
Quando a Confiança Se Tornou Uma Lâmina Envenenada
Capítulo 3
As palavras de Heitor ecoavam em minha cabeça, um mantra arrepiante: "Obrigações com a família da Elisa... Famílias tradicionais, dívidas antigas." Que tipo de dívida valia o sacrifício de sua esposa, sua filha, sua integridade? Que pacto sombrio ele havia feito que me custou tudo? O pensamento se contorcia em meu estômago, um nó amargo de confusão e dor.
Eu fiquei ali, rígida em seu abraço sufocante, cada fibra do meu ser gritando em protesto. Minhas mãos, antes tão prontas para alcançá-lo, agora estavam cerradas em punhos ao meu lado, as unhas cravando em minhas palmas. Lutei contra o impulso de me libertar, de gritar, de estilhaçar a ilusão de sua preocupação. Ainda não. Eu precisava fingir. Precisava sobreviver a isso.
Lembrei-me dos primeiros dias, de como eu me contorci para me encaixar em seu mundo. Sua família rica e tradicional me olhava com um desdém mal disfarçado, uma garota adotada de classe média. Eu usava as roupas certas, aprendia a etiqueta certa, sufocava meus impulsos artísticos peculiares, tudo para ser "digna" de Heitor, de seu nome. Pensei que estava construindo um lar, um futuro. Em vez disso, eu era apenas um adereço em sua vida cuidadosamente construída.
Depois que Alícia nasceu, o impulso artístico, há muito reprimido, voltou com força. Começou em segredo, tarde da noite, alimentado pelo zumbido silencioso da babá eletrônica. Esboçando, desenhando, derramando minha alma em telas digitais. Heitor me encontrou uma noite, pincel na mão, um sorriso surpreso no rosto. "Adélia, isso é... incrível", ele dissera, seus olhos cheios de uma admiração desconhecida. "Você deveria fazer mais. Não esconda seu talento." Ele me incentivou, ou assim eu pensava. Ele até me ajudou a criar minha presença online, escolheu o nome "Desejo".
A ironia amarga de tudo isso. A mesma coisa que ele incentivou, a semente que ele ajudou a plantar, era agora a colheita que ele estava fazendo com Elisa. Ele não via minha arte como talento; ele a via como um ativo, algo a ser explorado, a ser roubado. Ele traiu não apenas a mim, mas a parte mais pura de mim mesma, a paixão que me definia.
Um sussurro escapou dos meus lábios, tão baixo que não tinha certeza se era audível. "Meu amor por você... morreu esta noite, Heitor."
Ele enrijeceu ligeiramente, um lampejo momentâneo de alarme em seus olhos. Então, ele riu, um som forçado e leve. "Garota boba. Você está apenas chateada. Vamos, vou te preparar um banho quente."
Afastei-me dele, meu rosto uma tela cuidadosamente em branco. "Sim, um banho parece ótimo. Vou ficar bem."
Ele pareceu tranquilizado, sua preocupação rapidamente substituída por um sorriso complacente. Ele achou que me tinha de volta sob seu controle. Ele achou que eu voltaria à linha, mansa e obediente. Ele estava errado. Eu estava desempenhando um novo papel agora: a esposa obediente, esperando que seus papéis de divórcio chegassem.
Os dias seguintes se transformaram em uma névoa de sorrisos forçados e palavras cuidadosamente escolhidas. Evitei Heitor o máximo possível, refugiando-me no quarto de hospital de Alícia, meu celular apertado na mão, esperando a ligação de Jeremias. Ele estava trabalhando rápido, coletando tudo o que precisava.
Elisa, encorajada por seu recente triunfo e pelo apoio inabalável de Heitor, reapareceu alguns dias depois, um brilho triunfante nos olhos. Ela usava um vestido de seda sob medida, o cabelo perfeitamente penteado, irradiando um ar de superioridade presunçosa. Ela até teve a audácia de sugerir que fôssemos juntas a uma gala de arte pública.
"Isso acabaria com todos os rumores, Adélia", ela chilreou, sua voz falsamente doce. "Mostraria a todos que ainda somos amigas. E sabe, uma pequena aparição pública faria maravilhas pela sua... imagem. Já que você está tão por fora."
Meu estômago se contraiu. Minha imagem? Ela queria dizer minha humilhação. O pensamento de ficar ao lado dela, um testemunho vivo de seu roubo, revirava meu estômago. Lembrei-me do nosso passado. Elisa e eu, antes inseparáveis. Ela era a socialite glamorosa, eu a artista quieta. Ela sempre fora um pouco dramática, um pouco egocêntrica, mas eu descartava isso como excentricidade inofensiva. Ela era minha única amiga de verdade no mundo sufocante de Heitor.
Lembrei-me de sua vida "perfeita", das festas luxuosas, das roupas de grife, do charme sem esforço. Mas sob a superfície, a fortuna de sua família vinha diminuindo. Ela frequentemente falava de preocupações financeiras, de glórias passadas se esvaindo. Eu costumava confortá-la, sem saber da inveja que apodrecia sob seus sorrisos.
Até me lembrei dela no meu casamento, uma madrinha em um vestido cuidadosamente escolhido, derramando uma lágrima durante meus votos. Olhando para trás, era uma lágrima de alegria ou de outra coisa? Uma possessividade sutil, quase imperceptível, em seu olhar quando olhava para Heitor. Um toque casual que demorava demais. Descartei tudo como afeto fraternal. Agora, cada memória estava manchada, distorcida em algo sinistro.
Ela viu minha hesitação. Seus olhos se estreitaram, a doçura falsa substituída por um brilho de aço. "Não se esqueça, Adélia. Sua filha ainda está... vulnerável. Heitor é muito protetor com o cuidado dela. Você não gostaria que nada atrapalhasse isso, não é?"
A ameaça velada atingiu meu peito em cheio, espremendo o ar dos meus pulmões. Alícia. Sempre Alícia. Minha filha era seu escudo, sua arma contra mim. Eu não tinha escolha.
"Tudo bem", eu disse, minha voz quase inaudível. "Eu vou."
A gala foi um borrão de luzes piscando e conversas sussurradas. Foi uma humilhação pública, perfeitamente orquestrada. Assim que saí do carro, um envelope discreto foi pressionado em minha mão. Os papéis legais de Jeremias. Assinados e datados. Uma pequena centelha de triunfo, um sopro de liberdade, perfurou o pavor sufocante. Estava feito. O divórcio estava protocolado. O primeiro passo. Heitor ainda não sabia.
Lá dentro, a cacofonia de conversas educadas e taças tilintando era ensurdecedora. Eu os vi imediatamente. Heitor, com o braço em volta de Elisa, ambos radiantes, posando para fotógrafos. Ele olhava para ela com uma adoração que nunca me mostrara em público. Ele nunca sequer segurou minha mão na frente das câmeras. A multidão zumbia, bajulando-os, chamando-os de "o novo casal poderoso", "a dupla de ouro do mundo da arte". A injustiça era uma dor surda, depois uma pontada aguda.
Senti um suor frio brotar na minha pele. Eu não conseguia respirar. Parecia que eu estava me afogando em um mar de seus sorrisos presunçosos e câmeras piscando. E pior, ouvi os sussurros. "Não é aquela Adélia Moura? Ela não tentou processar a escola?" "Ela parece... desgrenhada." "Que pena, tentando se agarrar ao marido. Elisa é claramente seu verdadeiro amor." O público, antes meus fãs, agora me via como uma intrusa patética, uma ex-esposa ciumenta.
Tentei desaparecer no fundo, me tornar invisível. Mas uma repórter, encorajada pela fofoca, me encurralou. "Sra. Moura", ela chilreou, enfiando um microfone na minha cara, "fontes dizem que suas acusações anteriores de plágio de arte eram infundadas. O que você tem a dizer sobre isso?"
Antes que eu pudesse responder, Elisa apareceu, seu rosto uma imagem de preocupação fingida. "Adélia, querida, você está bem? Parece um pouco fraca." Ela sorriu docemente para a repórter. "Minha pobre amiga passou por tanta coisa. É verdadeiramente trágico, a forma como sua saúde mental se deteriorou. Estamos todos apenas tentando apoiá-la, guiá-la através deste momento difícil." Ela apertou meu braço, suas unhas cravando na minha pele. "É compreensível, claro. O estresse do... acidente de sua filha. Uma pena, realmente. Aquela pobre menina problemática."
As últimas palavras, inocentes o suficiente para um estranho, me atingiram como um golpe físico. Pobre menina problemática. O tom desdenhoso, a insinuação sutil de que Alícia era de alguma forma culpada, que seu bullying era um sintoma de seu "problema".
Meu sangue gelou. O público, sempre tão rápido para julgar, assentiu com simpatia para a atuação de Elisa. Os sussurros ficaram mais altos. "Pobre Elisa, lidando com uma louca." "E pena do filho dela, Gustavo, tendo que conviver com uma criança tão difícil."
Era isso. Esse era o limite. Eles podiam roubar minha arte, meu marido, minha reputação. Mas eles não iriam, não podiam, manchar o nome da minha filha. Não enquanto eu tivesse fôlego no corpo.
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