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Capa do romance Quando a Confiança Se Tornou Uma Lâmina Envenenada

Quando a Confiança Se Tornou Uma Lâmina Envenenada

Após o coma da filha e acusações de plágio, busquei refúgio no campo, confiando no apoio do meu marido. Dois anos depois, descobri a traição: ele e minha melhor amiga roubaram minha arte e causaram o acidente da menina. Com a vida dela em risco e sob chantagem, ele tentou me deixar sem nada no divórcio. Porém, com o auxílio jurídico do meu irmão, o jogo virou. Ele pensou ter me vencido, mas saí daquela união com todo o patrimônio e pronta para a vingança.
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Capítulo 1

Meu marido me disse para me esconder em nossa casa de campo depois que minha filha entrou em coma. Ele disse que cuidaria da tempestade na mídia e das acusações de plágio contra mim. Eu confiei nele.

Dois anos depois, vi minha melhor amiga em um outdoor na Avenida Paulista, recebendo um prêmio pela minha arte, com meu marido a aplaudindo na multidão.

Ao ouvir a comemoração deles, descobri a verdade horrível: eles orquestraram o "acidente" da minha filha, roubaram o trabalho da minha vida, e meu marido planejava desligar os aparelhos que mantinham minha filha viva.

Ele achou que me tinha encurralado, ameaçando a vida de nossa filha para forçar meu silêncio.

Ele até me fez assinar um acordo de divórcio, pensando que estava me tirando tudo.

O que ele não sabia era que meu irmão, um advogado, já havia protocolado um conjunto diferente de papéis.

E eu tinha acabado de sair de lá com tudo.

Capítulo 1

Meu mundo não se despedaçou com um estrondo, mas com um baque surdo e nauseante — o som do corpo pequeno da minha filha batendo no chão depois de ser empurrada. Disseram que foi um acidente. Eles mentiram. Tudo era uma mentira.

Eu era Adélia Moura, conhecida online como 'Desejo', uma quadrinista com milhões de seguidores. Meus mundos fantásticos eram minha fuga e, por um tempo, também foram os da minha filha Alícia. Ela tinha meu talento, minha paixão, mas era um espírito forte por si só.

Então, a escola ligou. Alícia, minha menina brilhante e artística, estava em coma, havia caído da sacada do segundo andar. A escola sussurrou sobre uma briga, a arte de um colega e Alícia sendo falsamente acusada de plágio. Minha Alícia, que derramava sua alma em cada esboço.

Corri para a escola, a fúria de uma mãe queimando em minhas veias. Exigi respostas, justiça. Mas a escola já havia decidido. Eles me mostraram um vídeo seletivamente editado, um clipe distorcido que me pintava como uma mãe agressiva e histérica. Da noite para o dia, fui "cancelada". A internet, antes meu santuário, se transformou em uma turba, acusando-me de plágio também. O cyberbullying foi implacável, uma tempestade digital consumindo minha reputação.

"Adélia, você precisa se afastar", Heitor, meu marido, havia dito, sua voz calma, tranquilizadora. Ele era a âncora na minha tempestade, ou assim eu pensava. "Deixe que eu cuido disso. Você cuida da Alícia. Vá para a casa de campo. Foque na sua arte, prove que todos estão errados."

Eu me agarrei às suas palavras, à sua promessa. Ele era meu executivo corporativo bonito e carismático, de família tradicional. Ele sabia como navegar neste mundo. Eu confiei nele. Eu me retirei, me enterrando na isolada casa na serra, tornando-me um fantasma para o mundo, uma sentinela silenciosa ao lado da cama de Alícia. Derramei minha dor e minha luta em minha arte, uma tentativa desesperada de encontrar consolo e provar meu valor. Heitor me visitava ocasionalmente, trazendo notícias, sempre vagas, sempre o suficiente para me manter com esperança, acreditando que ele estava lutando por nós.

Dois anos. Dois longos e silenciosos anos.

Alícia ainda estava ligada a máquinas em uma ala hospitalar especializada, a poucos metros da casa de campo. Eu estava saindo de uma visita de rotina, meu coração uma dor oca, quando vi. Uma tela enorme na Avenida Paulista, brilhando com cor e luz. Minha arte. Meu estilo distinto, meus personagens, minha alma derramada em uma tela. Mas não era meu nome sob os holofotes.

Era Elisa Carvalho, minha melhor amiga, recebendo um prestigioso prêmio de arte. Meu estômago despencou como uma pedra no gelo. Ela estava sorrindo, banhando-se nos aplausos, segurando um troféu que deveria ser meu. E lá, na plateia, aplaudindo mais alto que todos, radiante de orgulho, estava Heitor. Meu marido.

O ar sumiu dos meus pulmões em um suspiro rasgado. O mundo girou, as luzes brilhantes da cidade se tornando um borrão de traição.

Meus pés se moveram por conta própria, uma necessidade primitiva por respostas me guiando pelas ruas movimentadas. Me vi em frente ao elegante prédio corporativo de Heitor, na Faria Lima, o mesmo prédio onde ele me garantiu que estava "cuidando de tudo". Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola.

Passei pelas portas giratórias, minha visão se estreitando em um túnel. Quando cheguei ao seu escritório, a porta estava entreaberta. Ouvi vozes, risadas, o tilintar de taças. Meu sangue gelou.

"A nós, Heitor", a voz de Elisa, doce como mel, chegou aos meus ouvidos. "Por termos conseguido. Quem diria que o 'hobby' da Adélia seria tão lucrativo?"

Minhas pernas cederam. Encostei-me na parede fria, a respiração presa na garganta.

Heitor riu, um som que antes eu achava reconfortante, agora carregado de veneno. "Ela facilitou tudo. Tão confiante. E aquela filhinha patética dela. Honestamente, uma bênção disfarçada, tirá-la do caminho por um tempo."

As palavras me atingiram como golpes físicos, cada uma um martelo estilhaçando minha realidade. Alícia. Meu coma. Sua 'bênção disfarçada'.

"E o Gustavo", Elisa continuou, com um tom presunçoso. "Ainda não acredito que ele conseguiu empurrá-la sem ninguém ver. Genial. E ainda o livrou de problemas."

Gustavo. O filho de Elisa. O valentão. Ele empurrou Alícia. Minha Alícia. Minha filha. Meu coração se contraiu, uma dor lancinante rasgando meu peito. Não foi um acidente. Foi deliberado.

Fechei os olhos com força, um grito silencioso preso na garganta. Minha arte, minha vida, minha filha, minha confiança — tudo roubado, pisoteado e ridicularizado. O amor que eu sentia por Heitor se transformou em um veneno amargo. Ele não era minha âncora; ele foi quem cortou minhas cordas e me viu afogar.

Meu celular parecia pesado em minha mão trêmula. Disquei o único número que importava agora. Jeremias Bastos, meu irmão adotivo. Ele era um advogado de sucesso, perspicaz e inabalável.

"Jeremias", minha voz era um sussurro rouco, quase irreconhecível. "Preciso da sua ajuda. Quero o divórcio. E preciso lutar contra eles."

Houve uma pausa do outro lado, depois sua voz calma e firme. "Adélia? O que aconteceu?"

Engoli em seco, forçando as palavras a saírem. "Tudo. Eles levaram tudo. E machucaram a Alícia."

Ele ouviu, quieto, pacientemente. Quando terminei, sua voz estava mais fria do que eu jamais ouvira. "Eu vou te ajudar. Com uma condição. Você e a Alícia vêm morar comigo. Não vou deixar nada acontecer com vocês duas de novo."

A condição pareceu uma tábua de salvação, um porto seguro. "Sim", engasguei. "Sim, qualquer coisa."

Jeremias não perdeu um segundo. As engrenagens da justiça, ou pelo menos do sistema legal, começaram a girar. Ele era metódico, preciso, planejando cada passo. Senti uma centelha de força que não sabia que possuía. A dor ainda era uma ferida aberta, mas uma nova determinação estava se solidificando ao redor dela. Eu jogaria o jogo deles, mas eu venceria.

Mais tarde naquela semana, voltei para a casa de campo, a falsa tranquilidade agora um eco zombeteiro. Heitor estava lá, vibrando com uma energia que eu não via há dois anos, uma doçura nova e enjoativa em seu sorriso. O cheiro enjoativo do perfume caro de Elisa grudava nele, um fedor podre que revirava meu estômago. Ele provavelmente achou que eu não notaria. Ou talvez, ele simplesmente não se importasse mais.

Engoli a bile que subia pela minha garganta. Meu rosto era uma máscara de neutralidade cuidadosa. Eu precisava de algo dele, algo crucial para o plano de Jeremias. Eu tinha que fingir, só por mais um pouco.

"Heitor", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Eu vi uma coisa hoje. Em uma tela na cidade. A Elisa... com a minha arte."

Ele vacilou, apenas um pouco, um sinal que eu teria perdido há dois anos. Agora, eu via tudo. "Adélia, querida", ele começou, sua voz carregada com o tom paternalista que eu agora reconhecia como um precursor de suas mentiras. "É só um mal-entendido. Ela tem me ajudado a gerenciar algumas de suas peças antigas. Você estava... indisponível. Sabe, com a Alícia."

"Indisponível?" Minha risada foi curta, aguda, desprovida de humor. "Você quer dizer, presa neste mausoléu porque minha filha estava em coma, enquanto você e a Elisa desfilavam com meu trabalho por aí?"

Seu sorriso vacilou. "Não foi assim. Estávamos tentando manter seu nome fora do escândalo. Proteger você."

"Me proteger?" Minha voz se elevou, um tom perigoso se insinuando. "Deixando a Elisa levar o crédito pela minha arte? Deixando-a lucrar com o meu talento?"

"Adélia, por favor", ele disse, aproximando-se, sua mão buscando a minha. Recuei como se estivesse queimada. "Não seja dramática. Eu posso resolver isso. Podemos dizer que foi uma colaboração. Te trazer de volta aos olhos do público aos poucos."

"Não", sibilei, minha voz tremendo de fúria contida. "Chega de mentiras. Chega de 'mal-entendidos'. Vou tomar medidas legais. Medidas legais de verdade. Para reivindicar o que é meu."

Seus olhos se arregalaram, um lampejo de surpresa genuína ali. "Medidas legais? Adélia, não seja tola. Isso só vai criar mais problemas. Para todos nós. E a Elisa... ela está frágil agora. Ela não quis fazer mal."

"Mal?" Cuspi a palavra, a represa da minha compostura se rompendo. "Ela quis fazer mal quando o filho dela empurrou a Alícia daquela sacada? Ela quis fazer mal quando deixou ele se safar?"

Heitor congelou, seu rosto perdendo a cor. "Do que você está falando? A queda da Alícia foi um acidente. Nós encobrimos para te proteger de mais escândalo." Ele até conseguiu soar ofendido. "Você não se lembra? A escola disse que foi legítima defesa."

"Legítima defesa?" Eu o encarei, vendo-o de verdade pela primeira vez. A crueldade casual em seus olhos, a facilidade com que ele descartava o sofrimento da minha filha. "Você mente com tanta facilidade, Heitor. Eu ouvi você. Eu ouvi tudo. O filho da Elisa, o Gustavo, empurrou a Alícia. E você encobriu. Você deixou acontecer. Você a deixou pegar minha arte, minha vida, enquanto minha filha jazia quebrada."

Seu rosto se contorceu, uma máscara de choque e indignação fingidos se instalando em suas feições. "Adélia, você está delirando. Você está estressada. Você está imaginando coisas." Ele tentou agarrar meu braço, para bancar o marido preocupado. Eu o afastei com um puxão.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a porta se abriu com um estrondo. Elisa. Ela estava lá, pálida e trêmula, seus olhos arregalados com o que parecia ser medo. Mas agora eu sabia. Era atuação.

"Adélia", ela sussurrou, sua voz quase inaudível, carregada de remorso fingido. "Sinto muito. Eu ouvi... só vim ver como o Heitor estava. Queria me desculpar pelo fiasco da Paulista. Foi tudo um erro, um mal-entendido." Seus olhos correram para Heitor, um apelo silencioso. Ela até conseguiu derramar uma lágrima. "Eu sei o quanto sua arte significa para você. Mas eu estava desesperada. Minha família... as dívidas... Heitor estava apenas tentando me ajudar, Adélia. Pela nossa velha amizade."

Heitor, sempre o cavalheiro, colocou a mão no ombro dela, um sinal silencioso de apoio. "Adélia, viu? Ela está claramente chateada. Vamos apenas conversar sobre isso, com calma." Ele me lançou um olhar significativo, um aviso. Então, virou-se para Elisa, sua voz suavizando. "Elisa, por que você não me espera na sala? Adélia e eu só precisamos de um momento."

Ele nos deixou, fechando a porta atrás de si, me deixando sozinha com a víbora. A fachada de Elisa desmoronou instantaneamente. Seus olhos, não mais lacrimejantes, endureceram em fendas frias e calculistas.

"Você realmente ouviu, não foi?" Sua voz era baixa, desprovida de qualquer pretensão. "Não importa. Ninguém vai acreditar em você. Você ainda é a artista louca que atacou um diretor de escola." Ela se aproximou, sua voz caindo para um sussurro venenoso. "E sua preciosa Alícia? Ela mereceu o que teve. Pequena plagiadora. Sempre tentando roubar o brilho do Gustavo. E, francamente, ela estava atrapalhando. Sempre uma distração para o Heitor. Ele deveria ter se casado comigo anos atrás."

As palavras me cortaram. Minha Alícia mereceu. Minha visão ficou vermelha. Toda a dor, todo o sofrimento silencioso, todos os anos de fingimento, explodiram. Eu não pensei; eu agi. Minha mão aberta encontrou sua bochecha com um estalo doentio.

Elisa ofegou, agarrando o rosto, uma expressão caricata de choque se espalhando por ele. Por uma fração de segundo, ela pareceu genuinamente pega de surpresa. Então, seus olhos se estreitaram. Ela se lançou sobre mim, arranhando meu rosto. Eu lutei, empurrando-a para longe, um grito primitivo rasgando minha garganta. Ela tropeçou, caiu para trás, batendo em uma mesa antiga com um estrondo antes de desabar no chão com um lamento dramático.

A porta se abriu novamente. Heitor. Seus olhos pousaram em Elisa, amassada no chão, depois em mim, minhas mãos ainda levantadas, meu peito arfando.

"Adélia! O que você fez?!" Sua voz era um rugido. Ele correu para o lado de Elisa, me ignorando completamente. "Elisa, querida, você está bem?"

Elisa gemeu, apontando um dedo trêmulo para mim. "Ela... ela me atacou! Sem motivo nenhum! Ela está completamente louca!"

"Não!" Tentei explicar, minha voz rouca. "Ela disse... ela disse que a Alícia mereceu! Ela disse que o Gustavo a empurrou! Ela admitiu tudo!"

Heitor nem olhou para mim. Seus olhos estavam fixos em Elisa, uma fúria protetora em seu rosto. "Saia, Adélia! Saia da minha frente! Você é um perigo para todos!" Ele me empurrou, com força, me jogando contra a parede. Minha cabeça bateu no gesso com um baque surdo, a dor explodindo atrás dos meus olhos.

"Ela insultou a Alícia!" Tentei novamente, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Ela disse que ela teve o que mereceu!"

"Eu não me importo com o que ela disse!" Heitor gritou, seu rosto contorcido de raiva. "Você a atacou! É isso que sua paranoia fez! Você está doente, Adélia. Verdadeiramente doente."

Ele pegou Elisa nos braços, confortando-a, de costas para mim. Era como se eu nem estivesse ali. Caí no chão, minha cabeça latejando, uma dor profunda se espalhando pelo meu corpo. O homem que eu amava, o homem que prometeu me proteger, a escolheu. Ele escolheu a mulher que se vangloriava abertamente do sofrimento da minha filha.

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