
Quando o Amor Colide com o Passado Sombrio
Capítulo 3
Ponto de Vista: Liana Peres
Minha mão parou na porta do escritório de Cristiano, o carvalho pesado e frio sob meus dedos trêmulos. Meu coração era um tambor frenético contra minhas costelas. Eu não podia entrar ali. Não assim.
Peguei meu celular, meu polegar pairando sobre o contato dele. Eu tinha que consertar isso, pelo menos o suficiente para sobreviver aos próximos dez minutos. Engolindo o nó de pânico na minha garganta, digitei uma mensagem.
Eu: Me desculpe. Eu exagerei. Fiquei com medo. Não vamos terminar. Mas, por favor, sem mais conversas sobre nos encontrarmos. Ainda não.
A resposta foi instantânea, como se ele estivesse olhando para o celular, esperando.
C.A.: Graças a Deus. Liana, eu estava com tanto medo. Pensei que tinha te perdido. Sinto muito. Nunca mais vou te pressionar. Eu prometo. O que você quiser. Só não me deixe.
O alívio me invadiu, tão potente que fez meus joelhos fraquejarem. A crise foi evitada, pelo menos por enquanto. Respirando fundo e de forma trêmula, bati duas vezes na porta.
Um "Entre" abafado e ríspido respondeu.
Empurrei a porta e entrei. O escritório era vasto, com janelas do chão ao teto oferecendo uma vista deslumbrante da cidade. Livros cobriam todas as paredes. No centro da sala, Cristiano Alcântara estava de costas para mim, olhando pela janela.
Ele se virou lentamente enquanto eu fechava a porta atrás de mim. Minha respiração ficou presa. As fotos não lhe faziam justiça. Pessoalmente, sua presença era avassaladora. Ele era mais alto do que eu imaginava, com ombros largos em um suéter preto simples. Os olhos cinzentos e tempestuosos que eu conhecia das fotos estavam avermelhados, seu rosto bonito marcado pela miséria.
Ele esteve chorando.
A percepção me atingiu com a força de um golpe físico. O autor poderoso e intimidador esteve chorando por minha causa. Porque ele pensou que a garota anônima da internet o havia deixado.
"Posso ajudar?", ele perguntou, sua voz rouca. Ele pigarreou, um leve rubor subindo por suas bochechas como se estivesse envergonhado por ser pego em tal estado.
Eu não conseguia encontrar minha voz. Apenas fiquei ali, segurando a pasta contra o peito como um escudo.
"As provas da campanha", finalmente consegui sussurrar, minha voz soando estranha e pequena no escritório cavernoso. "Genoveva me enviou para sua aprovação."
Ele piscou, sua expressão indecifrável. "Certo. Coloque-as na mesa."
Corri para a enorme mesa de mogno, colocando a pasta como se fosse uma bomba. Eu podia sentir seus olhos em mim, e o escrutínio fez minha pele arrepiar. Eu só queria desaparecer.
"Pode ir", disse ele, dispensando-me, virando-se de volta para a janela.
Eu praticamente corri para fora da sala, meu coração batendo nos meus ouvidos. Enquanto fugia pelo corredor, senti uma estranha sensação de alívio. Ele não me reconheceu. Meu segredo estava seguro. Seu humor, que estava "venenoso" segundo Genoveva, parecia ter melhorado um pouco depois da minha mensagem. A ironia era sufocante.
Meu alívio, no entanto, durou pouco. Uma hora depois, Genoveva apareceu na minha mesa, jogando a pasta de volta com um baque.
"Ele as rejeitou", disse ela, sua voz tensa de irritação. "Notas vagas. 'A paleta de cores está muito fria.' 'A tipografia não tem inspiração.' Refaça-as. E preciso delas até de manhã."
Eu encarei as páginas cobertas de tinta vermelha. Sua caligrafia era tão nítida e precisa quanto sua prosa. Era uma reformulação completa. Isso levaria a noite toda.
Trabalhei enquanto o escritório se esvaziava lentamente. Cristiano saiu às seis em ponto, passando pela minha mesa sem um segundo olhar. O resto da equipe de design o seguiu logo depois, oferecendo olhares de simpatia que eu não consegui retribuir.
Logo, todo o andar estava silencioso, exceto pelo zumbido dos computadores e o clique frenético do meu mouse. A recepcionista, uma garota gentil chamada Clara, enfiou a cabeça no meu cubículo por volta das nove.
"Você ainda está aqui? Você nunca vai para casa?"
"Prazos", murmurei, sem desviar os olhos da tela.
"Bem, estou de saída. Não se esqueça de trancar tudo."
"Pode deixar. Boa noite, Clara."
As horas se misturaram. Meus olhos ardiam, e uma dor surda se instalou na base do meu crânio. Eu estava tão absorta em alinhar caixas de texto que não ouvi a porta principal do escritório se abrir. Não ouvi os passos suaves no carpete.
Só percebi que não estava sozinha quando uma sombra caiu sobre minha mesa.
Eu gritei, girando na minha cadeira tão rápido que quase caí dela.
Cristiano Alcântara estava ali, segurando uma sacola de comida para viagem, parecendo tão assustado quanto eu.
"Sinto muito", disse ele, dando um passo para trás. "Não quis te assustar. Esqueci meu caderno. Não percebi que ainda havia alguém aqui."
Meu coração estava tentando sair do meu peito. "Está... está tudo bem."
Ele franziu a testa, seu olhar caindo na minha tela, que estava cheia das provas que ele havia massacrado mais cedo. "Você ainda está trabalhando nisso?"
Eu queria gritar: Sim, porque você as odiou! Em vez disso, apenas assenti docilmente. "Precisam estar prontas para amanhã."
"A paleta de cores ainda está errada", disse ele, aproximando-se. "Precisa evocar uma sensação de pavor silencioso, não apenas... azul."
Minha mente entrou em parafuso. Minha conversa pessoal com C.A. ainda estava aberta em uma aba, minimizada na parte inferior da tela. Nossa conversa, cheia de emojis de coração e promessas de nunca nos deixarmos, estava a um clique acidental de ser exposta.
"Deixe-me mostrar", disse ele, estendendo a mão para o meu mouse.
Pânico, frio e agudo, me dominou. "Não!", gritei, minha mão voando para cobrir o mouse, meu corpo instintivamente protegendo a tela. Eu praticamente me joguei sobre minha mesa para bloquear sua visão.
A ação foi tão súbita, tão bizarra, que o fez parar. Ele congelou, sua mão pairando no ar, um olhar de profundo espanto em seu rosto.
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