
Quando o Amor Reconstrói Corações Congelados
Capítulo 2
Ponto de Vista: Helena
Os papéis do divórcio pareciam pesados em minha pasta de couro, um peso sólido e tangível de rebelião. O documento estava disfarçado, enterrado sob uma pilha de papéis intitulada "Acordo de Consignação de Galeria e Transferência de Ativos". Parecia excruciantemente chato. Era perfeito.
Entrei no saguão da Torre Ferrari, o prédio um monumento de aço e vidro ao poder de Dante. O ar zumbia com eficiência silenciosa e medo. Todos sabiam quem eu era. Eu era a Sra. Ferrari, um fantasma que assombrava a cobertura, mas raramente descia ao coração da fera.
“Sra. Ferrari,” disse a recepcionista, seus olhos piscando com uma mistura de deferência praticada e algo mais suave. Pena. Estava em toda parte. “O Sr. Ferrari está em uma reunião.”
“Eu sei,” eu disse, minha voz uniforme. “Não vou demorar. Só preciso da assinatura dele em um documento para a galeria.”
Peguei o elevador privativo até o último andar. A subida foi silenciosa, uma ascensão suave e rápida para o céu. Este lugar foi projetado para fazer uma pessoa se sentir pequena, para lembrá-la da escala pura do domínio de Dante. Ele não era apenas um chefe do crime; ele era um rei em seu castelo, governando a cidade que se espalhava abaixo. Seus soldados eram homens em ternos caros que carregavam armas e planilhas com a mesma proficiência.
Sua assistente executiva, uma mulher chamada Maria que estava com sua família há décadas, me cumprimentou com um sorriso apertado e triste.
“Ele está com a Sra. Rossi,” ela disse, sua voz baixa. “Eles estão finalizando as rotas de transporte costeiro.”
Suas palavras confirmaram tudo. Isabella não era apenas um caso. Ela era sua parceira. Nos negócios, no poder e em todos os sentidos que importavam.
“Vai levar apenas um momento,” eu disse, minha determinação se endurecendo.
Eu ouvi antes de ver. Risadas. A risada de Dante. Era um som profundo e desprotegido que eu não ouvia direcionado a mim há anos. Ecoou por trás das imponentes portas de carvalho de seu escritório, um som casual e feliz que pareceu um soco no estômago.
Eu não bati.
Abri a porta e entrei.
Eles estavam debruçados sobre um grande mapa do litoral da cidade, espalhado por sua enorme mesa. Isabella apontava para um local, sua expressão animada. Dante estava inclinado sobre o ombro dela, a mão apoiada casualmente nas costas da cadeira dela. Eles pareciam um casal poderoso. Uma equipe.
A risada morreu em seus lábios quando ele me viu. Seus olhos, geralmente de um cinza frio e calculista, endureceram como pedra. A irritação cintilou em seu rosto. Não culpa. Nunca culpa.
“Helena. Estou ocupado.”
“Estou vendo,” eu disse, minha voz em um tom frio e nivelado que não traía nenhum do tumulto dentro de mim.
Isabella se endireitou, um pequeno sorriso de conhecimento brincando em seus lábios.
“Não seja tão duro, Dante. Sua esposa acabou de ter sua grande noite. Tenho certeza de que ela está apenas resolvendo os últimos detalhes.”
Suas palavras estavam atadas com um veneno doce, um lembrete sutil de que enquanto eu lidava com tinta e tela, ela estava aqui, na sala de guerra, ajudando-o a conquistar o mundo.
“Eu só preciso de uma assinatura,” eu disse, caminhando diretamente para a mesa dele e ignorando-a completamente. Coloquei a pasta e a abri na página de assinatura do acordo de transferência de ativos. O acordo de divórcio era a página escondida logo abaixo.
Seus olhos se estreitaram. Um lampejo de suspeita. Por um momento de parar o coração, pensei que ele veria através de tudo. Dante Ferrari não chegou onde estava por ser descuidado. Todo o seu império foi construído sobre uma base de paranoia e atenção brutal aos detalhes.
“É para a apólice de seguro da galeria,” eu disse, a mentira com gosto de cinzas na minha boca. “Eles precisam que o detentor principal do ativo assine antes de segurarem a nova coleção para transporte para a exposição de Nova York.”
Encontrei seu olhar, mantendo-o firme. Canalizei toda a dor, toda a humilhação da noite anterior em um único ponto de calma fria e indecifrável. Eu não vacilaria. Eu não o deixaria ver o terror e o triunfo guerreando dentro de mim.
Ele segurou meu olhar por mais um momento, procurando por algo. Uma rachadura na fachada.
“Dante, precisamos ligar para nosso contato na autoridade portuária antes que eles saiam para o dia,” disse Isabella, sua voz uma faca afiada e impaciente cortando a tensão. Ela tinha me salvado inadvertidamente. Ela o havia lembrado do que era verdadeiramente importante. Poder. Dinheiro. Não sua esposa insignificante e seu pequeno hobby de arte.
Ele resmungou, sua atenção voltando para o mapa. O momento foi quebrado. Eu era um incômodo, uma distração de seu trabalho real.
“Apenas me dê isso,” ele disse, pegando uma caneta de um suporte em sua mesa.
Ele nem leu o cabeçalho. Seus olhos procuraram a linha de assinatura, da mesma forma que sempre faziam. Com desdém impaciente.
Sua assinatura era um rabisco afiado e raivoso de tinta preta. Uma acusação. Uma marca. E agora, uma libertação.
Ele assinou a primeira página. Então, sem olhar, ele virou para a próxima página — a página real — e assinou novamente na linha que eu havia marcado com um pequeno e arrumado ‘X’.
Deslizei os papéis de volta para a pasta antes que ele pudesse piscar. Meus movimentos foram rápidos, precisos.
“Obrigada,” eu disse, as palavras formais e vazias.
Virei-me para sair. Ao chegar à porta, olhei para trás. Isabella estava sorrindo, um olhar presunçoso e triunfante em seus olhos. Ela achava que tinha vencido. Ela achava que estava me substituindo.
Ela não tinha ideia de que eu tinha acabado de tomar o rei, e ela era bem-vinda ao seu castelo vazio.
Não olhei para trás novamente. Saí do escritório, passei pelo olhar de pena de Maria e entrei no elevador. As portas se fecharam, me envolvendo em uma caixa espelhada.
Só então me permiti respirar. Abri a pasta e encarei sua assinatura no final da certidão de divórcio.
Ele tinha acabado de assinar o fim de quatro anos de casamento.
Ele tinha acabado de assinar a dispensa de sua esposa.
E ele não tinha a menor ideia.
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