
Quando a Febre Arde, e o Amor Esfria
Capítulo 3
Conduzi até ao hospital que a minha sogra mencionou.
O meu coração batia descontroladamente no meu peito.
Uma parte de mim queria acreditar que era tudo um mal-entendido.
A outra parte sabia, com uma certeza terrível, o que eu ia encontrar.
Encontrei o quarto da Sofia facilmente. A porta estava entreaberta.
Lá dentro, o Pedro estava sentado ao lado da cama, a descascar uma maçã com cuidado.
A luz do sol da manhã entrava pela janela, iluminando o seu perfil. Ele parecia cansado, mas os seus movimentos eram gentis.
A Sofia, deitada na cama, olhava para ele com uma expressão de adoração.
"Pedro, obrigada por ficares comigo a noite toda. Eu estava com tanto medo."
A voz dela era fraca e lamentosa.
"Não te preocupes. Eu estou aqui," respondeu o Pedro, sem levantar a cabeça.
Ele cortou um pequeno pedaço da maçã e levou-o à boca dela com o garfo.
A cena era tão íntima, tão doméstica.
Como se eles fossem o verdadeiro casal.
E eu era a intrusa.
A minha filha esteve com febre a noite toda, a chamar pelo pai. E ele estava aqui, a cuidar de outra mulher.
A raiva subiu pela minha garganta, a queimar.
Empurrei a porta com força. O som fez com que ambos se virassem para mim, surpreendidos.
O Pedro levantou-se de repente, a faca e a maçã caíram no chão com um baque.
"Ana? O que estás a fazer aqui?"
O seu rosto estava pálido.
"Eu é que te pergunto," disse eu, a minha voz a tremer de fúria. "A tua filha esteve no hospital a noite toda. Eu liguei-te cem vezes. E tu estavas aqui?"
A Sofia começou a tossir, o rosto a contorcer-se de dor.
"Pedro... o meu peito dói..."
O Pedro virou-se imediatamente para ela, a preocupação a tomar conta do seu rosto. "Sofia, estás bem? Vou chamar a enfermeira."
Ele ignorou-me completamente.
Como se eu não existisse.
"Pedro!" gritei, a minha voz a quebrar-se.
Ele finalmente olhou para mim, a sua expressão irritada.
"Podes parar de fazer uma cena? Não vês que a Sofia está doente? A Lia já está bem, não está? Tu és a mãe dela, podes cuidar dela. A Sofia está sozinha, não tem ninguém."
As suas palavras atingiram-me como um soco no estômago.
"Ela não tem ninguém? E eu? E a tua filha? Somos o quê para ti?"
"Ana, não sejas irracional," disse ele, a sua voz a baixar, como se estivesse a falar com uma criança birrenta. "Falamos disto em casa. Agora vai."
Ele virou-me as costas e voltou para o lado da Sofia.
Fiquei ali, paralisada, a vê-lo a confortá-la.
O mundo à minha volta parecia estar a desmoronar-se.
O homem que eu amava, o pai da minha filha, tinha escolhido outra pessoa.
E ele nem sequer sentia remorsos.
Virei-me e saí. Sem olhar para trás.
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