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Capa do romance Prazer Infinito

Prazer Infinito

Magno é um viajante temporal que reencontra Ilana em múltiplas eras e realidades. Suas memórias se fundem enquanto ele redescobre o desejo em cenários distintos, desde os engenhos coloniais do Brasil até festas libertinas com Dom Pedro e a Marquesa de Santos. Perseguidos por religiosos ou vivendo o auge do século XX, os amantes enfrentam perigos e prazeres intensos. Como esses destinos cruzados se conectarão através dos séculos em uma busca incessante?
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Capítulo 3

Acho que se existem outras vidas, estivemos juntos em todas, no passado. Como eu sou escritor e muita coisa surgia em meus pensamentos, era difícil acreditar que alguma coisa era lembrança de outra vida e não apenas uma invenção da minha criatividade confusa. Ainda assim, algumas coisas eram tão vividas que pareciam memórias. Era diferente, mas ainda a sua alma estava lá. Eu podia sentir. Outras épocas, outras realidades. Mas igual amor e desejo. E eu sempre escrevia. Para ti e por ti. Era sempre merecedora de qualquer coisa que não se podia tocar, que não se podia falar, que só se podia ao impossível comparar.

Na beira de um lago, no meio da natureza, sem nossas roupas, apenas a luz do Sol em nossos corpos. O seu cheiro era sempre o mesmo. Sempre o mesmo gosto. Diferente de qualquer outro. Para mim aquilo era único. Não era possível haver prazer se não houvessem aquelas sensações. A pele arrepiada. O toque leve de um no outro. A suavidade que atiçava e em pouco tempo se tornava mais selvagem. Com beijos profundos e longos. Com a excitação e as reações dos corpos ao desejo mútuo. As mãos que queriam segurar todo o corpo do outro, até conseguirem agarrar, apertar, levantar e encaixar perfeitamente um no outro. Era o primeiro ápice. Marcava o fim do início e o início da unidade. Era quando nos tornávamos um só e não sabíamos mais onde começava um e onde acabava o outro.

Enxergar seus olhos, depois de fechar por um tempo e reabrir, enquanto fazíamos amor, era como mergulhar profundamente na sua alma. Ainda assim, quando mudávamos de posição e eu podia ver seu dorso, te deixar inclinada e perceber cada músculo seu tremendo a cada movimento mais forte era também uma outra forma de me sentir no paraíso.

E seu gemido.

Sua voz era como uma linda melodia aos meus ouvidos e eu podia escutá-la mesmo sem você falar. Mas essa mesma voz enquanto gemia de prazer era algo indescritivelmente angelical. Era como se um anjo existisse e ele pudesse transferir sua graça para o prazer carnal. Um som.

Que podia me fazer sentir prazer, sem me tocar.

Mas era o conjunto de tudo isso que parecia o mais improvável encontro do universo. Como alguém poderia fazer o que você fazia com todos os meus sentidos, ao mesmo tempo?

Era tudo!

Não só tudo que eu precisava, mas tudo que eu vivia, que eu respirava! Era minha verdadeira jornada e minha eterna morada.

O tempo passava e a vida trazia mais rotina, desencontros, dificuldades. Mas uma coisa permanecia: o olhar.

O sexo é bom, uma delícia, a materialização última do desejo. Mas o olhar... A gente, em qualquer momento, podia se comer com o olhar, se devorar. Eram os olhos que indicavam tudo. Era nossa principal comunicação e a mais comum origem do nosso prazer. Através do olhar ela mergulhava dentro de mim e eu dentro dela. Palavras, muitas vezes pouco importavam. O encontro das nossas almas. Tão profundo que depois disso, já podíamos no olhar com os olhos fechados. Os outros sentidos também conseguiam nos trazer a sensação desse olhar.

Ele só se perdia quando não a via. O brilho nunca era o mesmo.

Nos meus sonhos chego a lembrar de cada momento em que seus olhos deixavam o foco de algo de lado e se dirigiam de encontro aos meus. Cada chegada, cada novidade, cada conquista, cada notícia, cada comentário simples. Tudo era motivo de transformação. Do vazio ao transbordo.

E muitas vezes a vida nos parece injusta, de várias formas, mas o fato de não podermos ter sempre fácil e por perto o prazer do olhar de um pro outro, em especial.

E o meu maior medo era o de que um dia seu olhar não fosse mais meu. Que o brilho se perdesse. Que a mesma mágica que o despertou, também pudesse adormecer.

Um desespero muito grande me bateu com essa constatação, mas depois, um outro pensamento me ocorreu. Num mundo tão caótico quanto o nosso, imaginar que tenho a oportunidade de ter esse olhar, hoje, no presente, já parece algo tão absolutamente incrível, que poderia parecer presunção minha exigir que ele pudesse ser eterno. Tanta coisa acontece na vida de todos, mudanças, acidentes, crises, doenças. Não era possível a garantia da felicidade eterna. Mas eu podia me dizer feliz. E isso já é uma dádiva. Sorte maior ainda a continuidade. E bênção infinita poder ter esse olhar, os dois bem velhinhos, um olhando o olhar do outro se encerrar pra sempre, juntos.

Talvez possa ser a maior conquista de uma vida, o maior presente. Mas ainda assim, aquele olhar estava ali e era meu. Agora! Todo dia. Cada dia mais! Como se isso fosse possível.

O olhar que conseguia esquentar. O olhar que conseguia despir. O olhar que conseguia amar. Fonte de energia.

Um olhar tão importante quanto a água que eu bebo, quanto o ar pra respirar.

E tão simples olhar.

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