
Quando o Amor Não É Suficiente
Capítulo 3
Passaram três dias.
Pedro não voltou. As suas chamadas eram curtas, as suas mensagens de texto, vagas.
"A Sofia ainda precisa de mim."
"O meu pai não está a aguentar-se bem."
"Ela recusa-se a comer. Só fala comigo."
Em cada desculpa, eu sentia-me a diminuir, a tornar-me mais pequena, mais insignificante.
A minha mãe, Helena, veio visitar-me. Ela trouxe uma sopa caseira que cheirava a conforto e preocupação.
"Como te sentes, querida?"
"Estou bem, mãe. O bebé está a mexer-se muito."
Ela sentou-se na beira da cama, os seus olhos a examinar o meu rosto. Ela sempre soube quando algo estava errado.
"Onde está o Pedro?"
"Com a Sofia. Ela... não está bem."
A minha mãe suspirou, um som pesado e cansado. Ela conhecia a dinâmica daquela família melhor do que ninguém. Ela casou com o meu padrasto, Ricardo, quando eu era adolescente, e viveu dez anos debaixo do mesmo teto que a Sofia.
"A Sofia sempre foi assim, Clara. Ela usa a sua fragilidade como uma arma. E o teu marido e o pai dele sempre caem na armadilha."
"Ele é o meu marido, mãe. Ele devia estar aqui." A minha voz tremeu.
"Eu sei, querida. Eu sei."
Naquela tarde, recebi alta. A minha mãe ajudou-me a vestir, a arrumar as minhas poucas coisas. O hospital ligou para o Pedro, informando-o da minha alta.
Ele disse que viria buscar-me.
Esperámos. Uma hora. Duas horas.
A minha mãe ligou-lhe. Ele não atendeu.
Finalmente, uma enfermeira entrou no quarto. "Senhora Clara, o seu marido ligou. Ele disse que ficou preso num imprevisto com a irmã. Pediu para a senhora apanhar um táxi."
Senti o sangue a fugir do meu rosto.
Um imprevisto.
A minha mãe cerrou os punhos. "Aquele irresponsável. Vamos, filha. Eu levo-te para casa."
No caminho, o silêncio no carro era denso. Quando chegámos ao meu apartamento, a primeira coisa que vi foi a ausência. A casa estava exatamente como eu a tinha deixado na manhã do acidente. Limpa, arrumada, mas sem vida. Sem a presença dele.
O meu telemóvel tocou. Era ele.
Atendi, o coração a bater com uma mistura de raiva e uma esperança estúpida.
"Clara? Já estás em casa? Desculpa, a Sofia teve uma crise. Tive de ficar."
"Uma crise?", repeti, a palavra a saber a veneno.
"Sim, ela viu uma notícia sobre o acidente na autoestrada e começou a ter um ataque de pânico. Achou que algo me tinha acontecido. Tive de a acalmar."
Ele estava a acalmar a irmã pelo pânico dela sobre um acidente hipotético, enquanto eu tinha vivido um acidente real. Sozinha.
"Pedro, eu preciso de ti aqui."
"Eu sei, eu sei. Mas ela está tão vulnerável agora. Não a posso deixar. Tenta compreender."
"Compreender o quê? Que a tua meia-irmã é mais importante que a tua mulher e o teu filho por nascer?"
"Não digas isso, Clara. Não é justo."
"Não é justo?", a minha voz subiu. "Eu estive num hospital durante três dias, Pedro! O nosso filho quase morreu! E tu não estiveste aqui! Isso é que não é justo!"
"Eu vou compensar-te, prometo. Assim que a Sofia estiver melhor."
Desliguei. Não conseguia ouvir mais.
Olhei para a minha barriga. Uma onda de proteção feroz varreu-me.
Ele não ia compensar nada. Porque ele não compreendia o que tinha quebrado.
E eu não ia deixar o meu filho crescer a pensar que era a segunda escolha de alguém.
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