
Pelo Meu Filho: A Escolha de Uma Mãe
Capítulo 3
A porta da nossa casa abriu-se de repente. Era o João.
Ele entrou com um sorriso cansado, alheio à devastação que acabara de causar.
"Meu amor! Tiago! Cheguei!"
Tiago encolheu-se atrás de mim, recusando-se a olhar para ele.
João franziu a testa, confuso. "O que se passa? O meu campeão não vem dar um abraço ao pai?"
Ele aproximou-se, mas Tiago agarrou-se à minha perna com mais força.
João suspirou e tirou um pequeno carro de brincar do bolso. "Olha o que o pai te trouxe."
Era um carrinho de plástico barato, do tipo que se vende em qualquer quiosque. Nada comparado com a boneca de caixa que ele tinha dado à Carolina.
Tiago olhou para o carro e depois para o pai, com os olhos cheios de uma desilusão que um adulto não conseguiria fingir. Ele não pegou no brinquedo.
João ficou sem jeito. "Estive primeiro em casa da Isabel para lhe deixar o vencimento. Coitada, precisa do dinheiro para as despesas."
Ele olhou à volta do nosso apartamento húmido e pequeno. "Isto não são condições, eu sei. Mas tem paciência, meu amor. Assim que a Isabel estiver mais estável, arranjamos um sítio melhor."
As mesmas palavras. A mesma promessa vazia.
Na minha vida anterior, eu teria sorrido e dito que não importava, que o importante era estarmos juntos.
Desta vez, fiquei em silêncio.
Isabel apareceu à nossa porta, como uma sombra.
"João, querido, desculpa interromper. Mas a Carolina está com tosse outra vez. Tens aquele xarope que trouxeste da Alemanha?"
"Claro, claro," disse João, virando-se imediatamente para a sua mala.
Ele tirou um frasco de xarope importado, caro. Entregou-o a Isabel, ignorando completamente o facto de Tiago ter estado a tossir a noite toda.
"Obrigada, João. És um anjo," disse Isabel, lançando-me um olhar triunfante por cima do ombro dele.
Quando ela saiu, João virou-se para mim, finalmente parecendo notar o meu silêncio.
"Estás bem, Sofia? Pareces pálida."
"Estou cansada," respondi, com a voz vazia.
Naquela noite, Tiago teve febre. Passei a noite em claro, a pôr-lhe panos molhados na testa, a ouvir a sua respiração ofegante. O meu coração estava apertado de medo. O medo da memória.
De manhã, a febre tinha subido. Ele estava a arder.
Peguei no telefone e liguei para o quartel do João.
"Ele não está," disse o oficial de serviço. "Teve de levar a filha da viúva do camarada dele ao hospital. Parece que a menina também está doente."
O telefone caiu-me da mão.
Estava a acontecer outra vez. A mesma sequência de eventos, o mesmo abandono.
Mas desta vez, eu não ia ficar à espera.
Peguei no Tiago ao colo, enrolei-o no melhor cobertor que tínhamos e saí para a rua. A chuva começou a cair, uma chuva fria e persistente, tal como na minha memória.
"Mãe, tenho frio," murmurou Tiago, aninhando-se contra mim.
"Eu sei, meu amor. Vamos já tratar de ti."
O hospital público ficava a vinte minutos a pé. A chuva engrossou, transformando-se numa tempestade. As minhas roupas estavam ensopadas, o meu cabelo colado à cara. Tiago tremia incontrolavelmente nos meus braços.
Eu estava a desesperar, a sentir o pânico a subir, quando um carro parou ao meu lado.
A janela do passageiro desceu.
"A senhora precisa de ajuda? O seu filho não parece bem."
Era um homem com um rosto gentil e olhos preocupados.
"Por favor," gaguejei, "preciso de ir ao hospital."
"Entre, rápido."
Ele saiu do carro à chuva para me ajudar a sentar com o Tiago no banco de trás. O seu nome era Miguel. Era arquiteto, disse ele.
Quando chegámos ao hospital, ele ajudou-me a levar o Tiago para as urgências. Os médicos levaram-no imediatamente.
Enquanto esperava, exausta e a tremer, vi uma cena que me gelou o sangue.
Num quarto privado, do outro lado do corredor, estava o João. Ele segurava a mão da Carolina, que estava deitada numa cama, com um ar aborrecido mas saudável. Isabel estava sentada ao lado, a comer um bolo.
Ouvi a enfermeira a falar com o João. "Não se preocupe, Comandante. Já pagou por todos os exames e pelo quarto privado. A sua filha terá o melhor tratamento."
A minha filha.
Senti uma raiva fria a tomar conta de mim.
O médico do Tiago veio ter comigo. "O seu filho tem uma pneumonia. Precisa de ficar internado e de tomar antibióticos fortes. Vai ter de pagar o tratamento adiantado."
Eu não tinha dinheiro. O João tinha levado tudo.
Olhei para a minha mão esquerda. Para a aliança de ouro que ele me tinha dado, com a promessa de amor eterno.
Tirei-a do dedo. O metal ainda estava quente da minha pele.
Fui à loja de penhores mais próxima e vendi-a. O dinheiro que me deram mal chegava para a primeira noite de internamento.
Mas era o suficiente.
Voltei para o hospital e paguei. O meu casamento estava oficialmente morto e enterrado. Tinha-o vendido para salvar o meu filho.
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