Capa do romance Perigo à Vista

Perigo à Vista

8.8 / 10.0
Em Perigo à Vista, Angel desafia o império da família Figueiredo sob a vigilância de Lucas. Neste romance com elementos de mafia novel e modern novel, a herdeira rebelde luta por poder e autonomia enquanto enfrenta uma perigosa tensão com seu protetor. Leia este free online novel agora.
Resumo de Perigo à Vista
Angel, a neta rebelde dos Figueiredo, rejeita o império da família após descobrir uma traição. Forçada pela avó a trabalhar sob a vigilância de Lucas, o braço direito do clã, ela vê o caos surgir. Lucas a conhece desde a infância, mas agora enfrenta um conflito entre dever e desejo. Em um ambiente de desconfiança, Angel tenta provar seu valor, mas todos ignoram um detalhe crucial: ela não é apenas um risco passageiro, ela é o verdadeiro perigo em pessoa.
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Perigo à Vista Capítulo 1

(Bar noturno, centro de São Paulo – Sexta-feira, 23h47)

Angel

A música alta martelava meus ouvidos, e o tequila derramado escorria pelo meu pulso, misturando-se ao suor. Eu não sabia mais quantos shots tinha tomado, só sabia que cada um deles afogava um pedaço daquela verdade que me envenena por dentro.

- Sobe, Angel! - gritou Marcela, rindo enquanto batia palmas.

Eu já estava em cima da mesa antes de pensar duas vezes. Aliás, pensar duas vezes não era algo que eu vinha fazendo muito ultimamente. Nem uma vez, pra ser sincera.

A mesa de madeira tremia sob meus saltos altos, e eu balancei os quadris, deixando o vestido curtíssimo subir ainda mais. Alguns homens ao redor assobiavam, outros levantavam copos em minha direção. 

- Isso, garota! Solta essa energia represada! - incentivou Joana, filmando tudo com o celular, claro.

Eu girava, ria, e esquecia. Esqueci que minha mãe tinha morrido sem me contar quem era meu pai de verdade. Esquecia que meu pai, ou o homem que me criou como filha, mal conseguia olhar nos meus olhos desde que descobriu tudo.

Era libertador. Por uns minutos, pelo menos. Até que o clima mudou.

O ar ficou pesado, e as risadas ao meu redor se calaram. Alguém tinha aberto caminho no meio da multidão com autoridade. Não precisei olhar para saber quem era.

- Chega.

A voz dele era baixa, firme, e cheia daquela irritação contida que eu adorava provocar.

Virei devagar, desafiante, e lá estava Lucas.

Terno preto impecável, mesmo às onze da noite. Postura de quem nunca relaxou um segundo na vida. E aquele olhar escuro, perigoso, grudado em mim como se eu fosse um problema que ele tinha que resolver.

Eu continuei dançando. Porque sou teimosa. E porque a raiva me fazia querer provocar qualquer um que representasse a velha ordem que me sufocava.

- Desce. Agora.

Ri, jogando o cabelo para trás.

- Não estou atrapalhando ninguém, Lucas. Vai cuidar da sua vida.

Ele não se moveu. Só apertou o queixo, e eu vi o músculo da mandíbula dele tensionar. Sinal de perigo.

Minhas amigas tentaram interferir.

- Ela está bem, nós levamos ela pra casa- Joana disse, mas Lucas nem olhou para elas.

- Vocês deviam ter impedido ela de subir nessa mesa.

O tom não deixava espaço para discussão. Elas recuaram. Ele nem olhou pra ela. Os olhos estavam em mim. Focados. Quentes. Irritados.

- Você não tem escolha, Angel. Ou você desce, ou eu te tiro.

Foi aí que eu fiz o que não devia: virei o copo de uma vez, levantei os braços e gritei:

- EU TÔ ÓTIMA!

Ele não respondeu. Só agiu.

Veio até a mesa, me segurou firmemente pela cintura e me puxou pra baixo num movimento só. Não foi agressivo, mas também não foi gentil. Foi... inegociável. E meu corpo reconheceu isso. De um jeito que eu detestava admitir.

- Solta! - gritei, me debatendo, mas ele já estava me arrastando para a saída.

- Você está bêbada. E amanhã vai odiar os vídeos que vão circular de você dançando em cima da mesa como uma adolescente.

- Tô pouco me fodendo!

Ele parou de repente, me virando para encarar ele de frente. Seus dedos apertaram meu braço, não o suficiente para doer, mas para eu não fugir.

- Pois devia. Porque enquanto você faz escândalo, seu pai está em casa, preocupado.

A menção do meu pai, aquele homem que me criou, que me amou, mesmo sem eu ser sangue do seu sangue, me acertou como um soco.

Por um segundo, quase cedi. Quase deixei ele me levar. Mas então a raiva voltou.

- Você é um maldito mandão - murmurei, tropeçando nos próprios pés enquanto ele me segurava.

- E você está bêbada - ele rebateu. - E completamente fora de si.

- Você não manda em mim, sabia?

- Não. Mas alguém precisa cuidar de você. Já que você mesma não faz isso.

A forma como ele disse aquilo... doeu mais do que eu queria admitir. E me afetou mais do que eu esperava. E antes que eu pudesse responder, ele me jogou sobre o ombro como um saco de batatas e carregou minha bunda bêbada e rebelde direto para o carro.

E o pior?

Eu odiei o quanto aquilo me deu tesão. Até que ele me largou sobre o banco do carro, dando volta no veículo e sentando-se no banco do motorista. 

Após dar a partida e se misturar ao trânsito tranquilo daquela hora da noite, o silêncio dentro do carro se tornou pesado, cortado apenas pelo som da respiração irritada de Lucas, enquanto ele dirigia com uma mão só, os dedos firmes no volante de couro, a outra apoiada na janela, os nósculos brancos de tanto apertar.

 Eu sabia que ele estava fervendo por dentro. E isso, pelo menos, me dava algum tipo de satisfação.

- Vai me dizer alguma coisa ou vai ficar a viagem toda fazendo esse ar de juiz? - provoquei, virando o rosto para ele.

Lucas nem pestanejou.

- Não tenho nada pra dizer que você vá ouvir.

Lucas não se deixava influenciar por minhas palavras e aquilo não era surpresa. Fechei os olhos, tentando controlar a onda de amargura que tomou conta do meu ser. Ou talvez fosse o enjoo causado pela bebida em excesso.

- Você sempre foi assim? - perguntei, sem abrir os olhos. - Todo certinho, todo "eu resolvo tudo", todo... chato?

- E você sempre foi tão irresponsável? Ou isso é recente?

Abri um olho. Vi o maxilar dele travado.

- A irresponsável foi a minha mãe, você sabe - disparei, veneno puro. - Mas que bom que sobrou pra mim pagar a conta.

Silêncio.

Mais silêncio.

Pouco depois, viramos a esquina da mansão. A fachada clássica, impecável, iluminada como se fosse um cenário de filme. A casa da minha avó. A prisão com serviço de quarto.

Os seguranças acenaram, reconhecendo o carro de Lucas imediatamente, e em segundos estávamos subindo a alameda de pedras, cercada por jardins impecáveis.

A casa estava iluminada. Alguém estava acordado.

Meu coração acelerou.

- Meu pai está acordado? - perguntei, a voz um pouco mais fina do que eu gostaria.

Lucas desligou o motor e finalmente me encarou.

- Ele sempre espera por você, Angel.

Era um golpe baixo. Eu sabia que meu pai ficava acordado nas noites que eu saía, mesmo que nunca dissesse nada. Mesmo depois de tudo, depois de saber que eu não era realmente dele, ele ainda se preocupava.

Apertei os punhos.

- Não me faz passar por essa.

Lucas soltou um riso seco.

- Você devia ter pensado nisso antes de subir naquela mesa.

Lucas saiu do carro, contornou o capô e abriu a porta do meu lado. Claro que abriu. Sempre o cavalheiro. Sempre no controle.

- Vamos. Antes que eu decida carregar você de novo.

Olhei para a escadaria de mármore que levava à porta principal. Respirei fundo e saí do carro, minhas pernas ainda trêmulas, o vestido enrugado, o batom borrado. Eu devia ser um desastre.

Lucas fechou a porta com um tunk e veio até mim, mas dessa vez não me tocou. Apenas ficou ali, ao meu lado, e então a lembrança da mesa no bar voltou na mesma hora. A firmeza. A facilidade com que ele me segurava. O cheiro dele.

Subi as escadas com ele ao lado. Cada passo mais leve, como se a bebida estivesse perdendo força e dando lugar a outra coisa.

Chegamos no hall de entrada.

- Pode ir - falei, virando de costas. - Missão cumprida. A delinquente está em segurança.

- Angel...

Virei de volta. Ele estava me olhando como se quisesse dizer algo e não conseguia. Como se estivesse cansado de mim, mas preso comigo ao mesmo tempo.

- Você tá se machucando - ele disse. Simples assim. Sem drama.

- Eu tô sobrevivendo - corrigi, quase sorrindo. - Cada um faz do jeito que dá.

Sem esperar por resposta, caminhei pelo hall , não pronta, mas disposta a enfrentar o que quer que estivesse me esperando lá dentro.

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