
Quando o Amor Virou Veneno
Capítulo 3
Com a pouca força que me restava, levantei-me e tropecei em direção à porta.
Cada passo era uma luta contra o meu próprio corpo.
O meu rosto estava a inchar, os meus pulmões ardiam.
Agarrei no meu telemóvel e disquei o número de Mateus.
Ele atendeu no terceiro toque, a sua voz impaciente.
"Clara, o que foi? Estou a levar a Sofia para o hospital, o tornozelo dela está horrível."
"Mateus... eu não consigo... respirar", forcejei para dizer. "É o camarão."
Houve uma pausa. Pude ouvir Sofia a choramingar no fundo.
"Você não tomou o seu anti-histamínico antes de vir? Você sabe que tem que ter cuidado. Tente beber um pouco de água. Estou quase a chegar ao hospital com a Sofia, não posso voltar agora."
A sua calma era mais cruel do que qualquer grito.
"Eu preciso... da minha... epinefrina", a minha voz era um fio. "Vou ter um choque anafilático."
"Não exagere, Clara. Você sempre fica um pouco ofegante. Ligue para uma ambulância se for tão mau assim. Tenho que desligar, preciso de me concentrar na estrada."
Ele desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel na minha mão, o ecrã a brilhar com o seu nome.
Ele desligou.
O meu marido, o pai do meu filho ainda não nascido, escolheu um tornozelo torcido em vez da minha vida.
O desespero deu-me uma última onda de adrenalina.
Saí para a rua, acenando freneticamente para o primeiro carro que vi.
Uma mulher parou. O seu rosto era um borrão de preocupação.
"Pelo amor de Deus, moça! O que aconteceu com você?"
"Hospital", foi a única palavra que consegui dizer antes de o mundo ficar preto.
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