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Capa do romance Por causa de um beijo

Por causa de um beijo

Após a morte enigmática de sua irmã Eva, Filipa mergulha em escritos deixados para trás, buscando desvendar a identidade do culpado e a motivação do crime. A trama se desenrola em uma arena de competições intensas, onde jovens lutam pelo prêmio máximo. Nesse cenário de adrenalina, surgem laços de amizade e paixões, mas também traições profundas que culminam em um terrível assassinato. Filipa precisa conectar as pistas antes que seja tarde demais.
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Capítulo 2

– Você realmente está pronta, Eva? Acha que vai conseguir vencer este ano o festival de Avaluni?

– Eu fiquei os dois últimos anos seguidos em segundo lugar, Filipa. Não venci a última competição por um deslize bobo meu. Ainda pergunta se estou pronta? Que questionamento mais sem sentido, minha irmã? Eu sempre estive pronta.

– É que fico preocupada com você, desculpe. Você ficou cheia de hematomas na última competição, mas pior do que isso, ficou tão triste… Fiquei triste com você.

– Eu sei. – Eva abraçou carinhosamente à irmã. – Se não fosse você ao meu lado, não sei o que seria de mim. Mas, os hematomas fazem parte. São provas da minha força. – sorriu.

Eva tinha vinte anos e Filipa tinha três anos menos que a irmã. Moravam com a avó Ana há dez anos. A mãe das meninas, que se considerava uma grande atriz, abandonou-as com a avó para seguir sua carreira no teatro. Entrou para uma companhia que viajava o mundo e para entregar-se de cabeça a sua carreira, decidiu abdicar-se do papel de mãe.

Entre muitas brigas e discussões com dona Ana, a mãe das meninas fora irredutível e as deixou para trás sem nenhum remorso. As meninas sofreram muito com isso, principalmente Filipa que era bem menor que Eva. A garotinha chorava todos os dias pela falta da mãe e Eva acabou se tornando grande suporte para a irmã menor ao lado da avó.

Ao longo dos anos, Eva nutriu grande rancor por sua mãe, sequer gostava de tocar no assunto. Filipa, ao contrário, não sentia raiva, apenas ressentimentos, e ainda nutria desejo de poder um dia rever sua progenitora. Todas as vezes que Filipa tocava no nome de Helena, sua mãe, Eva ficava zangada e não gostava de prosseguir com o assunto. Chegava a xingar ou maldizer a mesma.

Eva treinava muito com uma espada velha que tinha, esta que era a única coisa que possuía de seu pai. Helena não gostava de falar sobre ele. Havia sumido pouco depois do nascimento de Filipa, nunca se soube a razão de seu sumiço.

Quando a mãe foi embora, Eva pensava muito sobre o assunto e começou a ponderar sobre seu pai ter motivos para deixá-la. Acreditava que sua mãe era uma mulher egoísta, que não amava ninguém, principalmente as próprias filhas. Ao pensar no pai e com as vagas lembranças que possuía dele, um dia tomou sua espada em mãos e resolveu treinar todos os dias, até que decidiu que participaria das competições de Avaluni. Isso tornou-se ideia fixa em sua cabeça. Sua avó achou estranho no início, mas depois acostumou-se com a ideia e até mesmo a apoiou. Percebeu que aquilo aliviava a mente da garota de tantos pensamentos destrutivos que vez ou outra pairavam em sua cabeça. Todo o foco e energia de Eva estavam voltados a isso.

As competições eram abertas para mulheres também desde que provassem ter capacidade para isso. A primeira mulher a participar surgiu no novo reinado, contudo recentemente, uma mulher vencera, a primeira da história, seu nome era Bárbara Anvero. Isso encheu Eva e outras competidoras de esperanças. Bárbara iria participar novamente e era bem cotada nas casas de apostas.

Eva e Filipa possuíam um grande amigo há mais de cinco anos, seu nome era César. Um pouco mais velho do que Eva, ele logo enveredou-se pelo caminho das competições. Ele era o grande treinador da moça. Era muito bom com a espada e em sua primeira participação, ficou entre os dez primeiros colocados. Dois anos depois, ficou em segundo lugar. Seu nome estava sempre entre os apostadores de Avaluni.

Quando Eva pediu para que ele a treinasse, no início, César achou que era bobagem, porém a insistência da moça acabou o convencendo.

Após um ano de treinos incessantes, César ficou impressionado com a evolução de Eva. Definitivamente, ela estava preparada para estar entre os competidores.

– Sabe de uma coisa, Eva?

– O quê? – a moça treinava com sua espada no ar enquanto ouvia Filipa.

– Eu também quero competir.

– Você o quê?! – ela riu com deboche. – Você é uma fedelha delicada demais para isso.

– Ora. Qual o problema? Você conseguiu por que eu não posso também?

– É que não imagino você fazer isso. Você é doce, gentil, delicada… Totalmente o oposto de mim. O primeiro tapa que tomar irá chorar feito criança.

– Que preconceito é esse? – Filipa fez bico. – Você é muito chata! Eu sou muito capaz sim.

– Está bem, desculpe. – Eva riu novamente, não conseguia levar a irmã a sério. – É que não consigo imaginar minha irmãzinha cheia de hematomas assim como eu.

– Mas é só durante as competições. Você não fica assim durante o ano todo.

– Muito bem. Segure a espada desta forma e faça este movimento. Preste bem atenção.

Filipe observou atentamente e ao apossar-se da espada, reproduziu da melhor maneira possível.

– Olha! Até que não está tão mau. – Eva ficou admirada. – Posso até dizer que você leva jeito.

– Então você pode me treinar como César treinou você? – Filipa empolgou-se.

– Você tem certeza? – Eva mostrava-se um pouco descrente do desejo da irmã.

– Claro que tenho. Por favorzinho…

– Está bem. – respondeu evasivamente.

– Ótimo e quando começamos?

– Assim que as competições se encerrarem. Sabe que vou ter que ficar confinada naquele castelo durante este tempo.

– Mas, ainda falta uma semana…

– Sim, Filipa, mas durante esta semana não vou ter cabeça para isso. Desculpe.

– Está bem. – a garota ficou bem desapontada.

– Será que um dia irá competir contra mim? – Eva tentou desmanchar a face desanimada da irmã. Não gostava de vê-la triste ou chateada.

– Nossa! Isso seria incrível. Mas fique sabendo que não é porque é minha irmã que irei dar moleza para você viu.

– Ora essa! Já está me desafiando? – Eva riu divertida.

– Pode apostar que sim, mas fique tranquila que se eu ganhar algum dia, divido o dinheiro com você. Afinal, você é minha treinadora e a irmã que mais amo no mundo.

– Se levarmos em consideração que sou a única irmã que você tem… Agora chega de conversa mole, precisamos fazer as entregas da vovó. Há uma carroça cheia de repolhos, cenouras e beterrabas nos esperando.

– É verdade. Se não ela virá com aquela lista de sermões outra vez.

– Não estou disposta a ouvir nenhum.

– Sabe, às vezes você é meio malcriada com a vovó. Não deveria responder tão mal à ela.

– Ah, Filipa… Eu não tenho muita paciência para esses falatórios. É sempre a mesma ladainha.

A avó das meninas tinha uma enorme horta onde plantava de tudo um pouco e vendia na cidade. Era dali que tirava seu sustento e de suas netas. Tinham uma vida simples e humilde. O dinheiro que Eva ganhou durante as duas vezes que ficou em segundo lugar fora de grande ajuda para elas. Claro que o montante entregue ao vencedor seria de maior serventia, mas o que Eva ganhou já fazia boa diferença na vida delas. Afinal, foram dois anos consecutivos. Os três primeiros colocados eram premiados.

As meninas subiram na velha carroça e rumaram até a cidade, onde iam entregar a preciosa mercadoria. Ao final do dia, voltaram com um punhado de moedas e mais algumas provisões para a família.

Eva era quem negociava tudo. Seu jeito petulante e a forma como lidava com as pessoas, era importante para que não tirassem vantagem das moças. Alguns a achavam um pouco mal educada, outros gostavam da forma como ela agia. Filipa observava e tentava aprender com a irmã.

Assim levavam suas vidas, entre o trabalho, os treinos e sonhos, muitos sonhos.

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