
Quando o Amor se Torna Prisão: A Fuga de Ana
Capítulo 3
Na manhã seguinte, acordei com o som insistente da campainha. Arrastei-me para fora da cama e olhei pelo visor. Era a mãe do Léo, a Sra. Matos.
Abri a porta. Ela entrou como um furacão, o seu rosto contorcido de raiva.
"Ana! O que é que fizeste? O Léo ligou-me a dizer que o ameaçaste com o fim da relação! Como te atreves?"
Ela não me deu tempo para responder.
"O meu filho acabou de passar por cinco anos de inferno! Ele precisa de apoio, não de uma noiva ciumenta e controladora! A Sofia é uma pobre coitada, perdeu o pai por causa disto. É natural que o Léo queira estar com ela. É uma questão de honra!"
Olhei para ela, a mulher que eu tinha tratado como a minha própria mãe durante cinco anos. Levei-lhe sopa quando estava doente, acompanhei-a às compras, ouvi as suas queixas intermináveis sobre os vizinhos.
"Sra. Matos," comecei calmamente, "o seu filho passou a noite na casa da ex-namorada no dia em que foi libertado. Acha isso correto?"
"Correto?", ela bufou. "O que é que tu sabes sobre o que é correto? Eles têm uma ligação profunda. Ele sacrificou-se por ela! Tu devias entender e ser grata por ele ainda te querer!"
A sua lógica era tão distorcida que me deixou sem palavras. A gratidão era a última coisa que eu sentia. O que sentia era uma náusea profunda.
"Eu não quero mais isto," disse eu, a minha voz firme. "Acabou. Vou fazer as minhas malas."
A sua expressão mudou de raiva para descrença, e depois para puro desprezo.
"Fazer as malas? Para onde é que vais? Esta casa pertence ao meu filho. Tu não tens nada. A tua família não te quer. Vais acabar na rua, é isso que queres?"
Ela aproximou-se, baixando a voz para um sussurro venenoso.
"Não te esqueças, Ana. Foste tu que vieste ter connosco, a chorar. Nós demos-te um teto. Demos-te uma família. O Léo deu-te amor. És uma ingrata."
As suas palavras eram cruéis, calculadas para me magoar onde mais doía. Mas algo dentro de mim tinha mudado. A dor que antes me paralisaria, agora alimentava uma raiva fria.
"Tem razão," disse eu, olhando-a diretamente nos olhos. "Eu era uma tola. Mas as pessoas aprendem. Agora, por favor, saia da minha frente. Tenho coisas para fazer."
Virei-lhe as costas e fui para o quarto. Comecei a tirar as minhas roupas do armário, dobrando-as metodicamente e colocando-as numa mala velha.
A Sra. Matos ficou na porta, a gritar insultos. Falou da minha família, da minha falta de valor, da minha estupidez. Ignorei-a.
Cada peça de roupa que eu dobrava era um laço que eu cortava com o passado.
Quando a mala estava cheia, fechei-a. O som do fecho a correr pareceu definitivo. Peguei na minha mala e na minha carteira e caminhei em direção à porta.
A Sra. Matos bloqueou-me o caminho.
"Não vais a lado nenhum até o Léo chegar e resolvermos isto!"
"Saia da minha frente," repeti, a minha voz perigosamente baixa.
Ela não se moveu. Por um momento, ficámos ali, num impasse. Então, o seu telemóvel tocou. Ela olhou para o ecrã e o seu rosto suavizou-se.
"É o meu menino," disse ela, atendendo. "Léo, querido, a Ana enlouqueceu. Ela está a tentar ir embora..."
Aproveitei a sua distração. Contornei-a e abri a porta. Não olhei para trás. Saí para o corredor, chamei o elevador e, quando as portas se fecharam, finalmente soltei o ar que nem sabia que estava a prender.
Estava livre. E assustada. Mas, pela primeira vez em muito tempo, estava livre.
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