
A mensagem veio de um número de Florianópolis.
*Meu nome é Davi Bernardes. Acredito que sou seu irmão.*
Irmão.
Por um momento, uma esperança selvagem e impossível surgiu em mim. Passei minha vida inteira no sistema de lares adotivos, acreditando que era órfã, uma garota sem passado. Depois do acidente de carro que levou minhas memórias quando eu era adolescente, não havia ninguém.
Agora, isso.
Rapidamente digitei uma resposta, meus dedos tremendo.
*Como você me encontrou?*
Esperei, meus olhos grudados na tela. Mas nenhuma resposta veio.
Afastei meu café da manhã, a torrada com gosto de papelão. O silêncio na mansão era ensurdecedor. Cada tique-taque do relógio de pêndulo no corredor ecoava o vazio no meu peito.
O dia todo, eu esperei. Por uma resposta do misterioso Davi. Por uma ligação do meu marido.
Nenhuma das duas veio.
Ao cair da noite, a esperança que havia piscado pela manhã morreu lentamente. A luz em meus olhos diminuiu com o sol poente.
Heitor não voltou para casa.
Eu vaguei pela nossa casa perfeita, um fantasma na minha própria vida. Lembrei-me de todas as vezes que ele chegou em casa mais cedo só para jantar comigo. O jeito que ele me abraçava na cozinha enquanto eu cozinhava, o queixo apoiado na minha cabeça.
Tudo isso parecia uma vida inteira atrás. Agora, havia apenas silêncio. Apenas solidão.
Os dias seguintes foram os mesmos. Heitor era uma sombra. Ele saía antes de eu acordar e voltava muito depois de eu ter caído em um sono agitado, o espaço ao meu lado em nossa cama king-size frio e vazio.
A dor dentro de mim crescia, uma dor pesada e constante. O homem que costumava notar se eu mudasse o esmalte das unhas agora mal parecia me ver.
Eu sabia que precisava falar com ele. Eu não podia viver assim, neste estado suspenso de miséria.
Esperei por ele uma noite, sentada na sala de estar escura. O relógio marcou duas horas antes de eu ouvir sua chave na fechadura.
Ele entrou, parecendo exausto. Afrouxou a gravata, os ombros caídos.
— Elara? Por que você ainda está acordada? — Ele parecia cansado, não com raiva, mas a distância estava lá.
— Precisamos conversar, Heitor.
Mantive minha voz firme, embora meu coração estivesse martelando contra minhas costelas.
— O que está acontecendo com você e... e ela? Com o Léo?
Ele hesitou, passando a mão pelo cabelo.
— É complicado.
— Eu amo você, Elara. Só você. Você sabe disso.
Ele disse as palavras, mas elas soaram ocas. Ensaiadas.
— Eu tenho que assumir a responsabilidade pelo Léo — ele continuou. — Vou dar à Carla o que ela quiser financeiramente para garantir que ele receba o melhor tratamento. Mas é só isso. É só dinheiro e responsabilidade.
Eu o encarei, procurando em seu rosto. Vi o cansaço, a culpa. Mas também o vi se afastando, construindo um muro em torno de uma parte de sua vida que não me incluía.
— Você já teve sentimentos por ela? — A pergunta escapou dos meus lábios antes que eu pudesse impedi-la, pequena e crua.
Minha respiração ficou presa na garganta. Observei seu rosto, aterrorizada com a resposta.
— Não — ele disse, finalmente encontrando meus olhos. — Foi um erro. Uma coisa de uma noite. Nada mais. Minha vida é com você, Elara. Só com você.
Uma onda de alívio me invadiu, tão poderosa que quase me deixou tonta. Eu acreditei nele. Eu queria acreditar nele.
Levantei-me e peguei sua mão, puxando-a para minha barriga lisa. Eu estava prestes a contar a ele, a compartilhar a única boa notícia no meio dessa bagunça.
— Heitor, eu...
Um toque agudo e insistente cortou o silêncio. O celular dele.
Ele puxou a mão para atender, sua expressão mudando imediatamente para uma de puro pânico.
— O quê? Estou a caminho.
Ele desligou, já se movendo em direção à porta.
— A febre do Léo está subindo. Eles acham que ele pode estar rejeitando o tratamento. Eu tenho que ir.
Ele estava indo embora. De novo.
— Vá dormir, Elara — ele disse por cima do ombro, a mão na maçaneta. — Seja uma boa menina.
Ele se foi.
Fiquei sozinha na vasta e vazia sala de estar, minha mão ainda na barriga.
— Estou grávida — sussurrei para o espaço vazio onde ele estivera.
As palavras foram engolidas pelo silêncio. Uma única lágrima traçou um caminho pelo meu rosto. Algo dentro de mim sabia, com uma certeza arrepiante, que nosso mundo perfeito havia rachado, e talvez nunca mais voltasse a ser inteiro.
Acordei na manhã seguinte com uma caixa de presente na minha mesa de cabeceira. Dentro havia um colar, um lindo pingente de diamante. Havia um bilhete.
*Me desculpe, Elara. Vou compensar você. Com amor, H.*
Uma pequena parte de mim amoleceu. Ele estava tentando. Ele ainda era o meu Heitor.
Fui até minha caixa de joias para colocá-lo. E então eu vi. O colar exatamente igual, aninhado em uma caixa de veludo. Um presente do Natal passado.
Ele nem tinha percebido que me comprou a mesma coisa duas vezes.
O pequeno calor no meu peito se transformou em gelo. Não era um presente pensado. Era um gesto de culpa, comprado por um assistente, uma solução rápida de um homem que não estava mais prestando atenção.
Como se fosse um sinal, meu telefone tocou. Era Cristina, a mãe de Heitor.
— Elara, querida. — A voz dela era como aço polido. — Fiquei tão surpresa ao saber da... situação do Heitor.
Fiquei surpresa por ela estar me ligando. Cristina Vasconcelos nunca me aprovou, a órfã sem sobrenome.
— Tem sido um momento difícil — eu disse com cuidado.
— Sim, bem — ela fungou. — Eu sempre disse que o Heitor precisava de um herdeiro. É uma pena que você não tenha conseguido dar um a ele. Mas agora ele tem um filho! Um neto para mim. Você precisa ser solidária, Elara. Vá ao hospital. Mostre um pouco de bondade à Carla e àquela pobre criança. É o mínimo que você pode fazer.
A linha ficou muda.
Fiquei ali, as palavras dela ecoando em meus ouvidos. *O mínimo que você pode fazer.*
Minha mão foi para a minha barriga, uma sensação amarga e oca se espalhando por mim. Pensei no bebê sobre o qual Heitor e eu conversamos por dois anos. Ele sempre dizia que não tinha pressa, que me queria só para ele por mais um tempo.
Agora, ele tinha um filho. Um filho doente que precisava dele. E eu era apenas... a esposa. A esposa estéril.
Mas eu não era estéril.
Eu estava carregando o filho dele. E ele nem sabia.
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