
Prisioneira do Passado
Capítulo 2
O médico entregou-me o relatório do teste de paternidade, o seu olhar era de pena.
"Sinto muito, Sra. Sofia. O feto não tem relação biológica com o seu marido, o Sr. Miguel."
As suas palavras foram calmas, mas cada uma delas caiu sobre mim como uma pedra.
Eu olhei para o papel na minha mão. A conclusão estava lá, em preto e branco, uma verdade inegável.
O bebé que eu carregava há três meses não era do meu marido.
Eu sabia disso. Eu sempre soube.
O que eu não esperava era que Miguel, o homem com quem eu estava casada há cinco anos, fizesse um teste de paternidade sem me dizer nada.
O meu telemóvel vibrou na minha mala. Era uma mensagem dele.
"Sofia, estou no café em frente ao hospital. Traz o relatório. Precisamos de conversar."
Eu respirei fundo, o ar do hospital parecia pesado e difícil de engolir. Dobrei o relatório e coloquei-o na mala.
Atravessei a rua, o sol da tarde era forte. O café estava quase vazio. Miguel estava sentado perto da janela, de costas para mim.
Ele parecia calmo, a sua postura era a mesma de sempre, direita e controlada.
Sentei-me à sua frente. Ele não se virou para me olhar. Os seus olhos estavam fixos na rua movimentada lá fora.
"Mostra-me," ele disse, a sua voz era baixa e sem emoção.
Eu tirei o relatório da mala e empurrei-o pela mesa.
Ele pegou no papel, os seus dedos longos e finos a segurá-lo com firmeza. Ele leu-o em silêncio. A sua expressão não mudou.
"Então é verdade," ele disse finalmente, colocando o relatório na mesa.
"É," eu respondi. A minha garganta estava seca.
"De quem é?"
A pergunta pairou no ar entre nós, pesada e desconfortável.
Eu não respondi. Não conseguia.
Ele finalmente virou a cabeça e olhou para mim. Os seus olhos, que antes me olhavam com tanto amor, estavam agora frios, como se estivesse a olhar para uma estranha.
"Sofia, nós estamos casados há cinco anos. Eu pensei que nos conhecíamos."
"Nós conhecemo-nos, Miguel."
"Não. Aparentemente não," ele disse, um sorriso amargo a torcer-lhe os lábios. "Vamos divorciar-nos."
As palavras saíram da sua boca com uma facilidade assustadora.
"Divórcio? Assim, sem mais nem menos?"
"O que é que esperavas? Que eu criasse o filho de outro homem? Que eu fingisse que nada aconteceu?" A sua voz subiu um pouco, a sua calma a começar a rachar.
"Eu não te pedi para fazeres isso."
"Então o que é que queres, Sofia? Queres que eu te perdoe? Queres que eu compreenda?" Ele riu, um som oco e sem alegria. "Não há nada para compreender aqui. Tu traíste-me."
"As coisas não são assim tão simples."
"Então simplifica-as para mim!"
O silêncio voltou a instalar-se. Eu olhei para as minhas mãos na mesa. Elas tremiam ligeiramente.
"Eu não posso," eu sussurrei.
Miguel levantou-se. Ele pegou no seu casaco do encosto da cadeira.
"O meu advogado vai entrar em contacto contigo. Eu quero o divórcio o mais rápido possível. Não quero nada de ti, e não te vou dar nada. A casa fica para mim. Foi um presente dos meus pais."
Ele virou-se para sair.
"Miguel," eu chamei.
Ele parou, mas não se virou.
"O bebé... Eu vou abortar."
Ele ficou em silêncio por um momento. Depois, sem olhar para trás, ele disse: "Isso é problema teu."
E ele saiu do café, deixando-me sozinha com o relatório de paternidade e o eco das suas palavras.
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